Foto de Luara Monteiro

Foto de Luara Monteiro

 

André Prando, artista brasileiro que sabe muito bem passear pelo Rock Esperto, como ele mesmo diz. Tem o talento da poesia e seu som está entre os mais queridos de Espírito Santo. Foi vencedor de vários prêmios, e mesmo tendo uma carreira divulgada de forma independente, ele consegue conquistar cada vez mais público pelo Brasil, principalmente pela sua autenticidade ao adotar também o lado mais psicodélico.
André cedeu uma entrevista exclusiva para a Revista Arte Brasileira. O bate-papo realizado por celular foi muito bom, e podemos perceber, que além de ser um ótimo músico, André também é ouro em simpatia.

 

1 – Você vem de uma geração muito brilhante dentro da nova MPB. Como você define o estilo de suas músicas?

Primeiramente, obrigado pelo convite para participar desse bate papo. Bem, na verdade, o momento em que eu me encontro, não sei se enquadra dentro do que tem se chamado de Nova MPB, porque se fala em Nova MPB, já se pensa num nicho bem especifico, que vem Céu, Karina Buhr, Alice Caymmi, essa galera que tem se enquadrado na nova MPB. E eu não sei se me enquadro nesse grupo. Na verdade, não sei se me enquadro em grupos. Eu tenho na verdade dificuldade em dizer se pertenço a algum grupo. Também acho que não há essa necessidade de se intitular, que é tanta coisa sendo feita. E o mais legal é cada galera fazendo o seu trabalho com identidade muito própria. Às vezes eu digo brincando que eu faço um rock esperto, porque são músicas que passeiam muito pela psicodelia, relembrando os anos 70 e com uma roupagem atual, talvez. E “esperto” no sentido de que as músicas têm um intuito de informar, de fazer a pessoa pensar, traz diferentes filosofias por trás das canções. E eu tenho muito interesse que a música faça a pessoa parar pra pensar.

 

2 – A capa do seu álbum “Estranho Sutil” é bem diferente e até algo que ninguém esperaria. De onde veio a ideia?

 Acho que é difícil, na verdade, alguém esperar como vai ser a capa do disco de alguém. Acho que capa de disco é um negócio que é sempre novidade. Sempre inesperado. Mas a capa do “Estranho Sutil” sou eu com 6 anos de idade. E aí tem aquela arte feita com o terceiro olho que é a pineal, aflorada e a criança não tem boca também. O sentido disso, dessa capa, é lembrar o quanto a inocência da criança é criativa, uma sensibilidade para as coisas de uma forma muito natural. É uma coisa natural do ser humano essa sensibilidade, essa capacidade de entender melhor a sutileza da vida. A criança tem muito isso, e a gente vai crescendo e perdendo isso aos poucos, o que é muito triste, mas isso faz uma alusão ao que é o “Estranho Sutil”, que é uma perspectiva diferente das coisas, permitir se enxergar a beleza do feio, é o que eu trago nas minhas letras.

 

3 – Você é o principal compositor de seu repertório. Como funciona seu processo de composição?

Pois é, o “Vão” é um disco com todas composições minhas e o “Estranho Sutil” quase completamente também. Na verdade, meu trabalho tem essa característica do “Cantautor”, ou seja, o próprio autor cantando a própria música. E aí, o “Estranho sutil” tem oito composições minhas, uma inédita do Sérgio Sampaio, que é a música “Última esperança”, e uma do parceiro chamado Augusto Debbané, a balada psicodélica “Vestido cor maçã”. Processo de composição, cara, é bem desregrado, eu diria. Não tem um padrão muito certo. De uma forma geral, eu gosto de compor no violão, já fazendo letra e melodia juntas. Mas como isso nasce, varia muito. Às vezes é um tema que eu tenho na cabeça e fico vidrado nele e começo a destrinchar com letra. Às vezes é uma melodia que aparece na cabeça e com o tempo vou trabalhando nela. Eu tenho o costume de gravar coisas no celular cantarolando ou fazendo anotações em blocos. Funciona muito assim, eu tenho muita coisa ainda não pronta guardada na gaveta. Às vezes, a música começa, e eu fico meses sem mexer nela, e depois volto e consigo entender ela melhor e consigo termina-la. Gosto de compor sozinho, geralmente acompanhado de uma solidão. Os temas variam também do cotidiano, coisas que eu vivo, coisas que eu imagino. Não dá pra dizer que são músicas autobiográficas. Mas livros me inspiram, filmes, outras músicas…

 

 

4 – Além de músico e compositor, você também escreve versos, histórias ou tem trabalhado em outro tipo de arte? Se sim, como anda esse seu outro lado?

Por ter uma formação acadêmica de música, eu já atuei como professor de música. Eu gostava muito de estar em contato com a juventude, falando de arte, de perspectiva, de coisas diferentes, pra além de só música. Mas hoje eu dedico meu tempo ao meu trabalho artístico mesmo, por falta de tempo pra fazer outras coisas. Além do trabalho musical em si, acabo me expressando de outras formas também, como por exemplo, alguém me chamar pra dar palestras, shows específicos como tributos, participar de entrevistas, participar de documentários. E de vez em quando pinta situações diferentes, por exemplo, tem um coletivo aqui de Vitória que chama “Expurgação”, que é quem produziu meu primeiro EP “Vão”. Eles são produtores de audiovisual e produzem várias coisas dentro do ramo de produção cultural. Atualmente, eles estão fazendo um programa chamado “Ensaio aberto”, que ta recebendo banda do Brasil todo, aos domingos. Aí me convidaram para ser o VJ e apresentar o projeto fazendo as entrevistas com as bandas. E é banda pra caramba, do Brasil todo.

Você perguntou se eu faço outras formar de arte, e sim, eu escrevo bastante, mas em geral, tudo que faço é em função do meu trabalho como músico. São versos, poesias, estrofes, que como eu disse antes, eu vou juntando, com o tempo eu vou revisitando e com o tempo tudo vai ganhando mais sentido. Então são poesias e versos que viram música. Histórias também gosto de escrever, apesar de fazer isso pouco, mas gosto muito. Recentemente, eu escrevi um texto que vai pro prefácio do SongBook, de Sérgio Sampaio que vai ser lançado logo em breve. E eu tenho um site que não costumo divulgar muito, que lá eu costumo divulgar textos que eu escrevo, músicas que não foram lançadas ainda, tipo um diário. Mas anda meio desatualizado.

 

5 – Percebe-se claramente o cunho psicodélico em suas músicas, principalmente na parte instrumental. Quais foram suas influências desse meio?

Então, a forma com que meu som dialoga com a psicodelia talvez seja uma forma mais poética, conceitual da coisa, menos noise. Hoje em dia, está em evidência o psicodélico mais noise, mais ruidoso, que é maravilhoso, mas não é muito onde eu caminho. Dialogo um pouco como a forma como Alceu Valença escrevia, me identifico mais. Para você entender, veja a forma como Zé Ramalho é popular e está tão na boca do povo, há tantas décadas e a poesia dele tem muita psicodelia, no sentido de permitir-se possível essa abertura dessa fechadura que são outras percepções aos temas. Temas não populares em canções populares. E é entendido, e é mais nessa onda que eu gosto de caminhar, eu sinto que eu caminho na psicodelia nesse sentido. Em relação a referências, quando eu preparo meu som eu não costumo me espelhar em nenhum tipo de som, não, sabe? Eu gosto de deixar fluir de uma forma natural, minha mesmo, acho que é o barato que a gente sente é de criar o som que é a nossa cara.

 

6 – O site Musicombo chama Estranho Sutil de “um disco com lampejos de Raulzito e músicas que não se faz nos dias de hoje”. O que você tem a dizer sobre isso?

É a impressão deles sobre o som, mas eu acho interessante, de certa forma, existe os lampejos de Raulzito por ter sido e ser uma influência para mim. Agora, músicas que não se faz nos dias de hoje, não sei se isso é bom ou ruim, mas me soa no mínimo interessante, né? É, pode significar várias coisas, na verdade. Não sei se sou o mais indicado para interpretar uma frase que não é minha, mas me parece legal. Parece que eu estou fazendo algo autêntico.

 

7 – Você se destacou em festivais como o V Festival Prato da Casa e III Festival Tarde no Bairro de Santa Teresa/ES. Com todo este reconhecimento, como anda sua agenda de shows e sua popularidade país afora?

Na verdade, esses festivais foram os primeiros que eu participei, foram os festivais do início da minha carreira solo. O festival Prato da casa, foi o primeiro festival que eu participei como André Prando e botei o trabalho solo na praça, e eu ganhei com a música “Inverso ano Luz”, que é uma música do “Estranho Sutil”, sendo que o álbum nem existia ainda, mas a música já. A partir desse festival que eu comecei a me apresentar. Nesse festival Tarde no Bairro, me apresentei em voz e violão na época, e isso foi tudo antes de lançar o disco “Vão” em 2014. E aí, a partir deste, comecei a tocar bem mais e participar em mais festivais. Com esse álbum, toquei em várias cidades do Espírito Santo e acabou que quando lancei o “Estranho Sutil” já tinha um público bem bacana dentro do estado. Não posso reclamar de público não, porque a galera tem sempre acompanhado, curtido e dado força, e isso é bem legal.

Meu trabalho sempre teve uma dedicação de divulgar pela internet. Divulguei bastante de forma independente mesmo. E ai quando comecei a fazer show fora (que eu toquei pela primeira vez em São Paulo, num festival do site Brasileiríssimos; fui ao Rio de Janeiro também) comecei a ver que já tinha um público fora de Espírito Santo que já conhecia meu trabalho. Então, o primeiro show que eu fiz fora, já tinha uma galera cantando as músicas. Isso foi foda e me motivou a fazer mais shows fora. Enfim, com “Estranho Sutil” eu já passei por São Paulo, pelo Rio, BH, Recife, no final do ano passado, participei do Festival MADA em Natal. Em BH toquei num evento conceituado lá bacana, que chama “Noite Cantautores”. Estamos nessa correria. No ano passado, venci um festival promovido pelo Showlivre, com uma disputa de bandas, e eu fui o vencedor, e o prêmio foi uma gravação em estúdio, que eu vou gravar ainda este ano, em março. A gente segue.