(Foto de Paulo Valle)

 

Minas Gerais e rock tem tudo a ver... Pelo menos é o que mostra o novo EP autoral de Ado, intitulado BRANCO NO PRETO. Com um sotaque especial e com uma roupagem diferenciada, o músico mostra ao Brasil que ainda é possível fazer rock nacional com músicas inéditas e boas, mas ao mesmo tempo, sem perder a classe a essência deste que é um dos estilos mais renomados e resistentes do cenário musical brasileiro.

— Na verdade, minha música é uma fusão de rock, soul e letras interioranas. Dizem que o rock nunca morrerá, pois está sempre se reinventando. Talvez eu me enquadre em uma dessas tentativas de reformulação do estilo —, comentou.

 

Abaixo, você confere uma entrevista na íntegra que fizemos com o músico.

 

 

Quais são suas influências brasileiras?

Raul Seixas, Tim Maia, Rita Lee, e Ney Matogrosso.

 

E do estrangeiro?

Deep Purple, Janis Joplin, Wilson Picket, e Aretha Franklin.

 

O fato de você ter vindo do inteiro de Minas Gerais, de alguma maneira, influenciou o álbum poeticamente?

Certamente sim. Minha linguagem é uma linguagem popular, ligada às minhas origens mineiras interioranas. Tenho comigo que um dos maiores problemas da música brasileira hoje, é justamente a falta de autenticidade. Se surge uma tendência musical nova, todos os artistas migram para aquele estilo com a justificativa de que precisam se adequar ao mercado para sobreviver. Eu, particularmente, penso o contrário. Acho que o resultado desse tipo de atitude é uma música enlatada, artificial, e falsa, e acho que o público percebe isso de alguma forma. Por isso eu quis fazer exatamente o oposto, ou seja, ser o mais autêntico e coerente possível com o que sou, e com minhas origens. Sou rockeiro, e do interior, e é isso que sou. E a resposta que estou tendo está sendo muito positiva. Acredito que seja em função dessa relação tão verdadeira que tenho com minha música.

 

E musicalmente?

Influenciou musicalmente também, mas de uma forma um pouco mais inusitada. É que, apesar de minha cidade natal ser muito pequena (Carmo do Paranaíba-MG), com a economia baseada na agropecuária, etc, temos uma tradição rockeira muito forte lá. É uma situação um pouco incomum, mas que existe desde a década de 60, inaugurada por uma banda pioneira, que se chamava “Os Gorilas”. De lá pra cá, dezenas de bandas surgiram ao longo dos anos, e a cultura rock foi só crescendo, a ponto de hoje em dia disputar espaço com estilos muito mais divulgados na mídia, como o sertanejo universitário, por exemplo.

 

 

Você parece ser bem direto nas letras das músicas...

A cultura mineira interiorana é assim, mais despachada mesmo (risos), tanto na forma de agir, como de falar. E eu absorvi muito dessa cultura, já que morei em Carmo até meus 18 anos de idade. Mas um pouco dessa assertividade é intencional. Eu queria que minha música fosse bem direta, como o rock setentista que tenho como influência, e também para gerar uma ruptura com um estereótipo que o rock criou ao longo dos anos, de que não é uma música voltada para o povo, mas somente para os próprios rockeiros. Minha intenção era fazer um rock com uma roupagem popular, direta, e acessível a todas as pessoas. Queria desconstruir a imagem do rock chato e soberbo, e resgatar seu caráter pop e divertido.

 

Esse álbum marca uma nova fase na sua carreira após anos como interprete, não é?

Sim. Como a maioria dos músicos, comecei fazendo cover, tocando na noite. Foi uma fase difícil (muito trabalho, cachês baixos, etc), mas que aprendi muito. Acho que todo músico tem que passar por isso. Foi o que realmente me deu forças para lançar meu trabalho autoral, e procurar viver de música com mais dignidade.

 

Tem alguma história ou curiosidade que envolva o álbum?

Algo realmente curioso foi a tentativa das pessoas de definir minha música. Já chamaram de várias formas, dentre elas: Soul Rock, Rock'n Soul, Rockaipira, Groove Rural, Rock do Cerrado, Black Rock Caipira, e até Rock Gastronômico e Rock Culinário! (risos). Enfim. Eu sei que geralmente os artistas se incomodam com os rótulos que lhes são atribuídos, mas esse não é o meu caso. Minha música é voltada para o público, e cabe a ele interpretar como quiser, e chamar pelo nome que acharem melhor. Acho sinceramente que não cabe ao artista estabelecer isso. É o público realmente que deve dizer.

Outra coisa que posso dizer é que todas as minhas músicas envolvem situações reais, que aconteceram comigo, ou com pessoas do meu círculo pessoal. Entretanto a única música realmente biográfica do disco é SONHOS, BLUES E POESIA. É sobre um relacionamento que tive com uma garota que, infelizmente, acabou partindo desse mundo. É uma música emocionalmente muito forte pra mim.