Lau Siqueira é gaúcho de Jaguarão, mas reside na Paraíba há pouco mais de três décadas. Publicou sete livros de poemas. Participou de algumas antologias importantes como NA VIRADA DO SÉCULO – A POESIA DE INVENÇÃO NO BRASIL, organizada por Frederico Barbosa e Cláudio Daniel; POEMAS QUE ESCOLHI PARA CRIANÇAS, organizada por Ruth Rocha; BICHO DE SIETE CABEZAS, antologia de poesia brasileira lançada na Argentina e organizada por Martin Palacio; A ARQUEOLOGIA DA PALAVRA E A ANATOMIA DA LÍNGUA, antologia de poetas dos países de Língua Portuguesa organizada pelo moçambicano Amosse Mucavale.

Participou de antologias regionais e estaduais, também. O poeta prepara uma coletânea dos seus primeiros livros para a Editora Casa Verde, escreve mais um livro de poemas e pretende publicar seus ensaios, reflexões e artigos sobre leitura nos próximos anos. Os seus três livros publicados pela Casa Verde, POESIA SEM PELE (2011), LIVRO ARBÍTRIO (2015) e A MEMÓRIA É UMA ESPÉCIE DE CRAVO FERRANDO A ESTRANHEZA DAS COISAS, podem ser adquiridos diretamente com a Editora Casa Verde pelos e-mails, casaverde@casaverde.art.br e lchaffe@gmail.com.

 

Abaixo, veja na íntegra uma entrevista que fizemos com o escritor:

 

Parece ser bem interessante a temática dos seus poemas no livro. Comente.

É meu sétimo livro de poemas. Em nenhum deles me preocupo tanto assim com a temática. Não direciono nada. Permito que a poesia me leve. Não produzo novidade alguma. Apenas escrevo sobre as coisas do dia-a-dia de uma pessoa comum. Não digo, “agora vou escrever um poema erótico, agora vou escrever um poema com temática social”. O despojamento, a vontade de transgredir e “transgredir-me” permanentemente faz com que eu creia que as mutações, as experimentações, as irreverências, as ironias caiam melhor na construção do verso. O tema é praticamente irrelevante.  

No entanto, parece que o tempo, a memória, as impermanências, de certa forma, são temas recorrentes neste livro. A epígrafe de James Joyce já aponta isso: “O vento indomável que passa não vai mais/ Voltar, não vai voltar.” Mas, a verdade é que não tenho essas preocupações. Apenas escrevo. Sem culpas e sem compromisso com qualquer tipo de consagração ou reconhecimento. Creio que a poesia bebe nas linguagens da vida, onde “o novo não me choca mais”, como diria o grande e inesquecível poeta Paulo Leminski. Viver intensamente cada minuto é mais importante que tudo. A vida oferece temáticas permanente e mutantes para o poeta. No mais, são as domas e as rebeldias da linguagem que complementam as ferramentas da criação.

 

No livro, você fez alguns questionamentos sobre a política. Como você trabalha esse tema no livro?

Tem um poema, GRAVATARIA TROPICAL que aborda um pouco a situação que nosso país atravessa. Não chega a ser um questionamento, mas uma constatação. Tem político querendo mentir mais que poeta. Não dá, né? Têm poemas de temática social que também podem ser considerados políticos. No mais, acho que o que há de político verdadeiramente é publicar um livro de poemas sem qualquer patrocínio e promover este livro a partir de uma pequena editora. Fazer com que não dê prejuízo. Apostar nos leitores e leitoras. Nas pessoas que compram e, assim, viabilizam a edição. Nadar na contracorrente do mercado e dos editais não é fácil. É um ato de resistência. Publicar um livro que estará fora das livrarias, das grandes redes editoriais instaladas nos shoppings, significa propor algo novo para o mercado da literatura contemporânea. Novas saídas para a visibilidade da obra. Ter convicção desta caminhada por saber exatamente o que significa o formato atual do mercado do livro é uma atitude política. Mas, poesia é outra coisa. Ou melhor: poesia é uma coisa e política é outra. Poesia nem coisa é.

 

O livro tem um “Q” de factual?

Tem dois tipos de leitura que acho fundamental para um poeta. A leitura dos livros e a leitura da vida, do mundo. Acho fundamental ler os grandes clássicos, mas concordo com Ezra Pound: não devemos reproduzi-los. Escrever apenas a partir dos livros nos leva naturalmente a realizar cópias malfeitas dos grandes poetas do passado. Mesmo que sejam leituras necessárias. Não abro mão dessas leituras. Não abro mão de me colocar no meu lugar e no meu tempo. Por isso também leio os novos. Os novíssimos, até. Leio com atenção e sempre me surpreendo e me alegro. O prazer estético da leitura poética é algo indescritível.  O Brasil está revelando bons poetas permanentemente. Ignorá-los é uma burrice enorme e, me permita, uma falta de responsabilidade e de honestidade para com a Literatura. Todavia, precisamos ler o mundo. Observar o que nos cerca. Esta talvez seja a fonte mais limpa da poesia. A inexistência, as invisibilidades. Precisamos estender a retina para esses caminhos e descaminhos, para o aqui e agora, para as medidas não lineares da existência humana. O poeta é um aprendiz permanente. Mário Quintana, aos 80 anos, me disse que era ainda um “aprendiz de feiticeiro”.

 

A MEMÓRIA É UMA ESPÉCIE DE CRAVO FERRANDO A ESTRANHEZA DAS COISAS, da onde saiu esse título?

Saiu da minha incompetência. Com o livro já pronto, fiquei muito tempo tentando imaginar um título que fosse minimamente representativo do conteúdo. Encontrei a solução no primeiro poema do livro. O título, na verdade, é a primeira estrofe inteira deste poema. Já fiz isso anteriormente. O meu primeiro livro se chama O COMÍCIO DAS VEIAS. Título que extraí de um verso, de um poema. Achei melhor que a solução dos trocadilhos que já usei em TEXTO SENTIDO e LIVRO ARBÍTRIO, pois após a publicação começamos a perceber que não fomos os únicos a ter a brilhante ideia. No mais, gostei do resultado nesta edição. Sou muito grato à Laís Chaffe, minha editora, ao talentoso Roberto Schimitt-Prym que mais uma vez fez o projeto gráfico. Também agradeço a Bianca Santini, artista que fez o desenho da capa. Um livro é sempre produto de um esforço coletivo.

 

Desde de quando você vem escrevendo este livro? É possível perceber alguma evolução na sua poesia no livro?

A grande maioria dos poemas deste livro foram escritos entre 2016 e 2017. Portanto, são muito recentes. Alguns, talvez, são de 2015. Na verdade, ficou muita coisa de fora, por escolha ou por esquecimento. Quando comecei a escrever, o livro seria outro. Seria o livro POEMAS VERMELHOS, a ser publicado pelo Sebo Vermelho, de Natal. No meio do caminho mudei tudo e o livro POEMAS VERMELHOS voltou pra gaveta. Retomo em breve com outro formato e outra proposta. Não sei se há evolução. Até porque considero que algumas “evoluções” são verdadeiras tragédias. Mas, posso afirmar que passei a publicar poemas mais longos, mesmo não abrindo mão do verso curto, do poema-pedrada. Não sei se há evolução nisso. Fiz isso em TEXTO SENTIDO (2007). O que posso dizer muito claramente é que passei a escrever poemas sem muita preocupação com o resultado. Escrevo como um aprendiz, como se estivesse desenhando pra mim mesmo. Escrevo como estivesse querendo dizer algo, sem tentar dizer coisa alguma.

 

Quais os momentos do dia que você usou para escrever o livro? Em momentos do cotidiano mesmo?

O meu cotidiano é muito cheio. Meu trabalho absorve uma grande fatia do meu tempo e das minhas preocupações. Na verdade, quase que integralmente em alguns momentos. Além disso tenho duas filhas, uma neta e um neto que merecem sempre minha melhor atenção. Mesmo assim, não escrevo apenas nas horas vagas. Principalmente porque escrever pra mim é, muitas vezes, um prazer que chega quase ao desespero. Anoto, gravo alguma coisa durante o dia e quando chego em casa tento transformar em verso. Nem sempre consigo. Não há uma regra. Às vezes o poema já está pronto e em poucos minutos ele salta do abismo. Escrever poemas é um aprendizado permanente. Escrever é expor-se, sem medo de parecer ridículo. Aliás, algumas vezes até ostentando a ridicularização do ato. Mas, preferencialmente escrevo á noite. Moro só e a escrivaninha e o computador ficam estrategicamente a um metro da cama. Isso porque alguns poemas, mesmo haicais, me deixam absolutamente exausto. Quando concluo me jogo nos braços de Orfeu.

 

Tem alguma história interessante ou curiosidade que envolva o livro?

Acho que esse livro já produziu e vai sim produzir histórias interessantes. Em dezembro fiz dois lançamentos bárbaros: um em Jaguarão, onde nasci e um em Porto Alegre, onde fica a editora. Publico desde 93, mas pela primeira vez pude lançar na cidade onde nasci. Considerei isso um prêmio literário. Em João Pessoa lancei no dia da abertura do Folia de Rua, o pré-carnaval da cidade. Um monte de gente bacana esteve por lá. Pessoas conhecidas e pessoas desconhecidas. Foi lindo! Por conta da quantidade de pessoas que manifestaram interesse, mas não puderam ir, vou fazer uma tarde de autógrafos após o carnaval. Até final de março devo lançar em Natal, Recife e Campina Grande. Em abril entro em férias e saio de ônibus de João Pessoa, fazendo lançamentos em vários estados, diversas cidades. Tudo já está sendo agendado. Talvez esta aventura editorial seja o que há de mais interessante. Até porque pretendo registrar tudo num blog específico, dedicado ao livro.

 

TRÊS POEMAS DO LIVRO

“A MEMÓRIA É UMA ESPÉCIE DE CRAVO
FERRANDO A ESTRANHEZA DAS COISAS”

 

TAPERA

O tempo é uma casa
desabitada e esquecida
no meio da estrada.

Que passou por ela
e viu apenas uma
casa, na verdade não

viu nada.


CENÁRIO DOLOSO

Depois da imagem
de um homem acorrentado
ao destino pelas ruas
do Crato,

um menino envelhecido
transformado em estatística
nos sinais de João Pessoa.

Depois de tantas esquinas
e tantas mãos estendidas
sem anéis e sem dedos...

Percebo que o mundo
mudou tanto que
permanece o mesmo.

 

LETAL

aqueles seios bélicos
apontando seus bicos

...
pequenas torres
do desejo derretendo
em minha
boca