Foto de Anderson Medeiros

 

O movimento tropicalista mudou muito a forma como vemos a música hoje. Um bom exemplo disso, é o álbum de estreia de Fernandes, intitulado BONANZA. Mas os elogios não param por aí. Fernandes abusou muito de misturas ritmicas, o que causou uma falta de definição pro álbum - que quer dizer que é muito bom! Por outro lado, e não menos intenso, Fernandes usou as palavras de maneira inteligente, fazendo poesias.

BONANZA é fruto de um instinto inerente do ser humano, a crença. Processo natural presente nos ciclos de idas, vindas, altos e baixos, transformações, mutações e constante evolução. Onde a busca do imaterial é cada vez mais necessária, o desapego e a desconstrução são sementes diante das tempestades diárias que somos submetidos. BONANZA se faz presente como bússola pra nortear os sentidos, acalentar espíritos, e apaziguar corações —, disse Fernandes.

 

 

Apesar de você ser jovem (26 anos), você traz uma bagagem muito madura musicalmente. Pode falar um pouco sobre isso?

Música sempre foi muito acessível na minha casa, e sempre fui um cara muito curioso. Já toquei em banda marcial no colégio, grupo de percussão e tive várias vivencias que a música sempre esteve relacionada. Pra mim foi um processo muito natural chegar nessa linha de construção do BONANZA. É um reflexo das minhas andanças como músico.

 

Você foi fortemente influenciado pelo movimento tropicália, não é? O quanto essas ideias tropicalistas ajudaram na elaboração do álbum?

Sem dúvida. O que mais me fascina nessa movimentação é a sonoridade. Entender como a guitarra que era um instrumento banalizado pode assumir um lugar de fala e somar na criação de grooves, swings e levadas que ajudou a construir a identidade da música popular brasileira.

 

Ainda nessa pergunta, como chegou a conhecer o movimento tropicalista?

Meu contato mais direto foi com o Gil, a obra dele me permitiu expandir minha musicalidade. Ele tem laços muito fortes com o sertão, um violão que brinca com harmonias e contratempos e uma poesia que é leve e densa ao mesmo tempo. Gosto disso! Quando vi já estava dentro daquele universo e isso reverberou na minha forma de tocar e produzir meu disco.

 

Esse é o seu primeiro álbum. Você teve dificuldades por ser o primeiro? E Vantagens?

Por se tratar de um disco que é independente é natural que se tenha um pouco de tudo isso. Ainda mais sendo o meu primeiro. Mas acho massa a gente se colocar nessa situação pois temos que nos superar a todo momento. Nesse trabalho pude acompanhar todo o processo de construção. Desde a composição das músicas até o disco indo para fábrica para prensar o físico. Isso me trouxe uma bagagem que é necessária para um músico nos tempos atuais vivenciar. 

 

Tem alguma pista dos bastidores dos processos de produção e gravação?

Nesse disco tive a oportunidade de trabalhar com pessoas que fazem parte da minha formação como músico e ser em construção. Gravamos uma parte do disco em Recife no Estúdio Carranca – PE e outra parte no Rio no Estúdio MiniStereo – RJ. O disco foi produzido por mim com parceria do Jr. Tostoi (Produtor Musical, Lenine, Vulgue Tostoi) que acompanhou todo o processo de construção do disco. A arte foi assinada por Neilton Carvalho, guitarrista da banda Devotos e artista plástico. O disco ainda conta com participação de Manuca Bandini (Cantor e compositor) e Eduardo Marinho (Poeta e filósofo de rua). Foi um processo intenso, mas sem dúvida muito transformador.

 

E a criação das músicas, como foi?

Fui em busca de canções que juntas pudessem construir o conceito do disco.

Que é justamente ser um disco plural, que não tem um caminho óbvio. O BONANZA fala muito sobre isso. Sobre manter-se pleno em meio as tempestades diárias que somos submetidos, que depois da tempestade vem a bonanza. Cada música segue pra um caminho e juntas constroem algo maior.

 

Qual foi a receptividade do seu EP de 2014? E o que você espera para esse álbum novo?

Foi muito positiva, pude perceber que além de mim outras pessoas queriam que eu fizesse um álbum maior. Então quis que o BONANZA tivesse outro processo de construção, diferente de como foi com o EP Sem eira, nem beira. O disco te permite ir a outros locais, tocar pra pessoas que ainda não te ouviram. Os tempos hoje são outros, o disco é o passaporte e show ao vivo ainda é lugar onde rola uma celebração, onde todo mundo vai em busca de trocar energia, vivenciar o momento.