Como retrato de cada integrante, banda Araucana explora vertentes latino-americanos em novo álbum [ENTREVISTA]

Por Juliano Mengatto

 

É sob o olhar da música brasileira, que a banda Araucana vem explorando novas desconstruções da música latino-americano, uma das principais referências do grupo para a publicação do álbum ESPIRAIS DE AQUARELA, que tem até rastros da língua espanhola.

"O fato de até então não existir efetivamente uma banda e não termos uma agenda de palco e público, nos deu liberdade de tempo, prazo e tudo mais, então pudemos testar, regravar, convidar participações e tudo que desejamos. Passamos todo o ano de 2017 produzindo. Isso fez com que, por exemplo, surgisse a ideia de colocar charango e flauta em PATRIA, PAMPA Y LIBERTAD; bandolim em ESPIRAIS EM AQUARELA; percussões de forma geral e pudéssemos experimentar diferentes elementos em cada música.", comentou Carlos, guitarrista da banda.

Originais de Caxias do Sul, o conjunto é formada por Nina Fioreze (voz), Carlos Balbinot (guitarra), Maurício Kehrwald (violão), Rafael De Boni (acordeon), Mateus Mussatto (bateria) e Lucas Chini (baixo)

 

Abaixo, você confere na íntegra uma entrevista que fizemos com o grupo.

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão verde no quadro abaixo.

 

 

Neste trabalho, vocês buscaram fazer uma desconstrução de vertentes musicais, principalmente a latino-americano. Falem um pouco mais sobre isso.

Carlos: Na verdade isso foi uma consequência, afinal a gente vive em um lugar, mas absorvemos toda informação que está ao nosso redor, seja ela cultural, estética, sonora ou visual. A cultura de países que são nossos vizinhos América do Sul é muito mais forte aqui no Rio Grande do Sul do que em qualquer outro estado brasileiro. A Araucana começou como sendo um projeto de milongas do Maurício Kehrwald (que mora na Argentina - autor das letras e violonista), mas conforme foi ganhando integrantes e cada um nós foi trazendo ideias e estilos, as músicas foram pra caminhos diferentes de arranjos e propostas, mas seguindo o norte do recorte geográfico que propomos. A maioria de nós já tocou em projetos que flertam com a América do Sul e o acordeon, por exemplo, virou um dos meus instrumentos favoritos em trabalhos que toco e que produzo.

Rafael: Não diria uma desconstrução, mas sim uma abordagem mais livre e de acordo com os estilos de cada um dos músicos, que, somadas, formaram a identidade da banda.

 

Que vocês são influenciados pela música feita na América Latina não é novidade. Neste meio, quais são suas influências?

 Carlos: Talvez o mais interessante é que todos nós temos referências bem diferentes. Pra mim, teve 2 álbuns que foram norteadores na produção desse álbum (ambos do Chile): KUERVOS DEL SUR – EL VUELO DEL PILLÁN e ANA TIJOUX – TENGO. Mas o que mais fico feliz é poder ter aplicado referências de bandas que gosto muito, como Deftones, Massive Attack, Molotov, Faith No More e até coisas mais contemporâneas, como o The Neighbourhood.

Nina: Ouço muito Jorge Drexler, Perota Chingo, Fito Paez, entre outros.

Rafael: Minhas principais referências na America Latina são Astor Piazzolla, Mercedes Sosa e Raul Barboza, além de ouvir muita milonga e chamame.

 

E na música brasileira?

Carlos: Vitor Ramil é uma referência comum para todos nós. Sou muito fã da Ultramen, de Porto Alegre, que sempre fez uma grande mistura de estilos e elementos. Durante a produção descobri uma banda que passei a ouvir bastante, a El Efecto (RJ), que faz uma fusão muito legal de diversos elementos da nossa rica música brasileira. O Machete Bomb (PR) também me mostrou que é possível subverter com classe e fazer o que quiser.

Nina: Novos Baianos, Caetano, Gil, Metá-Metá, Elis Regina.

Rafael: Na música brasileira, Dominguinhos, Chiquinho do Acordeón e Sivuca.

 

 

Como essas influências moldaram o álbum?

Carlos: Até é difícil explicar, pois são coisas que acabam se tornando naturais. Talvez o nosso grande lance seja a miscelânea de influências. Todos nós temos projetos musicais que circulam bastante, então esses mesmos também acabam se tornando parte das nossas influências na figura dos colegas de banda ou experiências.

Nina: Acho que a Araucana é uma espécie de laboratório pra todos nós. Músicos com influências bem diferentes, e que usaram esse projeto pra um tipo de experimentação pessoal nunca antes feito. Cada um de nós tem projetos envolvendo outras vertentes da música, tocando pra públicos distintos e tendo experiências bem diferentes daquela que a Araucana proporciona pra cada um de nós. Esse projeto é, sem dúvida, um desafio pra todos, por que nos faz sair da nossa zona de conforto, mas ao mesmo tempo, estar extremamente confortáveis com a forma como nos colocamos dentro de um projeto tão diversificado. Podemos fazer do nosso jeito, colocar nossa cara, sem perder nossa identidade e, ao mesmo tempo, criando uma nova identidade pra todos nós como coletivo.

Rafael: Para mim, na maneira de tocar, já que tive liberdade para adicionar meu gosto aos arranjos.

 

O grupo começou por intermédio de ideias e esboços do músico Maurício Kehrwald. Como foram esses momentos? E como vocês trabalham com esses esboços?

Carlos: O Maurício já flerta com essa mistura faz um tempo, mas até então nunca com banda. O processo que fizemos foi bem diferente do convencional, pois primeiro fizemos um álbum e depois uma banda. O trabalho foi produzido no meu estúdio (Noise Áudio, de Caxias do Sul-RS) e fui trabalhando individualmente com cada um dos integrantes, criando por camadas e cada um compondo em cima da linha do outro. É diferente, difícil, mas pra nós funcionou.

 

Fora isso, como foi surgindo a ideia do álbum?

As letras tratam sobre existencialismo e a questão da ação/consequência que lidamos cotidianamente. Com isso, buscamos passar isso também na parte musical, trabalhando silêncio, dinâmicas e momentos de tensão e reflexão.

Nina Fioreze: O Maurício nos deu total liberdade pra trabalhar com melodia e harmonia, e isso foi muito bom. Gostei das letras logo no primeiro momento, por que elas falam de coisas que todos nós certamente sentimos. Isso fluiu através da cor que eu pude dar nas harmonias vocais e na forma como desenhei as vozes pra cada uma das 9 faixas do disco. Tentei não pensar em coisas semelhantes ao que eu estava fazendo naquele momento, e só deixar fluir de uma forma que fosse confortável de cantar e de ouvir. Ao mesmo tempo, acho que ter uma voz suave pra cantar letras fortes, traz um contraste legal pra esse trabalho.

 

Qual a proposta do álbum, de uma maneira geral?

Carlos: O álbum é um retrato sincero de todos os envolvidos. O norte desse trabalho sempre foi algo artístico, sem se prender a rótulos, com liberdade pra arriscar, testar e tudo mais.

 

Tem alguma história ou curiosidade que envolva o álbum?

Carlos: Que todos os integrantes só estiveram juntos no mesmo ambiente há pouco mais de 2 meses (fevereiro/18). Como fui eu que produzi, tive contato com todos individualmente, mas o Rafael De Boni (acordeon), só conheceu a Nina Fioreze (voz) e o Mateus Mussatto (bateria) no primeiro ensaio.

 

Fiquem à vontade para falarem o que quiserem.

Carlos: Agradecemos demais pelo espaço e esperamos que a nossa música alcance e agrade o maior número de pessoas possível. Já aviso que estamos trabalhando em mais materiais.

Ouçam os trabalhos aqui da nossa efervescente serra gaúcha que tem muita coisa legal: Yangos, Catavento, Grandfúria, Cuscobayo, Ccoma, Não Alimente os Animais, Salve Jurema, Duo de Viola e Acordeon e muitos outros.

Pra quem quiser nos acompanhar e ouvir o Espirais em Aquarela, aqui estão alguns links:

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