Dores do Mundo – Geena Weissman (Andrea Costa)

 

Ferdinand (amigo/a – história da minha história), italiano (quando nos conhecemos ambos estávamos com 22 anos) um homem muito belo, muito educado de boa índole.

Sempre estava com um lenço de cambraia no bolso, caso precisasse. Ele é do tipo “gentleman” sempre tinha uma palavra doce e nunca, nunca falava mal de outra pessoa, procurava sempre o por quê de uma ou outra atitude. Formado em direito, mas perdidamente apaixonado por arte dramática, fez teatro, como dizia ele: “Minha liberdade começa aí, rs”.

Como disse, era muito belo, estatura média, costas largas, pele morena, cabelos castanhos claros, olhos idem, traços leves, um rosto sereno, voz mansa, falava pausadamente e ria de maneira espontânea. Sabe aqueles homens que tem um olhar cativante, sorriso lindo, e uma pele queimada pelo sol, Ah… que pele!

Ele é desses que gostaria de ir para cama, mas a amizade – irmanada dizia – NÃO !

Encontramos-nos num dia frio de junho em SP no MASP, conversamos, conversamos, saímos para tomar um café e de lá para cá nunca mais nos deixamos, Ferdinand minha melhor amiga. Sempre podíamos contar um com o outro e assim formou-se nossa amizade.

Ferdinand era mais centrado que eu nessa “coisa” de amor, ele é aquela pessoa que me traz ao real, amigo sabe?!

Bem, ele havia sido casado com um brasileiro, um artista plástico, que expunha seus belíssimos quadros numa galeria alternativa em São Paulo, um lugar onde toda arte era bem vinda, e Lúcio Malva passava parte do seu tempo “apresentando-se” nessa galeria, justamente o lugar em que conheceram-se. Ferdinand foi a busca de quadros para decorar seu apartamento, quando viu as obras de Malva, encantou-se, e assim puseram-se a conversar e perceberam o quanto tinham em comum, inclusive a mesma paixão por teatro. A partir desse momento ficaram juntos e essa relação durou por mais de dez anos.

Foi um relacionamento cheio de felicidades, mas também por momentos difíceis como todos… Num momento em que o Brasil caminhava por entre o “golpe militar” e toda aquela censura, Malva ascendia cada vez mais como artista e Ferdinand na política, ambos se opunham a ” ditadura” imposta aos brasileiros, claro que mais cedo ou mais tarde iriam “convidá-los” a passear no DOPS. Só que diferente do que Ferdinand pensava, ele não fora levado pelos militares e sim, Lúcio, depois de uma “noite” que não tinha mais fim, eles o jogaram na porta do prédio em que viviam. Ferdinand havia passado a noite inteira em busca de Malva, em todas as delegacias, quartéis, desde o beco mais imundo em que se possa pensar, até a casa militar ele foi, por fim, o encontrou jogado na sua própria porta.

Ferdinand sabia que aquela farsa não acabaria ali, cuidou de Malva e decidiram juntos que ele precisava sair do país e assim aconteceu. Lúcio Malva mudou de nome, novo passaporte, um novo mundo, uma nova história, uma nova vida. Ferdinand não foi com ele, ficou aqui para ser preso um tempo depois, mas ainda assim, continuou a militância.

Ele e Lúcio escreviam um para o outro e algumas vezes falavam-se por telefone, depois restou a boa lembrança, Lúcio enamorou-se de uma outra pessoa, Ferdinand por sua vez também, mas eles tinham uma fala em comum? “Uma noite sem fim, uma lagrima de saudade, um amor inigualável- Você”.

Bem, Lúcio voltou ao Brasil no período da Anistia, ele e Ferdinand reencontraram-se e a noite sem fim aconteceu, a lágrima caiu e o amor presentificou-se. Lúcio voltou para Suécia e por lá ficou.

Ferdinand às vezes fala dele quando algum vento traz a lembrança de Lúcio, ele sempre comenta e sorrindo diz: “Esse cheiro de saudade me lembra o Lúcio…rs”

Digo sempre, que ele sem dúvida nenhuma fez e faz de ‘eu’ ser quem eu sou. Faz-me fincar os pés no chão, um amigo, assim só se tem uma vez a cada cem anos, por isso não o perco de vista, não o deixo longe de mim, nem do meu coração e sempre dançarei o tango que essa vida é, com ele!