O monstro no armário – de K. Leine

 

Desde criança meu sonho era ser pastor. É claro que este sonho não era meu exatamente, mas fui induzido a querer isso. Eu era arrastado para o culto todos os dias; fazendo calor ou frio, pelo menos três horas por dia eu usava um terno sufocante. Aos olhos de todos, minha família é perfeita. O marido e pai carinhoso que coloca comida na mesa, a mãe que cuida da casa e educa o filho e eu, o menino obediente que está com o futuro encaminhado. Mas o fato é que ninguém sabe o que acontece por detrás das cortinas.

No quartinho escuro e vazio me sento no colchão solitário no chão e sinto as marcas inchadas e doloridas pelo meu corpo. Não tenho noção da hora, até a porta se abrir abruptamente e meu pai diminuir o quarto com o chamado para levantar. Subo as escadas temeroso pelas tarefas do dia. Já pensei em fugir, pegar o trem ou um ônibus e nunca mais aparecer. O problema é que eu sou vigiado a maior parte do tempo, e a outra parte trancado em um quarto tamanho 2×3 no porão. O café está servido na pequena mesa redonda de três lugares. Meu pai, minha mãe e eu sentamos e demos as mãos para rezar. Ao sentir minha reação por minha mão estar dolorida, meu pai a aperta mais. “Senhor todo poderoso e misericordioso. Obrigado pela vida que temos e obrigado por este alimento que nos fortalece. Amém”. Pão amanhecido, queijo, ameixas secas e suco em pó sabor guaraná. Sempre achei que não tínhamos nada, por isso a vida que levava, até observar pela fechadura da porta do quarto dos meus pais minha mãe comendo bolachas recheadas.

“Garoto, sua mãe e eu queremos fazer uma horta naquele pedaço”, diz meu pai apontando o lado esquerdo do terreno nos fundos da casa. “Já fiz a medição, você só precisa cavar o buraco”. Ao meio dia minha mãe nos chama para o almoço. Exausto e com as costas ardendo dou a última enxadada na terra e me lavo com a mangueira. Os almoços geralmente são mais elaborados; arroz, feijão, frango e salada. Enquanto minha mãe me manda lavar a louça, meu pai sai para ver meu trabalho. Com o sabão na mão e o segundo prato sendo ensaboado meu corpo treme e se paralisa ao ouvir a voz tão temida de raiva chamando meu nome. Como um animal enfurecido meu pai me puxa pelos cabelos fazendo o prato deslizar por minhas mãos e me pende com o dedo em minha axila.  Lá fora ele me joga dentro do buraco que tinha cavado e a queda é amortecida por lama. “Seu pedaço de merda, olha o que você fez. Furou o cano. Quem vai ter que arrumar essa merda toda agora?”. Enlameado sou arrastado até o porão tomando socos pelo braço e pelo tórax para depois ser trancado no quarto escuro. Algum tempo depois, que me parecem horas, a porta se abre. “Mãe…” começo a chorar, mas sou interrompido.

– Você quebrou um prato que herdei da minha avó.

– Mas mãe, você viu…

– Vire-se.

– Mãe… – Sussurro com as lágrimas rolando por meu rosto.

– VIRE-SE. – Grita.

Antes mesmo de abaixar toda a calça suja ouço um barulho cortante que toca minha cintura me fazendo rolar de dor. Sem paciência minha mãe sobre em cima de mim terminando de tirar minha calça e me da mais cinco chicotadas.

À noite ao chegarmos à assembleia o pastor nos informa de que o culto seria especial. Assim eu e outras crianças nos separamos dos adultos, que se reuniram perto do altar enquanto nós ficamos perto da saída.

– Chega aqui Antônio. – Diz Diego me chamando para uma roda de garotos. – Quero ver se você gosta, rapaz. Sabe a Linda, a loirinha ali? Tracei ela.

– Como assim? – Eu não estava confuso sobre o que houve, mas sim como ele fez.

– Comi a xoxota dela, pô. Arrumei uns comprimidos que fazem dormir. Dei para meus pais, ela deu para os pais dela e foi lá em casa. Apertada e quentinha, que delícia cara. Gosta disso, Antônio?

Minha mente vagou com todas as coisas que eu poderia fazer se tivesse esses comprimidos. A vontade de tê-las me domou de um jeito que meus pensamentos se voltaram para as coisas mais fantásticas do mundo. “Como as consigo?”

Esperei três dias. Na quarta-feira me encontrei com Diego no banheiro da assembleia e peguei quatro comprimidos com ele. O plano não podia esperar mais, tinha que ser hoje a noite. Em casa antes de me trancarem no quarto meus pais me pedem suco gelado. Preparo com entusiasmo. Discretamente tiro os quatro comprimidos e os dissolvo nos dois copos. Espero dez minutos na cozinha e ao voltar a sala encontro dois corpos apagados no sofá. Era agora, eu sumiria de vez. Pegaria minhas coisas, um dinheiro dos meus pais e iria para a estação. Ao me virar para dar início à trama, fui impedido por algo maior, algo doce, frio e macabro.

Arrasto minha mãe até seu quarto facilmente. Rasgo suas roupas com a tesoura. Abro as gavetas até achar cordas e arames. Amarro suas mãos para trás; amarro seus pés; amarro seus pés com suas mãos. Carrego meu pai com mais dificuldade. Com um pouco de sacrifício jogo-o em cima da cama e amarro seus pés e suas mãos separadamente na cama. Para ficar mais interessante pego o arame farpado e dou voltas passando por debaixo da cama e por sua barriga. De manhã a brincadeira irá começar.

Ao acordar minha mãe começa a gritar. Meu pai acorda logo em seguida e me chama raivoso, mas se detém pela dor da farpa em sua barriga. Como a gritaria aumenta, entro no quarto e dou um tapa na cara dela. Com sua perplexidade coloco algumas meias e cuecas sujas em sua boca e tapo com uma fita. Puxo-a pelos cabelos até ficar ajoelhada. Meu pai não para de gritar e sua barriga começa a sangrar. Pego um martelo em sua caixa de ferramentas e bato em seu joelho. O barulho que sai de sua boca é muito mais alto e desesperador, mas é com ele que consigo fazer com que fique quieto.

Tendo os dois ali aos meus pés sinto-me euforico, como se o poder estivesse em minhas mãos. A alegria me engrandece e tudo que passei até hoje se apaga de minha memória.

Os olhos de espanto e de terror dela aqueceram o que já havia sido apagado dentro de mim. “A bíblia diz que as pecadoras, prostitutas e indignas eram apedrejadas. Como deve ser essa sensação? Você pode me dizer?” Digo pegando o martelo. Seus olhos me fitaram como nunca antes. O primeiro golpe em seu ombro a fez cair de lado. Em um ato de descontrole me jogo sobre ela e bato com o martelo sobre todo seu corpo. Deixo a cabeça por último para apreciar a luz deixando seus olhos.

Ele, chorando pela primeira vez, emite um grito sufocado e eu sinto o que ele vem sentindo há anos. “Trocamos de papel, não é? Jesus Cristo foi crucificado por ser considerado um pecador. Você é um pecador”. Pego quatro pregos grandes e o martelo. A cada martelada me sinto forte, me sinto imponente. O sangue escorre pela madeira da cama e cada vez mais os ferimentos em sua barriga se abrem.

Sujo de sangue vou ao banheiro tomar banho, um banho longo e demorado. Enxugo-me, coloco uma roupa leve nunca usada e passo um perfume doce guardado no fundo do armário dela. Após almoçar pego minhas coisas e tranco a casa ao sair.

 

 

Sobre o autor:

16215572_10211316427603562_1173481454_nK. Leine, um jovem que desde criança teve interesse pelo obscuro e pelo terror. Hoje, com 23 anos, se firma na literatura dark escrevendo contos. Está no terceiro ano de psicologia e tem planos de publicar seus romances, se tornar um nômade digital e viajar pelo mundo.