Elas aceitaram o desafio. Musicaram pérolas de Chico César, que antes eram apenas poemas. Certamente, foi uma grande aventura para o Duo Gisbranco fazer 15 canções em cima de poesias de Chico. A ideia e início disso tudo aconteceu em 2010, quando o Duo ainda nem tinha pretensões de transformar essas músicas em um disco.

— Naturalmente, fomos compondo aos poucos a partir de alguns poemas do Chico e, ao longo do tempo, percebemos que seria um projeto lindo. Cada poema mostrava em si um universo diferente, e buscamos traduzir isso em música. Uma das coisas mais incríveis que aconteceu durante o processo foi a de compormos juntas, simultaneamente. Isso trouxe muita fluidez e muitas surpresas também. As musicas foram se configurando lentamente e tomando uma forma própria, que era essa mistura dos três. — comentou a cantora e compositora Claudia Castelo Branco.

 

A seguir, você verá na íntegra uma entrevista especial que fizemos com Claudia Castelo Branco do Duo Gisbranco:

 

 

Minha primeira curiosidade: como conheceram Chico César?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Já conhecíamos a música de Chico César desde adolescentes, mas o conhecemos pessoalmente em 2009, quando ele participou de um show do Gisbranco no Teatro do Ibirapuera em SP e, então, tivemos a oportunidade de ensaiar com ele diversos dias seguidos e iniciar o laço artístico e de amizade.

 

E seus poemas, como conheceram?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Os poemas conhecemos a partir deste período de 2009.

 

PASSÁROS marca uma nova etapa na carreira de vocês. É a primeira vez que vocês gravam um álbum cantado. Como foi essa transição?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Nos dois discos anteriores gravamos algumas músicas cantadas, seja através de vocalize ou canção com letra; mas eram casos isolados. Este projeto de musicar os poemas do Chico nos inspirou a fazer um disco inteiro de canções, por se tratar de um projeto especial. A Claudia já gravou um disco todo de canções chamado VOCÊ NA NUVEM, em que ela canta em todas as faixas (além de ter recebido alguns convidados, como a cantora Ná Ozzetti), mas, para o Duo, foi uma descoberta e felicidade muito grande.

 

E o que isso trouxe de novo musicalmente e poeticamente ao álbum?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: O disco é muito diferente para o Gisbranco por conta das canções, do número de convidados e instrumentos (tanto cantores diversos como instrumentistas) e da abertura para que a canção se mostre, sem que os pianos dominem completamente a cena musical.

 

Esse disco é mergulho profundo na criação da canção brasileira, de forma experimental e livre... Comente.

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Como não musicamos os poemas pensando em um disco ou em algum parâmetro mais formal, nós fomos criando as músicas e os arranjos de uma maneira completamente livre, experimentando e juntando diversos estilos (e, também, diversos músicos), num trabalho artesanal e sem pressa. Nos surpreendíamos a cada etapa do processo e fomos descobrindo a linguagem desta canção brasileira feita a partir de poesia.

 

Neste álbum, vocês tiveram a colaboração de outros artistas nas gravações. Como foi trabalhar com essa galera?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Foi maravilhoso, porque procuramos exatamente esta intervenção musical de cada um deles. Buscamos esta linguagem diversa e nos emocionamos, até hoje, com a interpretação de cada convidado.

 

Dá pra perceber um toque erudito nesse álbum... Comente.

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Nossa formação tem uma base muito grande na música erudita, no piano clássico e instrumental. Todos os estilos que percorremos ao longo da nossa carreira estarão, inevitavelmente, fazendo parte da nossa linguagem. Além disso, a poesia do Chico é dotada, também, desta mistura do folclore, do popular com uma erudição e contemporaneidade.

 

Conte para gente como foi os processos de produção e gravação durante os 6 anos em que o álbum estava sendo gerido.

CLAUDIA CASTELO BRANCO: A primeira fase, ainda sem saber que se tornaria um disco, foi o de composição. Algumas feitas individualmente, mas a grande maioria composta com as duas juntas ao piano, tocando e cantando juntas. Em seguida, passamos um ano ensaiando com os músicos Rodrigo Pacato Silva (percussão) e Fabio Nin (violão), buscando uma sonoridade que mesclasse os pianos na canção brasileira, procurando este caminho da música popular, onde a voz pudesse soar e a poesia ficasse clara. Depois, começamos a gravar, e tudo foi feito aos poucos, num processo de descoberta e experimentação; tanto os pianos, como a percussão, o violão, até as vozes e os convidados; a cada etapa íamos tendo novas ideias e nos lançávamos para experimentá-las. Como precisamos de dois pianos para gravar, não é simples. É bastante diferente do processo de gravação de um conjunto de instrumentação tradicional, que muitas vezes passa uma semana no estúdio gravando. Para nós, tudo foi sendo feito aos poucos, a medida em que possibilidades se abriam. Por isso o processo foi de uma longa caminhada, talvez por termos nos aventurado a ir muito fundo.

 

Tem alguma história interessante que envolva o disco?

CLAUDIA CASTELO BRANCO: Como foi um disco que levou muito tempo para ser criado, ele foi recheado de histórias interessantes.

Uma delas foi a forma como começamos a gravar. Por acaso, no momento em que estávamos com as musicas quase prontas, conversamos com o André Mehmari e ele tinha acabado de comprar um piano novo e ainda não tinha vendido o antigo. Por isso ele estava com dois pianos em seu estúdio, ambos de excelente qualidade. Isso é raro, praticamente inédito no Brasil! Aproveitamos e fomos pra lá (SP) gravar, e nos demos conta de que alguns arranjos não estavam totalmente prontos! E enquanto gravávamos conseguimos criar muita coisa, muitas idéias surgiram lá, inclusive o próprio André fez um arranjo que ficou absurdamente lindo (da música FIO DE SISAL).