Crédito: Gabriela Perez

 

Todos os instrumentos estiveram nas mãos dele. Estamos falando de Gabriel Franco, que com o álbum 99 adotou o nome artístico de Abril Belga. O músico também é responsável por toda a parte de gravação do trabalho, que é o seu primeiro em carreira solo. A sinceridade também faz parte dessa nova aventura de Abril, "entrelaçado" ao seu quarto.

O artista se inspirou muito em sua própria infância, indo do final dos anos 1990 ao início dos anos 2000. Apesar de não se prender a um estilo, as 11 faixas que compõem o álbum trazem algo semelhante ao folk, o psicodelismo e também a mais pura MPB.

 

Abaixo, você confere na íntegra uma entrevista que fizemos com o músico.

 

 

O álbum mudou muita coisa, começando pelo seu nome artístico, que era Gabriel Franco, e agora é Abril Belga...

Abril Belga é o meu primeiro projeto solo de verdade. Antes eu tocava com bandas que fiz com colegas ainda na época de escola, que foram sendo levadas até os grupos de amigos se dispersarem. Nesse projeto, eu escolhi Abril Belga que é quase um anagrama do meu primeiro nome. Não acho que “Gabriel Franco” seja um nome sonoro, e também já tinham outros músicos utilizando meus sobrenomes. Daí, joguei o nome Gabriel em um gerador de anagramas que achei no Google, vi essas duas palavras juntas e achei que soavam bem. É algo mais intuitivo e que não precisa realmente ter um significado. Mas gostei de usar esse nome porque também dá uma certa cara de “embaralho” em mim mesmo, além de poder brincar com as cores da bandeira da Bélgica.
 
 
Como a sua infância influenciou a criação do álbum?

A parte da infância são temas ou tópicos que eu sempre quis falar mas não tinha muita coragem. Eu desenvolvi isso indo na terapia. Aquele disco de 2015, do Sufjan Stevens, tem tópicos assim. Depois que ouvi eu pensei: “Ah, eu poderia falar de algo parecido”, separação dos pais e etc, coisas que para mim eram difíceis de tocar, mas que consegui desenvolver. Mas, por vias de música, nem tudo precisa ser totalmente real e pode-se exagerar, exacerbar sentimentos.

Eu mostrei essas músicas-chaves que têm esses temas para a minha mãe e ela achou tudo muito triste, mas claro que não foi tão triste assim. Ainda no mesmo tema, na música BICICLETA COM RODINHAS eu fui recapitulando lembranças daquela época em associação livre e com linguagem meio pueril para combinar.

No final, a parte das rodinhas é o que ainda sobrou daquilo em mim hoje.

Também, minha infância teve uma formação musical muito bacana por causa da escola que eu estudei até os nove anos de idade, chamada Sá Pereira, no Humaitá, no Rio. Tínhamos aula de um bocado de instrumentos e um coral que gravou um disco. Foi um tempo em que a música também começou para mim, não exatamente em casa, mas fora. Estava nostálgico dessa época quando fiz as músicas.

 
Em 99, você não se prende a um estilo musical, mas ao mesmo tempo tem muita coisa de psicodelismo...

Acho que tem algumas coisas de psicodelismo em certas faixas por causa de timbres ou efeitos. Ecos, delays e reverbs criam levemente essa atmosfera.

 
Você também buscou referências na música brasileira, é isso mesmo?

Sim, mas com foco nas melodias e arranjos. Ao invés de usar só guitarra, baixo e bateria eu procurei acrescentar mais coisas em algumas músicas. Tem triangulo com levada de baião, por exemplo, na faixa 1999. Mas são só arranjos pontuais. Os violinos que eu montei no computador foram inspirados em arranjos de músicas brasileiras, mas sei que originalmente esses arranjos vinham dos Beatles, ou sei lá. Essas coisas não têm limites definidos, mas dão pra sentir ou pegar intuitivamente. 

E nas melodias de voz dá pra perceber quando você compõe algo porque ouviu mais música brasileira. Até no rock, as melodias ficam diferentes. Acho que é o mesmo caso da banda O Terno, eles tocam rock, mas o Tim Bernardes canta igual brasileiro cantando rock, não igual inglês ou americano cantando o mesmo estilo.


 
Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

O álbum ia se chamar MILÊNIO até uma semana antes de eu lançar. Mas vi que tinha uma coletânea ou algo assim dos BackStreet Boys com esse nome e resolvi usar um nome menos pior, que também não ficou tão bom, mas sou ruim com títulos.



Fique à vontade para falar o que quiser. (Essa resposta geralmente entra no texto de introdução da entrevista)

Alguns amigos falaram que 99 é um aplicativo de taxi e sei disso, mas antes de ser um app de taxi também era um número, então dá no mesmo.

Também dá pra ir longe andando de bicicleta com rodinhas.

Obrigado pelo contato e pelas perguntas!