Coração de inverno, coração de verão, novo livro da Zit Editora, retrata de forma poética e delicada a solidão de um menino em luto. A tristeza profunda é, aqui, matéria-prima de uma jornada instigante pelo universo infantil, onde saudade e medo viram paisagens surpreendentes. Em meio às nevascas e à aridez branquíssima das terras geladas — que são, por ora, seu espírito —, o garoto se deixa guiar pela curiosidade, numa viagem em busca de alguém que possa, enfim, enxergar o frio que está sentindo por dentro.

 

A seguir, veja uma entrevista na íntegra que fizemos com a autora:

 

Do que se trata o livro?

“Coração de inverno, coração de verão” é uma tentativa de falar às crianças e aos pré-adolescentes sobre a morte, de uma maneira realista e suave ao mesmo tempo. Confesso que foi um tremendo desafio encontrar a linguagem e o tom certos para construir uma narrativa honesta, no sentido de não negar a inevitabilidade da morte, e delicada, que pudesse provocar uma reflexão tocante acerca da necessidade do acolhimento das dores das crianças. Assim sendo, meu livro conta a história de um menino que cresce sofrendo profundamente não apenas em razão da ausência de seus pais, que morreram, mas também das dúvidas e dos receios que esse fenômeno natural, que é a morte, lhe desperta, sobretudo, porque ele se sente só, incompreendido em sua dor, mesmo cercado de pessoas que o amam.

 

Como são os personagens, cenários e situações?

O personagem central desta história é um menino que, de repente, experimenta a dor de perder seus pais e não sabe como lidar com ela. Para contá-la abordei o luto da criança de forma poética; seu coração sofredor vira coração de inverno e seu sofrimento é comparado a intempéries decorrentes desta estação, tais como nevascas e ventos gélidos: “Em uma fração de segundo, seu coração virou neve. A falta do pai e da mãe, como um imenso bloco de gelo, esmagando-o com toneladas de saudade glacial. Vai ver, o inverno veio morar nele para sempre...”.

Os outros personagens são os avós maternos, a madrinha e a aluna nova do colégio, de quem ele se tornará amigo de cara. Cansado de sofrer sozinho, o menino sai à procura de “um entendedor de coração invernado”. Todos eles tentam, à sua maneira, ajudá-lo a superar o sofrimento, porém, apenas um o enxergará em sua real dimensão, de modo a provocar o derretimento da neve em seu coração.

 

Como vocês trabalharam a união entre a escrita e as ilustrações?

Alexandre Rampazo, autor das belíssimas ilustrações de Coração de inverno, coração de verão, captou o conflito interno do protagonista com extrema sensibilidade. A imagem da página 37, por exemplo, é de arrepiar; feita a partir de uma perspectiva vista de cima, a página inteira revela a espiral de pegadas do caminho percorrido pelo menino, um paralelo com sua jornada interior, em busca de força para enfrentar a dor. Os cenários remetem a um lugar frio, sujeito a nevascas, exatamente como é o coração do menino, que não consegue mais se sentir aquecido, tamanha saudade dos pais. A riqueza da linguagem imagética do autor fala direto ao coração.

 

Tem alguma curiosidade que envolva o livro?

A curiosidade que envolve este livro é que, ao terminar de escrevê-lo, a primeira pessoa em quem pensei foi Laura Van Boekel, minha querida editora, que, na época, trabalhava na Escrita Fina Edições. Ela adorou e quis publicar. Contudo, a Escrita Fina acabou, e, curiosamente, Laura foi trabalhar justo no Grupo Editorial Zit, que publicou meus outros dois infantojuvenis físicos. Como não acredito em coincidências, eu disse a ela que meu livro tinha mesmo que ser publicado pelas suas mãos. O resultado é que ele ficou uma coisa, de tão lindo!

 

Fale mais sobre o livro.

Considero superimportante falar com as crianças sobre a ocorrência da morte, afinal, ela é uma realidade inescapável. Em nossa cultura, porém, é praticamente um assunto-tabu, negligenciado em sua urgência, e todos sofrem com isso, em especial, as crianças, devido à sua maior dificuldade em verbalizar seus sentimentos e entender o que é a morte. Pensando nisso, eu quis lançar um pouco de luz sobre este tema, através da literatura. Ao tratar da morte no meu livro, mais especificamente do luto infantil, eu o fiz com a consciência de que criei não apenas uma história que pode tocar múltiplos corações leitores, mas também oportunidades de diálogos que podem gerar um maior entendimento sobre a vida. Em última análise, “Coração de inverno, coração de verão” é uma história universal, para todas as idades.