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Meu nome é Eliana Nascimento, tenho 22 anos, e hoje eu posso afirmar que a arte de desenhar salvou a minha vida. Aos 7 anos de idade eu fui diagnosticada com Diabete tipo l, de início eram dez injeções durante o dia. Por conta do descontrole da glicemia eu comecei a ter crises de hipoglicemia, e com isso desmaios e psicoses momentâneas que são surtos de adrenalina horríveis devido à baixa taxa de açúcar no sangue. Por conta do problema de saúde, minha infância foi restrita a diversas coisas que para uma criança, não faziam sentido e causavam questionamentos e choros.

Com 8 anos, eu tive depressão, ataques de ansiedade e stress que me levaram a desejar a morte. Meu cérebro de modo acelerado se enchia de pontos de interrogação e perguntas sem respostas, o que fez meus pais me levarem ao psicólogo que me receitou remédios que por tempo, conteve tudo aquilo.

A vida na escola nunca foi fácil, sofria bullying e rejeição por parte dos outros alunos, o que me fez se fechar, sentir muito e não dizer nada para ninguém. Eu era uma criança que já sentia vergonha de si mesma, que tinha medo de lugares cheios, que preferia se esconder e falar baixo ao invés de ser notada.

Após alguns anos, algumas coisas haviam mudado, minha mãe saiu de casa, meu pai trabalhava muito, e a adolescência chegava para mim. Sabemos que nessa fase da vida tudo que antes era besteira, começava a se tornar coisas relevantes, tais como o corpo e a visibilidade social. A insegurança me consumia por inteiro, eu me sentia só, com o ego e autoestima destruídos.

Meus pais nunca souberam de nada que aconteceu comigo, pois eu sentia que ninguém podia me ajudar. Os olhares das pessoas na rua para comigo eram de repulsa, de medo ou rejeição, afinal, eu nunca fiz parte do padrão da sociedade. O acumulo de carga negativa em mim fez com que coisas como déficit de atenção, ataques de raiva, crises de ansiedade e mudança de humor repentina, surgissem rápido e isso me atrapalhou muito na minha vida escolar, reprovei muitas vezes na oitava série por ser devagar demais.

 

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Certo dia, eu estava na casa de uma amiga e nós estávamos ouvindo música e rindo muito, o pai dela chegou abrindo a porta, gritando, “eu não quero sapatão escrota na minha casa, escória da humanidade. Você merece morrer!". Aquilo me doeu como nunca, correndo eu fui para casa, peguei minha bolsa e sai, fui até um lugar escuro, subi em cima duma árvore alta onde embaixo havia um muro quebrado com pontas de ferro.

Olhando pra baixo eu comecei a chorar, eu queria pular, eu não aguentava mais viver. Abri minha bolsa, peguei uma caneta e um caderno, olhando pro horizonte eu vi uma árvore seca, onde no topo da mesma, haviam duas flores amarelas que me chamaram a atenção. Observando a árvore eu comecei a desenhá-la, os traços, as linhas, foram feitos com a mesma intensidade de sentimentos que em mim habitavam naquela hora, eram tão dolorosos, tão fortes que o papel se rasgou em um dos pontos. Confesso que a cada toque da caneta no papel, eu descarregava toda a dor e frustração de uma vida dolorosa.

No final daquele desenho eu senti como se uma boa parte do fardo pesado nas costas tivesse desaparecido. A partir daquele dia eu me voltei para o desenho como ponto de fuga de pensamentos ruins, comecei a ler sobre o realismo, literatura, tons, cores, formas e me achei completamente naquilo.

Cada desenho que eu fiz, me fazia sentir um alivio, um abraço na alma, uma vitória conquistada e então eu decidi que não pararia mais. Hoje eu vejo que meus desenhos são únicos e cada um representa um sentimento diferente, utilizo no realismo fatores como os cabelos que escondem os rostos na maior parte das vezes, isso representa o tempo que vivi escondida.

No realismo eu busquei me aperfeiçoar no nu artístico. Escolho as poses e modelos, realizando um trabalho maravilhoso, onde busco descrever os principais sentimentos e emoções que a pessoa senti e transparece. Minha cabeça, minha vida, meus pensamentos se organizam de uma maneira inexplicável quando desenho. Demorei, mas hoje eu consigo demonstrar o que sinto no ato de desenhar e a cada obra que faço um pouco da minha história é deixada para quem tem o dom de sentir, ver.

 

 

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Eliana Cristini Nascimento de Jesus, 22 anos, nascida em São Mateus – ZL de São Paulo no dia 30 de novembro de 94. Cresceu em Três Lagoas – MS e ganhou prêmios por ficar em segundo lugar no concurso de redação aos 12 anos na escola. Realiza trabalhos autônomos com adoção de animais abandonados. Budista. Compõe música, escreve poemas, tais como sua obra O Ciclo da Vida. Atualmente cursa jornalismo, e realiza ensaios onde desenha mulheres utilizando o nu artístico.