Crédito: Pedro Margherito

 

 

São vários fatores que fazem o disco A CAPACIDADE DE RETORNAR AO ESTADO ORIGINAL, se apresentar como um álbum diferenciado. Com poesia aguçada, o trabalho enquadra várias temáticas, com até mesmo certa complexidade nos arranjos dos instrumentos. Outro diferencial deste álbum, é que seu processo de gravação durou muito tempo, o que possibilitou os integrantes terem um certo amadurecimento, mudando assim, totalmente o resultado final do que estava previsto para ser lançado.

— É o caso de passar por situações que transformam, mas que permitem voltar à harmonia e equilíbrio em que se encontrava antes. Musicalmente essa figura é algo também verdadeiro pra essa experiência de primeiro álbum. Estávamos na angústia de expressar nossa música, nos transformamos e nos expandimos para criar este disco, essa primeira voz da banda. Agora que lançamos, completamos o ciclo: retornamos ao estado de angústia, de querer falar mais ao mundo - porém agora, com a experiência do primeiro lançamento — reflete o guitarrista Gabriel Santana.

 

Abaixo, veja uma entrevista na íntegra que fizemos com a banda.

 

 

 

Parece que Poesia do álbum envolve muitas questões, e por outro lado, tem também uma complexidade instrumental. Comente

[Gabriel]  Apesar de realmente diversos enredos diferentes aparecerem no decorrer das letras, acredito que o álbum trata bem especificamente sobre anseios da juventude, mesmo que figurativamente. Uma boa parte dos versos das músicas falam sobre algum tipo de processo de aceitação, seja interno ou externo, sobre a energia com a qual nós jovens refutamos a realidade em que vivemos ou ficamos incrédulos perante ela, entre outras angústias.

Toda problemática pessoal retratada pelos eu-líricos das músicas ainda retratam o grande tema do álbum: a forma com que o indivíduo confronta seu mundo faz com que entre nesse conflito, na angústia já mencionada, mas cabe a ele enfrentar esses problemas e voltar à paz que se encontrava anteriormente, porém ciente do universo que vive.

Acho tendencioso falar de uma “complexidade instrumental” nas músicas. De fato considero que todas as faixas são bem estruturadas e até podemos dizer que são ricas melodicamente ou harmonicamente, entretanto não sei se “complexidade” é a palavra certa. Não estamos tocando um concerto dodecafônico, Djent, ou mesmo Jazz. Quero dizer, não são músicas necessariamente difíceis de tocar, mas gosto de dar valor as nossas composições, até por que tanto eu como o Miguel estamos nos formando músicos na faculdade, o que é algo notável pra quem investe em banda de rock alternativa.

Falando da guitarra, que é meu instrumento, posso dizer por exemplo que você iria encontrar acordes de formação inusitada pro estilo musical que tocamos, o que eu já consideraria que traz uma sonoridade diferenciada.

 

Como o processo gravação foi bem longo, vocês tiveram um certo amadurecimento das ideias. Como era o projeto inicial e o que esse amadurecimento ajudou no produto final?

[Matheus] Acho que é algo comum de primeiros discos de banda - ainda mais quando não é só o primeiro disco da banda, mas de todos os membros dessa banda – que as músicas sejam menos uniformes. Acaba que aparecem no disco ideias das mais diferentes épocas e elas acabam tendo um som diverso. Por mais que uma banda possa parecer mais “pronta” em um momento mais avançado da carreira, essa diversidade e descompromisso em relação a uma identidade pronta e fixa sempre me fez ficar encantado com discos de estreia.

Sobre o projeto inicial, confesso que nem sei se tínhamos um. Queríamos gravar as músicas que mais gostávamos que havíamos feito até então. Claro que uma ideia ou outra que fosse totalmente fora do que estávamos fazendo ficaram de fora. Mas não havia um projeto sonoro tão bem definido, queríamos fazer as nossas músicas que mais curtíamos soarem ainda mais bonitas. Ao longo do processo, na verdade, é que um projeto de disco foi surgindo.

Tínhamos as músicas todas lá, mas era como se estivéssemos descobrindo o que fazer com ele. Tivemos algumas ideias para conferir uma maior unidade ao disco, como colocar todas as músicas um tom abaixo do original, emendar todas as faixas, etc. Fora isso nossas próprias influências à época, tanto sonoramente, quanto de letras, fizeram com que criássemos uma uniformidade natural, que nos pegou de surpresa. Acho que o longo processo do disco pode ter ajudado a clarear melhor as suas ideias pra gente.

[Gabriel] Acho que o amadurecimento do projeto diz mais respeito à questão de arquitetar o discurso do disco, afastando ele da ideia de ser só um compilado de nossas primeiras composições para virar algo com conceito e propósito...

Demos unidade estética pra músicas que antes, no inicio da produção do disco, só se relacionavam pelo fato de serem as mesmas pessoas as executando, depois viraram peças do mesmo jogo, com funções específicas para cada faixa e motivo para a escolha de seu posicionamento no tracklist.

Mas mais que isso tudo, acho que uma das coisas mais legais de ter finalmente realizado esse álbum, é que agora a banda possui um norte, meio que um ponto de referência nosso pra podermos nos guiar. Não que sejamos limitados à sonoridade que propusemos nesse disco, mas eis que podemos olhar e pensar mais precisamente sobre decisões estéticas e sonoras para o futuro da banda.

 

Esse amadurecimento dá pra perceber também na evolução das músicas...

[Matheus] Com certeza. Como o processo de gravação foi longo e cheio de reviravoltas, todas as músicas do disco foram compostas entre 2013 e janeiro de 2016. Ou seja, há uma discrepância muito grande do momento em que as músicas foram feitas. “Colisão Lunar”, por exemplo, surgiu antes de eu, Matheus, entrar na banda. Ela é uma música bem alegre, rápida, etc, que difere muito de outras como “Jardim dos Gigantes”, que terminamos em janeiro de 2016. Não estou dizendo que há uma hierarquia entre elas, mas que elas captam momentos bem diferentes, isso é certeza.

[Gabriel] Apesar do disco não estar com as faixas em ordem cronológica,  acho que dá sim pra perceber essa transformação da banda dentro de músicas específicas da tracklist. Fica claro que os motivos mais agitados do CD vieram do início do Components, quando até nossas referências musicais eram bandas mais agitadas, como Foo Fighters ou Vícios da Era, por exemplo. Já os os motivos mais “tristes” e quietos vieram de tempos mais recentes, onde ouvimos outros sons e admitimos outras referências, como Radiohead ou Violins. As faixas que exemplificam melhor esse contraste realmente são “Colisão Lunar” e “Jardim dos Gigantes”.

A primeira é uma música da banda mesmo antes do Components ser o Components. Foi literalmente a primeira coisa que eu pensei musicalmente que me deu vontade de montar um novo grupo. Já “Jardim dos Gigantes” que veio de um trecho que o Miguel  compôs, só foi completada com piano já no processo de pré-produção do disco, e, musicalmente apresenta algumas passagens bem interessantes, com “harmonia cromática”, modulações, etc.

 

 

O que quer dizer o título A CAPACIDADE DE RETORNAR AO ESTADO ORIGINAL? Parece que tem muito haver com as mudanças estruturais durante as gravações...

[Matheus] Acho que esse é um título que abarca muitos sentidos, é muito aberto, vago. Isso já é algo que gosto bastante nele e que correlaciona com as nossas músicas.

“A Capacidade de Retornar ao Estado Original” também encaixou muito bem com nosso disco, porque acabamos notando que era disso que nossas músicas falavam, de uma forma ou de outra. Tipo, seja no amor, “Seja Meu”, ou seja na ideia de um reinício social, “Utopia” e “Colisão Lunar”, nossas músicas se uniam no momento em que falavam dessa volta a um momento/estado passado ou a um reinicio.

Não havia pensado ainda exatamente nesse sentido que você apontou. Mas com certeza poderia se aplicar. Como se estivéssemos recapitulando com o disco todo esse longo processo de composição, talvez. Pode ser.

[Gabriel] Esse título veio pra gente de forma arbitrária, mas acabou pegando e meio que todo mundo gostou.

Ele vem da definição de algum dicionário da palavra “Resiliência”, que aparece na letra de “Utopia”. Lá, a gente usa a palavra de forma irônica, até porque no contexto dessa música, ser resiliente seria algo positivo, e no enredo da faixa, vira negativo.

De qualquer forma, é como o Matheus disse:  A frase faz sentido para o discurso que encontramos entre as faixas. Além de considerarmos ser um nome bem bonito.

Também não havia pensado nesse contexto aplicado ao processo de gravação do disco, mas faz sentido: Voltar ao “estado original” de uma canção é algo que muitas vezes o artista tem que fazer quando se depara com um problema no meio da gravação de uma música, algo que pessoalmente já passamos diversas vezes nesses 3 anos de banda, então mais uma vez dá pra aplicar o título a outro contexto.

 

Vocês receberam o apoio do Fundo de Arte e Cultura de Goiás. Como isso aconteceu? E o que esse apoio representou para vocês e para o álbum?

[Matheus] Nós fizemos o procedimento comum de pleitear fundos para a gravação de um disco, através do edital de 2015. Fomos aprovados, na época, mal sabíamos como fazer isso. Ficamos bem felizes quando saiu o resultado. Bem, esse apoio com certeza foi fundamental, pois ele permitiu que tivéssemos muito mais mecanismos e recursos para poder gravar o nosso primeiro álbum de uma forma mais próxima do que imaginávamos idealmente.  Ou seja, querendo ou não esse apoio influenciou no processo do disco e na sua própria sonoridade.

[Gabriel] Eu ainda lembro onde estava na hora que saiu o resultado do edital e a mistura de alívio com alegria que senti no momento. Com essa aprovação houve a garantia que conseguiríamos pagar pelo disco e, com certeza pagar por uma excelente produção. Não sei como teríamos realizado o disco sem o FAC, e, realmente, o nível de qualidade fonográfica teria caído muito sem esse recurso.

 

Como foi trabalhar o processo de produção como Gustavo Vazquez? Ele também mixou e masterizou o álbum...

[Gabriel] Bem, é sempre legal ir pro estúdio gravar as músicas que se trabalha por tanto tempo. Já havíamos passado por processos de gravação antes, porém fazer isso em um esquema maior e mais demorado foi a primeira vez. Todos os sentimentos que a gente tem na gravação de um single, pra exemplificar, são amplificados exponencialmente numa gravação de CD. Então a diversão, a preocupação, ansiedade, raiva, alívio e o orgulho que você sente no final do processo são pelo menos o dobro de ir pro estúdio pra somente uma canção.

Ter um profissional do nível do Gustavo pra guiar a gente também foi incrível. O Mestre (como o chamamos) além de ser um dos caras mais gente-fina que conheci recentemente é responsável por álbuns que serviram de inspiração pra gente, como diversos CDs do Violins e do Black Drawing Chalks.

Falando especificamente da nossa gravação, posso dizer que no montante final foi consideravelmente cansativo, pois acabou que as sessões de estúdio tiveram que ser organizadas através de um ano inteiro, com datas irregulares espalhadas no calendário de forma bem irregular. Porém era só a espera entre uma data e outra, e os atrasos de nosso planejamento inicial que faziam ser um processo chato, por que os dias que íamos pro estúdio em si esquecíamos de tudo isso e só aproveitávamos a oportunidade de estar gravando num lugar tão bacana e com um sujeito tão top como o mestre.

 

Matheus Luzi é idealizador e fundador da Revista Arte Brasileira. Está cursando o último ano de jornalismo pela AEMS (Três Lagoas-MS) e é apaixonado por música brasileira.