Literatura sergipana ganha novo nome: Aliedson Lima [ENTREVISTA]

 

Literatura sergipana ganha novo nome

O escritor Aliedson Lima, após estrear na literatura com o romance ELOGIO DO INSTANTE, vem ganhando cada vez mais espaço no cenário literário sergipano.

Residindo em Canindé de São Francisco, o escritor, poeta e contista Aliedson Lima figura como um dos expoentes da literatura sergipana contemporânea. Além de participar dos eventos culturais de sua cidade, o mesmo contribui com inúmeras antologias locais e regionais. O autor foi eleito com unanimidade para integrar a ACLAS (Academia Canindeense de Letras e Artes), onde tomará posse no dia 21/07/2018, sendo, até então, o acadêmico mais jovem da história da academia.

Numa das antologias que participou, Aliedson Lima teve seu conto O ÚLTIMO ADEUS A KAFKA premiado. Conto este integrante da coletânea que está sendo organizada, sob o título provisório de Tutano. Esse livro de contos poderá ser publicado ainda neste ano. Se seguir a mesma premissa de Elogio do Instante, o que se espera são narrativas centradas no drama humano: os anseios, as angústias, os vícios, os desejos – o tutano do homem. Com previsão para ser publicado ainda neste ano também, o livro Deus diante do Abismo será o primeiro de poesia do autor.

 

SINOPSE - Por Daniel Zanella.

Quando é instruído para pesquisar a morte de um grande fazendeiro, Saulo, um jovem e insatisfeito estudante de História, depara-se com Anaclécius Torrenegra, um senhor solitário, com diversos manuscritos engavetados e um passado de eventos misteriosos.

Em Elogio do Instante, livro de estreia do escritor sergipano Aliedson Lima, dois homens atravessam o terreno da memória, do passado como matéria em permanente construção, e recriarão juntos um controverso crime ocorrido na Mata Vermelha durante o período da Ditadura Militar.

No percurso de incertezas, surgem as mulheres marcantes, os conflitos existenciais – como descascar uma banana com uma faca?, pergunta um dos documentos reabertos –, as discussões sobre o papel do tempo na constituição biográfica, as linhas paralelas da arte e do desejo, além do choque geracional entre dois homens em busca do sentido da vida. 

 

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Capa - Elogio do Instante, oficial.

 

Quais foram suas inspirações?

Falar sobre inspirações é sempre complicado. Ao menos pra mim. Bem, vou me limitar a dizer que este primeiro livro deve algo, em especial, às minhas leituras de Sartre, daquela época. Vemos que os personagens fazem escolhas e sofrem com o peso da responsabilidade imposta por elas. Vemos a consciência da liberdade no velho Anaclécius Torrenegra, seu fascínio pelo “aqui e agora”, pelo “elogio do instante”. Assim sendo, é inegável que ELOGIO DO INSTANTE deve algo ao que vi do existencialismo sartreano.

 

Algo na sua vida em particular influenciou no livro?

Sim. Muito de mim está ali. Acredito que haja uma predisposição natural para este caráter autobiográfico nas primeiras obras. Vou ressaltar uma situação: Quando comecei a escrever o ELOGIO, eu ainda estava na faculdade. Como o personagem Saulo, eu também era um infeliz cursando História. A visão que tenho da academia foi projetada neste personagem. Tanto que lá há uma justificativa indireta do porquê de eu ter abandonado o curso, depois de alguns atritos com os professores. Somando a isso, poderia dizer que ainda outras experiências relatadas no livro têm suas raízes na vida real. Mas basta.

 

Como chegou na história do romance?

Eu havia escrito um conto erótico chamado LOS CUERPOS. Num quarto de motel, uma professora propõe a um aluno que pesquisasse o mistério em torno da morte do fundador da cidade. Não quis me dar por satisfeito com o conto. Não resisti ao mistério. LOS CUERPOS passa a ser o prólogo de um livro. Até optei preservar sua forma, com um narrador observador. Então o livro se desenvolve com Saulo, narrando em primeira pessoa, indo em direção ao passado de Anaclécius, na tentativa de solucionar o mistério.  

 

Como foi seu processo criativo para escrever ELOGIO DO INSTANTE?

A maior parte da trama gira em torno de um livreto, o “COMO DESCASCAR UMA BANANA COM UMA FACA?” (pra delírio dos freudianos), que são apenas notas de um diário da juventude do velho Anaclécius. Despretensiosas e talvez até com pouco valor literário, mas que sem elas não haveria livro algum. Um livro dentro do livro. Quando iniciei a escrita do ELOGIO, eu já tinha boa parte destas notas, que seriam usadas para um projeto que não vingou. Ou seja, já tinha o passado de um personagem. Na trama, o jovem se depara diante do velho, lendo essas memórias e ouvindo seus comentários. Neste processo de reconstrução do passado, as notas são empilhadas, permeadas pelos comentários. Tais como blocos e cimento – o que resulta nas paredes da casa/livro.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o livro?

Há algo que ainda me faz rir. Escrevi o livro enquanto ainda estava na faculdade. Não contei para nenhum dos meus colegas que estava escrevendo um livro. Apenas um, talvez. Então eu sempre acabava me metendo em umas situações que, pra mim, eram engraçadas. Sempre que ia à biblioteca, acabava pegando um livro que “é pra galera de letras”. Ouvia coisas como: “cara, tu é do contra mesmo, temos tanta coisa pra ler e tu vai ler isso que não vai te servir pra nada?” Imagina minha cara quando via colegas perguntando com qual recorte temporal trabalhava o historiador Henry Miller.  

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Uma amiga fez uma crítica em torno da personagem Lorena que merece um comentário. Não pretendo justificar nada. Apenas comentar. Ela disse que não entendia como a Lorena entra na história feito um furacão e toma de conta do livro. Mas ela faz esta análise sem levar em conta a condição que o narrador está inserido no tempo. (Este narrador que até hoje não o compreendo bem). Os verbos são conjugados no presente – as coisas estão acontecendo. A trama se desenvolve em um dia. Ora Saulo nos narra sobre as sensações e emoções que lhe chegam, ora não. Ora sua mente é invadida. Ele não nos conta nada, apenas não sabe que sua mente foi penetrada por “nós”. E é aqui que Lorena cresce. Ela surge por volta do meio dia. É desejada ardentemente por ele e, pra mim, é uma coisa natural que tal desejo subsistisse durante as cinco horas que restavam do livro.  

Aqui, eu gostaria de agradecer o espaço à Revista Arte Brasileira. Também ao Matheus Luzi, pelo convite.