O que mais chama a atenção nesse álbum de Benji, é com certeza o fato dele ter colocado as suas noções eruditas em um lugar de música brasileira. O músico, ao lado de outros, e com 6 instrumentos, criou, produziu e gravou músicas com referências de estilos nacionais marcantes, como o maracatu, samba, baião, choro, bolero e maxixe.

Não é necessário ouvir mais de uma música do álbum para perceber que é possível ouvir a música brasileira por meio de outros horizontes. Foi isso que Benji fez, ao dar novas roupagens para a música nacional. “Nesse disco procurei expandir os limites dos seis instrumentos, explorando não apenas texturas e possibilidades harmônicas, como também grooves e ritmos”, conta Benji.

 

Abaixo, você verá na íntegra uma entrevista que fizemos com o músico.

 

 

É evidente que você é apaixonado pela música feita no Brasil. De uma maneira geral, como chegou a conhecer a música brasileira?

Pois é, acontece que desde criança eu ouvia dentro de casa a música brasileira sem ter consciência do que era música brasileira. Até... tem prova disso!! Está num home vídeo gravado por meu pai com a música do João Gilberto rolando no fundo e eu dançando no meu andador de criança com sorriso total de alegria. Acho que tinha 2 anos só! Meu pai tinha coleção de vários artistas da música brasileira como Jobim, João Gilberto, Badi Assad, Canhoto da Paraíba, Clara Nunes, Romero Lubambo, Toquinho & Vinicius de Moraes, Maria Bethânia (a cantora preferida do meu pai) e Gilberto Gil. E assim comecei com esse ambiente de música brasileira em casa. 

 

Qual sua relação pessoal e profissional com ela?

Com 18 anos eu senti uma grande empolgação, desejo, força em mim de conhecer o Brasil cara a cara. Então viajei para São Paulo. Isso foi a primeira experiência em que realmente fiquei emocionado com música brasileira. Me tocou a importância da letra e do canto na música em que antes só focava na parte instrumental. Descobri a música do Chico Buarque, Guinga, Dorival Caymmi, Garoto, Elizeth Cardoso nas lojas de CD no Rio e São Paulo. E assim, pouco a pouco, eu me identificava cada vez mais com ela. Foi nesse período que eu realmente comecei a me dedicar a estudar e aprender tocar e cantar as canções do Brasil. Tentando decifrar as letras de Chico Buarque, Tom Jobim, Dorival, além de estudar Jazz/teoria e coisas mais formais da faculdade onde eu estudei em Nova Iorque. Por muitos anos minha rotina em NY era assim: transcrevendo solos de artistas de Jazz como Bud Powell, Charlie Parker e Sonny Rollins de dia e de noite, cantando e aprendendo a tocar as músicas que eu mais gostei do Dorival Caymmi, Chico Buarque, João Bosco e outros. Até que chegou um ponto em que eu fundi as duas coisas, compondo, experimentando, brincando, cantando e tocando nos bares e clubes de jazz e world music em NY com os amigos e parceiros musicais. Eu misturava repertório de standards com músicas de Toninho Horta, Danilo Caymmi Caetano, Guinga ou qualquer coisa que me empolgava e que o público aguentava ouvir.

 

De onde veio essa ideia “maluca” de levar a música erudita para esses ritmos brasileiros presentes no disco?

  Eu acho que foi um processo de descobrimento fazendo meus discos anteriores. Fiz meu primeiro disco em 2011, de violão solo, tocando minhas composições, daí mergulhei nisso e me diverti bastante, até o ponto em que cansei de ouvir esse disco. Depois eu quis expandir um pouco o som, e fiz meu segundo disco como um duo de flauta e violão. Durante esse mesmo período, comecei a sonhar com como seria legal de fazer um disco de canção mesmo, já que eu tinha bastante repertório com parceiros brasileiros como Makely Ka, Rita Figueiredo e Pedro Dias Carneiro, que puseram letras nas minhas músicas. Então comecei a criar vários arranjos de instrumentação diversa com flautas, clarinetes, clarones, cordas, metais, etc., querendo criar outras paisagens e vendo o que estava em mim, então chegou essa proposta no meu 3o disco que chama Uai Sô. Cada música precisava ficar adornada de uma maneira única, tratada com um gosto diferente a cada faixa. Experimentei várias texturas e cores nesse disco, tentando achar um formato singular. Acho que ele me levou ao ponto em que cheguei a fazer o 4o disco, CHORANDO SETE CORES. Era a hora pra eu fazer um disco com instrumentos que descobri que amei no UAI SÔ, só que com uma visão mais singular desta vez. Um tema que fica com um ambiente consistente entre todo o disco. Como eu já tinha quebrado certas barreiras do que podia fazer, eu criei esse disco para ser muito bem-vindo nas minhas apresentações futuras na minha carreira musical.

Acho que a música erudita sempre foi muito forte como uma influência na minha música e na minha vida, especialmente os compositores do período romântico. Misturando isso com os ritmos e harmonias loucas e imprevisíveis da música brasileira, acho que nasceu uma mistura de tudo que eu amo e queria ver ser realizado num disco.

O violão sempre foi meu ponto de referência mais forte na música. E é nele que componho as músicas antes mesmo de escrevê-las no papel, na maioria das vezes. Então eu queria também voltar a mostrar meu violão nas composições de novo, junto com os arranjos de outros instrumentos nesse novo disco CHORANDO SETE CORES. Fazendo um casamento dos dois mundos que eram um pouco distantes no disco anterior. Às vezes a gente tem que sair da nossa cidade de nascimento por um período só pra poder apreciar o que a gente teve, pra depois saber mesmo quanta saudade que foi ficar distante da nossa essência, a mãe terra! Eu talvez chego a consolidar as coisas um pouco mais no CHORANDO SETE CORES. Todo disco é um diário também, eu acho que coloca no papel as nossas histórias daquele momento. Depois o sentido muda com tempo, e cada pessoa pode apreciá-lo de uma forma pessoal e diferente.

 

É certo também que é uma experiência única ouvir esse disco...

Obrigado! Eu fico muito honrado que você sentiu assim! É difícil saber o que dizer sobre isso. Pois eu acho que faço naturalmente talvez a busca de um som que tenha um pé no passado e um pé no futuro, mas o certo é que eu gosto muito de uma melodia e uma harmonia, e de contar uma história com essas ferramentas. Depois eu coloco no forno com um temperinho ou outro e sai algum resultado que espero que seja novidade para os meus ouvidos e para os outros ouvintes.

 

Quais são suas influências, tanto no meio nacional como internacional?

Eu sempre gostei, como um menino jovem, dos Beatles, Steely Dan, Traffic, Al Di Meola, Return to Forever, Beethoven, Bach, Schubert, coisas ecléticas. Um pouco mais adolescente, com 13, 14 anos de idade, eu fiquei muito apaixonado pelo Jazz, e artistas como Charlie Parker, Barney Kessel, George Benson, Wes Montgomery, Tal Farlow, Dexter Gordon, e muitos outros.  (guitarrista sempre gosta de ouvir bastante a guitarra, né).

Da música brasileira eu conheci primeiro artistas como Tom Jobim e João Gilberto, que amo até hoje. Aí fui pesquisar mais quando, com 18 anos, viajei para o Brasil pela primeira vez e descobri o Choro, com Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha e João Pernambuco. Depois fui descobrindo cada coisa, canção etc. e tal, achando muito gostoso, artistas como Guinga, Chico Buarque, João Bosco, Edu Lobo, Francis Hime, Clube da Esquina, Milton, Toninho Horta, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga entre muitos outros. Adoro Dorival Caymmi e sempre adorei. Acho muito difícil não gostar da música dele! Jackson do Pandeiro e Hermeto Pascoal. Eu fui nos forrós que as pessoas e amigos me levaram a conhecer. Fui pelo Nordeste, ouvia muito coco, Baião, Afoxé, dancei ao vivo no Recife a música do Mestre Salustiano um pouco antes de ele falecer, ouvi a zabumba e pandeiro das crianças que tocavam com tanta graça, percebi um pouco de uma paisagem tão vasta que é a música brasileira e eu me sinto muito grato, privilegiado e honrado pra poder ter tido a oportunidade de conhecer tanta riqueza. As cantoras também são muito marcantes na minha vida como Elis Regina, Clara Nunes, Nara Leão, Elizeth Cardoso e Silvio Caldas. O Garoto mudou meu mundo também.

Acho que a música brasileira foi que nem uma droga que abriu as portas para mundos de percepção e vários estados de consciência, tanto físico quanto espiritual. Ela trabalha e te leva para lugares que os outros tipos de música não podem te levar. Eu também adoro Nelson Cavaquinho, Ze Keti, Cartola, e Custódio Mesquita.

 

Quais instrumentos foram utilizados no disco? E como foi trabalhar com esses instrumentos e com os músicos que os tocaram?

Esse disco conta com uma instrumentação feita de 1 Clarinete, 1 Clarone, 1 Trompa, 1 Flauta alto, 1 Flauta Transversal e um Violão, sendo 6 instrumentos em total. Foi muito interessante ter esses artistas no disco porque todos já trabalharam tanto num ambiente da música erudita quanto jazzistica e brasileira, então foi um baita casamento de timbres variados que a gente podia explorar. Eles foram muito flexíveis em termos de poder falar os sotaques mais cariocas nas músicas e no suingue, tanto quando tinham a necessidade de fazer uma vibe erudita. Foi uma experiência de muito aprendizado pra mim. A personalidade de cada músico era muito fácil de lidar e todo mundo era humilde, fofo, e uma alegria de poder trabalhar. A única coisa que me fez sentir um pouco culpado é que eles não tinham partes na música em que podiam improvisar, como tudo foi escrito, eu achei talvez eles ficaram um pouco restritos nesse aspeto, mas eles não reclamaram. Os músicos são Anne Drummond nas flautas, Remy Le Boeuf no clarinete e clarone e David Byrd-Marrow na trompa. Cada um deles tem projetos individuais maravilhosos e vale muito a pena conhecer o trabalho deles! 

 

Conte para nós a origem do nome do disco.

O nome do disco tem um duplo ou triplo sentido. Chorando no sentido “chorar” e também na expressão de falar isso como o estilo de música ou a ação de uma pessoa que toca chorinho. Sete Cores remete ao nome daquele tipo de passarinho, e também num sentido mais literal de que o disco também tem sete elementos, que são 6 instrumentos + as composições em si. Como é também a faixa-título do disco, ela é como um fio condutor presente no disco inteiro, que vai se desdobrando pouco a pouco. Essa faixa em particular, quando eu ouço, penso em um passarinho piando, chorando frases de dor, felicidade, saudade, tristeza e coisas que as palavras em si não descrevem como a música em si mesma pode falar ou expressar. Eu queria também ter um título que os ouvintes podem interpretar o próprio sentido deles que conforme escutam o disco. 

 

Ao ouvir o disco, dá muita curiosidade em saber como foram os processos de produção, gravação e criação. Comente.

Bom, foi um processo interessante. Eu tinha feito a maior parte das músicas para o disco nos últimos 6 meses antes de gravar, fora duas ou três músicas que já tinha feito uns 5 anos atrás.  Tudo foi gravado na casa do engenheiro de som e compositor/arranjador carioca, Vinicius Castro. Ele que sugeriu quando eu perguntei: qual seria o melhor processo de a gente gravar esse disco, Vinicius? Tendo mostrado todos os arranjos e mp3s que eu tinha exportado do meu software sibelius que usei pra arranjar o disco. Ele falou “vamos gravar cada instrumento separadamente, em datas diferentes, assim vamos poder ter o melhor resultado possível de som, e pra poder ver os detalhes e editar depois com mais opções”. Vinicius é uma pessoa que eu confio muito no trabalho e opinião musical. Ele tem bastante experiência tanto na parte de produção quanto na parte de gravação, então é assim que começamos. Aí, a gente decidiu gravar o meu violão primeiro, uma voz que guiaria e definiria a vibe e o caminho pra todos os instrumentos seguirem como referência. 

Depois que gravamos todas as 13 faixas e escolhemos os takes bons de cada um, gravamos só o clarone, que era a base que deu a fundação para os outros instrumentos poderem gravar depois. Aí seguimos num próximo dia gravando o clarinete em todas as faixas, depois numa próxima semana a flauta da Anne Drummond.  Foi um pouco frustrante para os músicos neste aspeto de não ter instrumentos reais como referência nos fones para seguir! Continuando na sequência, o último instrumento que a gente gravou foi a trompa, então o David foi única pessoa que teve o privilégio de ouvir todos os verdadeiros instrumentos e músicos no fone de ouvido. Eu aproveitei para trabalhar com eles os detalhes de dinâmico e acentuação de cada parte. Falar a minha visão sonora pra certas passagens nas músicas, frases, o que precisava mais legato ou staccato etc. Isso foi um processo de trabalho pra mim muito rico e diferente.

 

Tem alguma história interessante que envolva o disco?

A surpresa mais gostosa e inesperada foi a capa do disco, que a minha esposa e parceira musical, Rita Figueiredo, criou! Eu digo que tenho muita sorte. Ela conseguiu captar um mundo de figuras, paisagens e histórias que deram um contexto maior para o disco, uma fábula atemporal! 

 

Fale mais sobre ele (coisas que não perguntei, e que você gostaria de ter dito).

Eu fico curioso em como é tão misteriosa essa coisa da gente colocar algo no mundo e não tem um jeito racional pra explicar como aquilo foi concebido mesmo. Ainda mais que eu tinha composto as músicas e não sabia como eu ia fazer os arranjos, eu nunca sei a maior parte das vezes. Eu só sei que eu decidi em um momento, “eu vou me comprometer a fazer algo com essas músicas”. Eu só tinha uma pequena ideia do que eu queria fazer. Daí eu escolhi fazer uma faixa com esse quinteto de sopros e violão. Durante esse processo virou uma coisa cada vez mais substanciosa, com mais vida, cores, três dimensões, etc e tal. Daí minha visão do processo ficou mais clara. Então a conclusão que eu tirei disso é a seguinte: eu preciso e amo criar… fazer parte desse processo na vida e é só isso que eu preciso me preocupar, e o resto vai seguindo. É sentar na bunda e trabalhar e a verdade vai se revelando. Lógico que vai ter os desafios, tarefas, momentos de ultra inspiração, nada de inspiração, dias sem foco. O importante é aparecer lá, independente das condições, curtir o processo e trabalhar.