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A ventania derruba árvores, derruba telhas, derruba vidas. Mas a verdade, é que o Ventania derruba padrões e comportamentos ultrapassados. Ser Ventania é estar ligado às coisas simples como receber na infância, um nome através de um anjo. Wilson da Silva, ilustre frequentador de São Thomé das Letras, ganhou o nome de Ventania. E não foi por acaso, o músico vem fazendo verdadeiras tempestades nos rumos da música brasileira.

Ter adotado a roupagem hippie dos anos 60, foi o que de fato modulou as estruturas musicais e de personalidade de Ventania, que deixou a vida rotineira para se tornar nômade, viajando pelo país, pegando carona nos postos de gasolina, compondo, tocando, cantando e aproveitando a vida, tendo a cannabis e os cogumelos alucinógenos como inspiração para suas músicas.

Ventania é daquele tipo de hippie mais raro de se encontrar: hippie micróbio, que é o que vive viajando e que vive de seu artesanato ou de sua arte. O orgulho de pertencer a esse grupo fascina o músico, e o deixa cada vez mais alternativo.

Usar poucos acordes criativamente, como fazia Legião Urbana, é uma especialidade singular de Ventania. Geralmente, suas músicas têm de dois a cinco acordes, um ritmo que lembra muito o reggae, misturado com uma melodia alternativa que lembra muito Raul Seixas, o que torna fácil a reprodução das canções.

Apesar de não ter declarado para a mídia sua relação com a religião e suas crenças, Ventania afirma ter iniciado sua carreira como cantor cantando na igreja, mas sabemos, perfeitamente, que a mesma não o influenciou, porque Ventania compõe letras que a igreja repudia.

Com a música O DIABO É CARETA, um de seus maiores sucessos, Ventania conta a história do diabo que recusa um cigarro de maconha e diz ser careta, causo que revela um pouco sobre o músico: o agnosticismo/liberal, que é a indefinição de crenças ou ausência delas.

Completamente indiferente em relação a gravadoras, Ventania segue seus passos independentemente. Começou a compor e cantar suas músicas em meados de 1980, e só alcançou o sucesso através da internet, com o disco SÓ PARA LOUCOS, nome de uma das músicas, que é até hoje a mais famosa.

Foi assim, apenas com voz e violão, que Ventania ficou conhecido, mas por coincidência ou semelhança, encontrou dois parceiros para acompanha-lo no instrumental: um baixista (Neto), e um baterista (Som). Mas sinceramente, eles se encontram mesmo é na aparência marginalizada, na loucura e na irreverência.

O mais engraçado na vida artística de Ventania, é que ele não tem identidade (RG, CPF, etc), e acaba sempre por despontar perguntas do tipo “Como você guarda o dinheiro que ganha?”, e Ventania responde sempre com sorriso no rosto “Eu levo comigo...”. Ele alerta que está começando a se interessar em tirar os documentos, mas enquanto isso, vai conseguindo marcar shows e ainda ganhar dinheiro com eles.

Sem se lembrar quando cortou a barba pela última vez, o hippie guarda às sete chaves, um livro que ele está escrevendo há aproximadamente 17 anos, chamado A BÍBLIA DOS LOUCOS, que já tem mais de 600 páginas.

A loucura, a simplicidade e a viagem do espírito, fazem parte desse artista incrível e que padece uma alegria distinta de seus pesares. Esse é Ventania, o último dos hippie; a brisa que não é passageira. O ventania e suas ventanias.