Ronei Jorge se reinventa em disco com sonoridades distintas e singulares [ENTREVISTA]

Capa do álbum

 

Para saudar os 20 anos de carreira do compositor e cantor baiano Ronei Jorge, o músico lançou o álbum ENTREVISTA, uma coletânea de 10 faixas, todas autorais e inéditas, e que trouxe novos ares para a trajetória do artista. 

O projeto (produzido por Pedro Sá, o mesmo de FRASCOS COMPRIMIDOS COMPRESSAS, segundo e ultimo CD lançado pela banda Ladrões de Bicicleta) vem sendo idealizado há alguns anos, ainda quando Ronei era integrante do grupo.

Além da banda, o álbum tem participações especiais de Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi).

"Esse disco só foi possível devido à colaboração de todas as pessoas envolvidas. Eu tenho ele como disco solo, mas teve um senso de coletividade danado. Também teve muito carinho, atenção e cuidado. A dedicação era como se todo mundo fosse pai e mãe dele, e de alguma forma são. Os músicos se entregando e criando nos inúmeros ensaios em que passamos tocando e discutindo formatos e ideias. Tudo muito prazeroso e sincero.", comentou Ronei.

O cenário das gravações foi em Salvador, no Estúdio Casa das Máquinas. A capa do trabalho veio das mãos de Edson Rosa, que também assina a música de PARQUE DE DIVERSÕES, única faixa em que Ronei divide a composição.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com Ronei.

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão branco no quadro abaixo.

 

Qual o conceito do nome do álbum (ENTREVISTA)?

A primeira coisa é o meu próprio interesse por programas de entrevistas. Sempre gostei muito e acaba sendo um bom passatempo meu buscar entrevistas de pessoas que quero ouvir. Também sou fascinado pelo formato de cada programa. Vi muitos dos anos 1970 no YouTube. Mas também acho que a entrevista é um exercício de interesse pelo outro, ouvir o outro, concordando ou não, ter interesse em ouvi-lo. Esse significado também me interessa.

 

Parece que você se reinventou em ENTREVISTA, não é?

Não sei se me reinventei, acho que cada trabalho tem uma cara, mesmo com a mesma banda, produtores. No caso desse disco, isso fica mais evidente por conta de ele possuir outros músicos, em sua maioria. Com exceção de Mauricio Pedrão, com quem eu já tocava, os outros músicos eu fui buscando um a um. E tinha uma estética que eu estava maturando que dava mais ênfase à música brasileira dos anos 1970 e outra coisa que formigou muito minha cabeça foi isso das vozes femininas.

 

ENTREVISTA vem sendo “idealizado” há quanto tempo? Como chegou na concepção do álbum?

Eu tinha feito um grupo com meu amigo Edson Rosa (guitarrista da Ladrões de Bicicleta) que tinha duas vozes femininas. A gente fez várias parcerias e eu dividia as vozes com elas. Esse grupo não chegou a se apresentar, mas foi a semente para maturar essas vozes femininas e rendeu uma música que levei para o repertório do disco ENTREVISTA: PARQUE DE DIVERSÕES, parceria com Edinho. Eu estava ouvindo muito Itamar, Arrigo e Tom Jobim e ficava muito ligado no comportamento das vozes femininas nos trabalhos desses artistas. Não acho que tem nada escancarado desses artistas no disco em termos de arranjos vocais, mas acho que pegamos emprestado em alguns momentos a doçura dos vocais da BANDA NOVA de Tom e algo da teatralidade e do JOGO de Itamar e Arrigo. Termina que essas vozes permeiam grande parte da MPB. Estão na OUTRA BANDA DA TERRA de Caetano, em alguns discos de Chico, Donato, Tom Zé.

 

O álbum tem 10 faixas autorais e inéditas. Penando nisso, como foi seu processo criativo?

O processo criativo foi diverso. Algumas músicas saíram letra e música de vez, outras tinham uma letra e coloquei música, uma é parceria com Edson Rosa – letra minha e música dele, algumas eu tinha feito na época de outro projeto chamado TROPICAL SELVAGEM com João Meirelles e Lia Cunha. Enfim, eu vinha compondo bastante e então resolvi juntar canções que fazem sentido para mim nesse momento, que representam o que eu tô vivendo musicalmente.

 

Faça um resumo da parte poética e musical do álbum.

Acho que é um disco que promove o encontro de um compositor com músicos de formações diversas e que, à base de muitas ideias e diálogo, foi ganhando forma e conceito. Penso que é um disco que abre possibilidades, não fecha questões. Ele tem delicadeza, doçura, mas também estranheza e desconforto. Tudo isso junto.

 

O disco conta com algumas participações, tanto na produção quanto na gravação. Fale mais sobre isso.

Ele foi produzido, mixado e masterizado com a mesma equipe do FRASCOS COMPRIMIDOS COMPRESSAS. Mas, com exceção de Pedro Sá que produziu os dois, as funções mudaram. Igor Ferreira, que fez a técnica do FRASCOS, fez a mix de ENTREVISTA, e Daniel Carvalho, que fez a mix do FRASCOS, fez a master desse. Fizemos o disco no estúdio de Tadeu Mascarenhas, que fez a técnica, e foi tudo num clima de muita amizade e tranquilidade. Eu estava entre amigos. As participações foram maravilhosas também. Moreno Veloso eu convidei para cantar uma faixa e ele terminou fazendo percussão em duas músicas. Joana Queiroz, que toca na Quartabê, tocou divinamente clarinete em uma faixa e clarone em outra, e a cantora e compositora Luana Carvalho estava no estúdio assistindo à gravação, sugeriu uma percussão, a gente curtiu a sugestão, e Pedro disse pra ela gravar e ficou ótimo. Todas essas contribuições foram importantíssimas porque em total sintonia com a atmosfera do disco e isso rolou organicamente.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

Eu queria muito que a capa do disco fosse uma foto minha, mas ao mesmo tempo queria que Edson Rosa a fizesse. Edinho, além de grande guitarrista e compositor, é um artista gráfico maravilhoso. Mas depois pensei que o melhor que podia pedir pra ele não seria trabalhar numa capa com foto, mas sim pedir pra ele fazer alguma ilustração. Pedi e ele me veio com um desenho da minha figura, essa capa linda que ele fez na mão, tinta a óleo, se acabando na alergia que ele tem. Prova total de amor e inspiração desse cara que admiro tanto.