Se perguntarem se o disco XENOSSAMBA é samba, diga que é muito mais do que isso!

 

O XENOSSAMBA é um disco novo, atual e cheio de elementos musicais que com certeza se diferencia muito de outros do mesmo estilo. O álbum é o oitavo da carreira do grupo Satanique Samba Trio, mas o resultado é muito mais maduro do que se possa imaginar.

Nós da redação da revista achamos o som do XENOSSAMBA muito parecido com as ideias musicais de Tom Zé, principalmente com o disco TODOS OS OLHOS e ESTUDANDO O SAMBA. Mas isso é você quem vai dizer, ao ouvir o vídeo abaixo, e também ao contemplar a entrevista especial que fizemos com o líder e porta voz da banda, Munha da 7.

 

 

O que tem por de trás do nome do álbum?

Neste disco reapresentamos 4 peças do nosso samba-desconstruidão de sempre e sugerimos releituras das mesmas. É uma espécie de desconstrução em dois atos, se assim preferir. Para cada música “típica” da célebre pesquisa de desmontagem do Satanique Samba Trio que incluímos nesse disco, fizemos uma versão bossa-nova-de-elevador/ música-ambiente-de-supermercado. Como boa parte dos clássicos da MPB (de GAROTA DE IPANEMA a AI SE EU TE PEGO) tem suas versões muzak produzidas por compositores especializados estrangeiros tocando nos alto falantes de salas de espera de consultórios de dentista em praticamente todos os países da Europa e América do Norte, pode-se dizer que, ao lançar esse disco, estamos exibindo nossa versão for export para o mundo. É aí que entra o título Xenossamba: Xeno (do grego - estranho/estrangeiro) + samba = Samba estranho forasteiro.

 

Por que escolheram disponibilizar o disco em vinil duplo de sete polegadas?

Foi a maneira mais eficiente que encontramos para reforçar a relação entre obra oficial e releitura. Nos lados A, as músicas originais. No lado B, suas contrapartes. Ao sair do disco 1 para o disco 2, o ouvinte tem uma chance física para absorver novamente o conceito e refletir sobre sua experiência estética. Fora isso, por que é mais caro, mais dispendioso, e complicado.  O Satanique Samba Trio não floresce sem ideias idiotas.

 

No álbum, vocês usam a curiosa “Bossa-Nova de elevador”. Pode nos falar mais dessa escolha?

Existe todo um universo mercadológico da Bossa-Nova-de-elevador no exterior. São milhares de produtores, estúdios e músicos que vivem exclusivamente disso. Saber que músicas brasileiras, muitas vezes já atmosféricas e suaves em suas versões originais são ainda mais adocicadas para atender a este mercado é ao mesmo tempo assustador e inspirador.  Não deixa de ser um trabalho de desconstrução estética... diferente do nosso, claro, que aspira o incômodo, mas ainda assim, de desconstrução. Há um diálogo aí.

 

Você gravaram quatro sambas “descontruidão”, que já é uma atitude comum do grupo. Comente.

Essa desconstrução nada mais é do que resultado de nossa diretriz inicial, proposta há quase 15 anos: o questionamento das regrinhas mais babacas da MPB. Assim, em uma tacada só, questionamos clichês, invertemos conceitos, entortamos ritmos, misturamos insumos que a priori “não combinam” e etc.

 

E o processo criativo, como foi?

Durante a nossa turnê europeia de 2016, eu estava em um supermercado no interior da Bélgica e ouvi uma versão muzak de TREM DAS ONZE no sistema de som. Achei engraçado, mas continuei o que estava fazendo. Depois, em um intervalo de meia hora, ouvi versões de ÁGUAS DE MARÇO, de GAROTA DE IPANEMA e até de JUIZO FINAL, do Nelson Cavaquinho. Fiquei embasbacado e pensei “poxa, como seria divertido se fizessem releituras anônimas, palatáveis e domesticadas de músicas do Satanique Samba Trio para o mercado exterior...”

Como ninguém ia fazer, resolvi fazer eu mesmo. Selecionei 4 músicas da banda que tinham boa resposta de público nos nossos shows, joguei no liquidificador e adicionei adoçante da pior qualidade.

 

E a gravação e produção das faixas?

Tive que estudar este escopo da bossa-nova-de-elevador e quase enlouqueci no processo. É tudo muito parecido, repetitivo e inócuo. Em resumo, foi dureza.

 

“Não é música para dançar, e nem para relaxar”. Pode fazer um comentário sobre esse aviso que está no release de vocês?

Considerando as mudanças de acentuação e andamento que já são patentes ao trabalho do Satanique Samba Trio, você há de convir que fica difícil dançar ao som de nossas músicas. Partindo deste ponto, do samba “inacompanhável”, era de se esperar que seu subproduto ambiente não seria lá muito relaxante...

 

Fale mais do disco (coisas que não perguntei, e que vocês gostariam de ter dito).

A versão digital do Xenossamba está disponível para download mediante pagamento no bandcamp:

https://sataniquesambatrio.bandcamp.com/album/xenossamba

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