Uma das vozes mais influentes da música latino americana, Violeta Parra completaria 100 anos em 2017. Com obra apresentando um frescor em sua delicadeza e na potência de suas mensagens, as canções da chilena ganham contornos brasileiros com o disco “Violeta Terna y Eterna”, do Sexteto Mundano. O lançamento do selo Cantores Del Mundo conta com participação da cantora Tita Parra, neta de Violeta, e com duas canções inéditas (“El Palomo”  e “Adonde vás Jilguerillo”).

— Violeta Parra tem admiradores de todas as idades, três gerações pelo menos. Regravar Violeta e suas músicas que fizeram sucesso no Brasil foi para mim reviver um período do Clube de Esquina, de Elis e do Grupo Tarancón que eu participei durante dois anos e meio. Também foi uma maneira de homenagear Angel, seu filho, que eu conheci na França. Naquela noite, assisti a um documentário trazido por Angel sobre sua mãe e tudo o que a envolvia. Suas composições, suas pinturas, seus trabalhos em cerâmica, suas inquietudes, tudo estava ali relatado de forma suave e absoluta. Fiquei emocionado e com mais vontade ainda de divulgar essa figura maravilhosa — conta Carlinhos Antunes, um dos idealizadores do projeto.

Um dos grandes nomes da música latina no Brasil, Carlinhos aproximou-se intimamente da obra de Violeta nos anos 80, em sua passagem pelo icônico Grupo Tarancón. Violeta Parra e suas composições ficaram conhecidas no Brasil entre os anos 70 e 80 através do Grupo e pela voz de Mercedes Sosa, Milton Nascimento e Elis Regina. Esse sucesso reaproximou países e gerou um intercâmbio cultural logo interrompido pelos anos de chumbo.

— A ditadura militar, com sua repressão e censura, fez com que esse movimento fosse paulatinamente diminuindo. Éramos proibidos de ouvir discos de artistas mais politizados de outros países e vice versa, assim como livros, jornais etc. Se estivéssemos portando LPs, fitas e livros nos aeroportos, vindos de  países latinos, considerados engajados, eles eram apreendidos pela polícia federal aduaneira — conta Carlinhos.

 

 

Para esse álbum, que traz arranjos contemporâneos para canções clássicas de Parra, ele reuniu uma formação única do seu projeto Orquestra Mundana. Carlinhos assume o cuatro, violão, viola caipira, charango, ronroco; Danilo Penteado assina os pianos e acordeons; Maria Beraldo Bastos assume o clarinete; Beto Angerosa, a percussão e Rui Barossi, o baixo acústico. Completando o projeto está a voz de Sarah Abreu, responsável ao lado de Carlinhos pela idealização e consolidação do projeto.

Juntos eles fazem um retrato terno e lírico, como o título do disco antecipa, que contrasta, em certa medida, com o tom mais tenso e intempestivo da personalidade de Violeta. “Violeta, Terna y Eterna” mostra as várias artistas por trás da lenda, alternando músicas compostas por ela ao longo de sua vida, clássicos da música latina e composições de integrantes do sexteto, além de algumas de suas poesias e textos. Tudo com o propósito de manter a mensagem das canções vivas no centenário da artista.

— Tivemos pouquíssimas manifestações pelo centenário de Violeta. O que significa que mesmo com um crescimento paulatino do intercâmbio cultural entre o continente, ainda resta muito que fazer”, reflete Carlinhos Antunes.

Talvez por conta das diferenças relacionadas à língua e ao modo como foi colonizado, o Brasil parece não se ver como parte da América Latina. Combater essa sensação de isolamento, de que o Brasil é uma enorme ilha no meio de países hispânicos, é a principal missão da gravadora Cantores del Mundo, selo que lança o álbum do Sexteto Mundano. Fundado por Tita Parra, o selo está sendo consolidado neste ano com a direção dos artistas cariocas Arthus Fochi e Guilherme Marques.

— A missão da Cantores Del Mundo é, de alguma maneira, um legado da família Parra, o qual temos a honra de levar adiante - pensando em conectar os artistas em torno de uma causa comum relacionada à própria época em que vivem”, conta Arthus Fochi.

 

Matheus Luzi é idealizador e fundador da Revista Arte Brasileira. Está cursando o último ano de jornalismo pela AEMS (Três Lagoas-MS) e é apaixonado por música brasileira.