Yamandu Costa e outros músicos fazem participações especiais no álbum A SANFONA É MEU DOM, de Marcelo Caldi

 

Para introduzir essa entrevista com Marcelo Caldi sobre o seu recente lançado álbum A SANFONA É MEU DOM, nada melhor do que falar um pouco de sua história por meio de um comentário do próprio músico.

— A SANFONA É MEU DOM antes de mais nada é o nome de uma música do meu amigo Thiago Pires. Eu adorei este nome e pedi pra ele pra usar o nome mas sem gravar a música. Na verdade eu já cantei algumas vezes essa música em shows e o título eu achava tão legal que pedi pra usar. Tem um pedaço que adoro que diz assim: “Tem sanfoninha, oito baixos, cento e vinte / Instrumento de requinte no erudito e popular / Tá na igreja ou no inferninho da esquina / Mexe com qualquer menina, faz até o duro dançar —, comentou Caldi.

 

 

Tem uma turma de peso fazendo participação especial no CD. Como foi essa experiência de trabalhar com eles?

É sempre gratificante tocar com músicos desse quilate. Todos têm assinatura própria no jeito de tocar. Neste CD eu quis que cada um imprimisse sua marca, que os solistas estivessem à vontade para tocar e improvisar. Um trabalho autoral, onde compus com (e sem) parceiros musicais em variados estilos, mostrando que a sanfona é um instrumento eclético.

É a primeira vez que realizo um trabalho com tantos convidados que se relacionam com minha trajetória musical. Vejo o CD A SANFONA É MEU DOM como um cenário dos dias atuais, uma leitura dessa alegria de encontrar amigos com instrumentos e “sotaques” musicais diferentes.

O Silvério Pontes, por exemplo, é trompetista e está mais ligado à linguagem do choro e dos bailes de gafieira. Já o Yamandu Costa, violonista, tem ligação forte com a música gaúcha e a música cigana. O Hamilton de Holanda é bandolinista e mistura choro com jazz. O Quarteto Radamés Gnattali, de cordas como violinos, viola e violoncelo, se dedica principalmente à música erudita. O ouvinte pode então ter ideia do que representa esta rica cena de instrumentistas dos dias atuais.

 

Nesse álbum, você revela um amadurecimento como compositor, não é?

Sim, eu já havia gravado muitos discos com composições minhas, tocando piano, cantando, fazendo discos em grupo... Mas me dei conta que nunca tinha feito um disco autoral empunhando a sanfona. E foi uma coisa natural, a composição sempre esteve comigo, gosto de compor andando, na cabeça, assoviando, direto no computador e até no violão. Quando vi, tinha um repertório imenso e precisava escoar. Foi bom porque consegui peneirar bastante e escolhi o que achei melhor, pensando sempre em encaixar os estilos com os solistas certos. Ficou bem variado. Dá pra perceber a sanfona como unidade mas com a surpresa de cada convidado trazendo novo fôlego a quem ouve.

 

Esse é seu terceiro álbum na carreira. Em relação aos anteriores, quais foram os diferenciais, as conquistas e desafios?

Cada álbum tem seu desafio. Nos primeiros álbuns eu mantive produções mais caseiras, na maioria das vezes com poucos músicos. Era um pensamento mais cerebral da música, pois eu tinha muito apego às formas mais tradicionais e clássicas da música erudita.

Foi uma fase mais experimental, de tentar me situar no mercado. Como venho do piano, a sanfona ainda não era tão presente em minha vida como é hoje. Depois isto foi se transformando e eu comecei a tocar um repertório mais popular, empunhando o fole.

Pra mim esta é a maior conquista dos últimos anos, a afirmação de ser um sanfoneiro. E também é meu maior desafio. Hoje consigo misturar toda essa bagagem nas minhas composições, e prezo por músicas mais fluidas, que tragam algum elemento popular. O que mais deu trabalho mesmo foi lidar com a agenda de cada artista, rs. Acho que a experiência vai trazendo mais segurança e certeza dos seus objetivos. Consegui realizar um lindo show de lançamento na Sala Cecília Meireles no Rio de Janeiro, tendo quase todos os artistas do CD no palco. Foi um momento único.

 

Como você chegou até a concepção do álbum A SANFONA É MEU DOM?

Concebi o álbum inicialmente para ser gravado em trio, mas ao longo do processo tive necessidade de dividir minhas músicas com outros amigos de ofício. O propósito principal acabou virando promover ao máximo os encontros com músicos que estão presentes em minha vida, que admiro e com quem trabalho sempre. Criamos parcerias em algumas composições e as músicas foram cuidadosamente pensadas pro estilo que cada convidado. A variação dos timbres e dos gêneros musicais torna a escuta mais leve.

 

Ainda nessa pergunta, quais foram as influências para o álbum?

Posso citar várias influências. Nos forrós, me remeto muito a Luiz Gonzaga e Sivuca. 

Nos choros, a Dominguinhos e Orlando Silveira.

Um pouco de Django Reinhert em ‘Yamandouche’. Um pouco de folclore argentino em ACERTANDO AS CONTAS COM MAMÃE.  Um híbrido dos tangos cromáticos de Piazzolla com choro de Ernesto Nazareth em VALÉRIA, faixa em que toco piano, instrumento que é também uma paixão. Um pouco de Geraldo Azevedo em XOTE DO GURIATÃ. As bandas de sopros de cidade do interior na quadrilha BAGUNÇA BOA.

Como também sou arranjador, adoro as trilhas de filmes. Tentei reproduzir um pouco esse clima em ANTIGA COMO NOSSO AMOR.