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Música

A “nudez” da música de Alice Passos no disco VOZ E VIOLÕES (Entrevista)

Matheus Luzi

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Parece mentira, mas Alice Passos já tinha uma longa estrada antes de seus 15 anos quando começou a gravar como cantora e cavaquinhista na Lapa, com Wilson das Neves, por exemplo. Apesar de ter amadurecido em um bairro boêmio da capital carioca, Alice já havia passado por vários lugares:

“Entrei para os “Flautistas da Pro Arte” com 8 anos, tocando flauta e cantando. Homenageando Chico Buarque, Tom Jobim, Hermeto Pascoal, etc. Com 9 anos fiz minha primeira gravação num disco do Quarteto em Cy chamado “Hora da Criança”. Nesses anos aprendi demais na orquestra e comecei a frequentar a casa da Cristina Buarque, que me iniciava no samba, as casas noturnas que a minha irmã Mariana Bernardes, cantava; viajei com a orquestra (Flautistas) pelo Brasil e na Áustria”, comentou a cantora.

Alice confessa que não se lembra ao certo – ou não sabe distinguir – o seu primeiro contato com a música, por ela ter chegado a sua vida de uma maneira muito natural.

“Minha mãe diz que eu me ninava. Tenho poucas lembranças de quando eu era muito pequena. Mas lembro muito dos instrumentos, de ir na oficina do meu pai de lutheria, de ir no Bip Bip. Tem músicas que eu acho que eu tô ouvindo pela primeira vez e já conheço”.

Alice se destacou também quando participou durante 15 anos para o grupo “Flautistas da Pro Arte”, que mais tarde receberia o nome de Orquestra de Sopros da Pro Arte. Com 8 anos, ela ingressou no grupo, mas há aproximadamente 3 anos, a cantora deixou a orquestra, garantindo que essa influência foi de extrema importância para o seu amadurecimento como artista.

“Vale lembrar que dedico o disco à Tina Pereira, que foi regente da Orquestra até o ano de 2008, quando faleceu de um aneurisma. Ela foi uma grande força na minha vida. Foi ela que me botou pra dentro da Orquestra e ela que pegava no meu pé de garota sapeca para me concentrar, estudar. Ela que me botava pra cantar, pra tocar melhor. Tocar em orquestra é um exercício de coletividade maravilhoso. Timbrar, acompanhar, calar (…) Foi uma enorme escola. De música e vida”, comentou a artista.

Mais madura do que nunca, agora, Alice Passos aposta em novo projeto, o álbum VOZ E VIOLÕES, e admite que seu desejo é levar sua música além dos horizontes.

“Acho que o grande desafio hoje em dia é chegar nas pessoas. Quero cantar em todo o canto, levar a música brasileira para o subúrbio, para o Sul, Norte. Apresentar novos compositores, como o Miguel Rabello, Pedro Messina, João Camarero e Julião Pinheiro; para todo o Brasil e afora”, finalizou.

 

 

Agora que você já conhece um pouco da história de Alice Passos, é hora de conferir uma entrevista quentíssima que fizemos com a artista sobre seu mais novo trabalho, o disco já citado VOZ E VIOLÕES, lançado em 2016. Confira:

 

O nome do disco “Voz e Violões” é bem sugestivo. Pelo que entendi o disco é envolvido com instrumentos de corda, certo? Por que dessa escolha? O que influenciou nesse processo? Tem algo a ver com o ritmo das músicas ou das letras das canções? 

Meus projetos sempre nascem de uma soma de motivos. Quase sempre. Fazia um tempo que eu vinha cantando com amigos violonistas, mas não necessariamente compositores. Cantar acompanhada de um só instrumento – seja ele violão, piano, bandolim, etc – deixa a música completamente nua, exposta. Assim como a cantora e o instrumentista. Gosto disso, gosto de escolher músicas que ficam bem assim, gosto do desafio de apresentar a canção com poucos elementos.

Tem também um fator prático: juntar uma galera pra tocar músicas inéditas ou desconhecidas é lenha. Tem que fazer arranjo, ensaiar, e geralmente não se tem grana pra isso.

No disco eu convido 13 violonistas com os quais eu vinha trabalhando, que eu admiro, e que são excelentes compositores. Em duas faixas convido Marcus Thadeu e Magno Julio, dois percussionistas de Cordeiro que eu quero comigo para a vida toda e em uma faixa convidei 4 amigos queridos de SP para fazerem coro.

 

O que o violão acrescenta no repertório de “Voz e Violões”? Como você trabalha com esse instrumento? 

O violão, as melodias e as letras são o ponto de partida do projeto. Ele é a base, eu só procuro somar, sem atrapalhar (risos).

Meu pai era luthier, se chama Mario Jorge Passos, fez violões pro Raphael Rabello e Egberto Gismonti, entre muitos outros. Minha mãe é violonista. Gosto muito de dialogar com as baixarias, com a levada suingada da mão direita, com os diversos timbres do instrumento.

 

No disco, Alice trabalha com a capoeira da Bahia, o maracatu alagoano, o forró carioca, o samba suburbano, a folia mineira e diversos outros estilos que compõem um quadro com cores bem brasileiras. O que essa mistura resultou para você? E como foi mesclar tudo isso num só álbum?

Eu amo música popular brasileira. Amo tanto que sou completamente ignorante para os demais gêneros tão ricos da América Latina, pra música oriental, clássica/erudita, etc.

Fiz questão de mesclar tudo isso num só álbum. Fiz questão de escolher compositores do Rio, São Paulo, Minas, Alagoas… A nossa variedade de gêneros é riquíssima. Também, como eu ia ter pouco recurso para trabalhar – voz e violão – procurei misturar violão de 6, de 7, violão de aço (João Lyra), em uma faixa tem 2 violões (Aparição, de Miguel Rabello e Roberto Didio), percussão e coro. Também, variar os gêneros era um outro fator para colorir o disco.

Escolher só uma música de compositores tão bons foi muito difícil. Um fator de escolha forte foi este. Não dava pra ter 4, 5 valsas – que eu adoro – , ou muitos sambas. Assim, acabei encontrando na obra deles músicas diferentes, até que eles mesmos não lembravam (como no caso de “Quadrança”, do Sérgio Santos).

 

Como funcionou o processo de composição/escolha de repertório/produção/gravação do disco? 

Já falei um pouco sobre a escolha de repertório. Produção e gravação foi bem difícil. Eu precisava me comunicar com o Ruy Quaresma, diretor artístico da Fina Flor e com os violonistas, e com fotógrafos amigos, e com babás/minha mãe/diversas ajudas pra ficar com meu filho que na época tinha menos de 1 ano.

Tive que trazer o Sergio de BH e o Mario Gil de SP (com a indispensável ajuda do Carlos Gomide, que patrocinou quase todo o disco). O Theo de Barros não estava podendo viajar, então gravei a faixa dele lá. O Dori Caymmi ainda morava em Los Angeles, então em Agosto, assim que surgiu a proposta do Gomide de fazer o disco, aproveitei que ele estava no Brasil pra gravar com ele. Ao mesmo tempo eu tinha que marcar os ensaios, comprar o lanche do estúdio, enfim. Tudo muito trabalhoso, que me sobrecarregou, mas que eu faria igualzinho de novo.

Sonhei com meu primeiro disco durante muitos anos. Foi muito prazeroso todo o processo.

 

Gostaria que você falasse um pouco mais sobre o disco. 

Tem algumas histórias muito legais.

Pra começar, fazia muito tempo que eu queria gravar um disco. Mas não sabia muito o que fazer, qual história o disco ia ter. Também, não tinha dinheiro. Meu filho, Dorival, nasceu dia 03 de Dezembro de 2014, e desde a gravidez que eu vinha comentando com o Maurício Carrilho que queria fazer um show com ele. A promessa foi pra depois que Dori já tivesse nascido. Quando me vi em condições, procurei o Fernando Merlino que generosamente me ofereceu uma data em Abril, se não me engano, de 2015 num projeto que ele tinha em Copacabana chamado “3as de graça”. Chamei o Maurício e lá fomos nós. No fim do show, um senhor de casaco e com um chapéuzinho veio dizendo que queria comprar meu disco. Eu então disse que não tinha, daí ele falou: “quer fazer um?”. Então me chamou para conversar melhor logo ali depois do show mas precisei voltar pra casa pra amamentar meu filho. Dias depois encontrei o Carlos Gomide, este mesmo senhor que veio falar comigo e conversamos os termos da produção do disco. Ele que deu o pontapé inicial para que meu sonho se realizasse.

Tive muita dificuldade de escolher as músicas de alguns dos compositores que cantam muito muito bem. Dori Caymmi, por exemplo. Só foi relativamente fácil porque me apaixonei completamente pela música (“Mestre” – Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) e achei que abriria muito bem um disco. Agora, demorei muito pra escolher uma música do Sergio Santos. Todas as músicas que ele já tinha gravado tinham sido extremamente bem gravadas, bem arranjadas, bem cantadas. Não tinha por quê eu regravar. Aí fui ouvir as inéditas que a Anna Paes, uma amiga querida e grande violonista e compositora (que se topar vai estar no “voz e violões 2, daqui há uns anos), tinha me passado fazia um tempo. Fui ouvindo e pensando o que faria sentido no disco (eu já tinha escolhido outras 11), o que ficaria bem na minha voz, o que ficaria bom só com voz e violão, e aí foram umas 15 músicas. Quando chegou em “Quadrança”, eu não precisei ouvir mais de 20 segundos, liguei imediatamente pro Sergio pra perguntar se aquela música já tinha sido gravada e a resposta foi mais ou menos: “que música?”. Mesmo depois d`eu cantarolar um pouco ele não lembrava. Depois mandei a gravação e ele fez o lindo arranjo do disco.

Se quiser, tem mais história! Mas acho que tô falando um pouco demais.

 

 

 

 

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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