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Entrevistas Marcantes

[ENTREVISTA] Pesquisadora Renata Lira lança o livro “Quilombo na Serra do Mar: a ousadia de lutar pela liberdade”

Matheus Luzi

Publicado

em

(Foto/Divulgação)

 

A cantora e historiadora Renata Lira lança a obra “Quilombo na Serra do Mar: a ousadia de lutar pela liberdade”, fruto de dez anos de pesquisa sobre o movimento quilombola na Serra de Casimiro de Abreu\RJ, reduto de luta contra a escravidão, até pouco tempo relegado ao ostracismo.

A publicação com o resgate dessa história foi viabilizada pela N30 Editorial através da plataforma de financiamento coletivo Catarse.

 

Para adquirir o livro:

Pedidos pelo: [email protected]

Ou pela página da Banda Flor de Aruanda:

https://www.facebook.com/pg/flordearuandaoficial/shop/?ref=page_internal

O livro, com frete incluído para todo o Brasil, custa 60 reais.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com Renata Lira sobre este lançamento.

 

Crédito: Alex L.

 

 

Por que o assunto estudado por você no livro, te chama a atenção?

Porque é uma forma de luta contra a exploração, especialmente contra a exploração escravista, que no Brasil assumiu feições tão brutais e estruturantes. A escravidão foi a base do projeto colonizador português e europeu, em geral, nas Américas. Lutar contra o cativeiro e contra todas as formas de opressão é afirmar a própria humanidade, afinal, todas as pessoas são dotadas do poder de construir o próprio futuro.  Estudar os vestígios da resistência quilombola que se constituiu no Brasil há pelo menos 200 anos é algo fascinante. 

 

Desde quando o mesmo vem sendo idealizado e escrito?

Desde 2004 realizo esta pesquisa que perfaz mais de 10 anos.

 

Como foi a pesquisa do livro? Como foi escrevê-lo?

Na pesquisa para a produção deste livro, percorri um amplo roteiro de bibliotecas, livrarias, hemerotecas, arquivos públicos, igrejas e até ruínas arqueológicas, nem sempre com buscas exitosas.

Sua elaboração passou por “ritos de passagem”, que começaram com a aprovação do meu projeto de pesquisa e minha posterior aprovação na prova do mestrado. No meio do tempo, veio o exame de qualificação e, no final, a defesa da dissertação para a obtenção do título de mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em todo este processo fui orientada pelo Prof. Dr. Théo Lobarinhas Piñeiro, querido mestre que faleceu antes de ver este trabalho publicado.  

Escrever a partir das fontes encontradas foi registrar o que me diziam testemunhas oculares daquela história bicentenária. Os historiadores inquerem as fontes tais como investigadores e da qualidade de suas perguntas depende a eficácia das respostas. Para a elaboração das questões, a precisão teórica e metodológica foi fundamental. Minha base é o marxismo, aplicado na teoria do modo de produção escravista colonial de Ciro Flamarion Cardoso e, sobretudo, Jacob Gorender.     

 

Faça uma pequena sinopse do livro.

O livro aborda conflitos de terra que configuraram a ocupação territorial fluminense de 1808 a 1831, submetida ao projeto colonizador português. O objeto de destaque nestas disputas é uma localidade denominada Quilombo, atualmente situada no município de Casimiro de Abreu (RJ).

A presença deste nome em mapas contemporâneos como designação oficial de uma região onde não há negros, mas descendentes de colonos suíços, foi o indício primordial para uma investigação acerca da resistência escrava naquela localidade.  Em cartas, ofícios e declarações produzidos durante a década de 1820, colonos suíços afirmaram que prenderam quilombolas e destruíram quilombos, se apossando de suas terras.  Notícias de jornal e mapas das três primeiras décadas do século XIX também forneceram informações sobre quilombolas e suas instalações nesta região.

 

Você tem a intenção de passar alguma mensagem com a obra?

Sim. Desejo que a luta dos nossos ancestrais sirva de incentivo para as batalhas contemporâneas. Os quilombos indicam que a liberdade, em seus múltiplos matizes, é um horizonte alcançável. A bravura quilombola para enfrentar as leis que legitimavam a ordem escravista e puniam violentamente quem as confrontava deve ser conhecida para a formação da identidade de classe das trabalhadoras e trabalhadores do Brasil e do mundo.  

 

Há algum relato ou história dentro da pesquisa, que tenha te chamado mais atenção?

A carta do suíço Antoine Cretton, de 1823, original em francês, endereçada aos seus familiares. Ele trata de uma légua de terreno que ele acabara de tomar dos quilombolas, terreno já plantado com batata doce, banana, cana de açúcar e café. A expedição de suíços, guiados por um português, encontrou este Quilombo depois de oito dias de incursão na mata fechada. Transpuseram armadilhas e depararam com mulheres e homens quilombolas que usavam flechas para protegerem sua comunidade dos invasores. Os suíços os prenderam, com o apoio da polícia que dispunham, e invadiram o território quilombola, tomando-o.     

 

Você tem alguma história ou curiosidade interessante a nos contar sobre o livro?

Os dados históricos do livro propõem questionamentos acerca da legitimidade das formas de ocupação do território do Rio de Janeiro em especial e do Brasil em geral, tendo em vista o projeto colonizador português. Tais europeus chegaram a estas terras de além mar, habitadas há séculos por milhões de pessoas, de diversos povos, realizaram guerras de extermínio para escravização destas populações nativas e saque de suas riquezas.

Depois trouxeram imigrantes africanos e também os escravizaram, usurpando seus sonhos, sua vitalidade, os frutos de seu trabalho. Em Oreretama fundaram o Brasil, baseado na escravidão e, por quase 400 anos, a violência foi característica comum nas relações sociais de produção, já que sem ela o cativeiro não poderia existir, pois a luta contra ele era constante. 

Sob as mãos do projeto colonizador europeu, as fronteiras do Brasil foram desenhadas e legalizaram o roubo dos territórios dos povos indígenas para concedê-los aos representantes do poder metropolitano, que os transmitiram aos seus descendentes legítimos. Os africanos e os crioulos, na condição de escravizados, não tinham direito a terra, nem à instrução pública. O Brasil virou um país de latifúndios, grande herança da colonização portuguesa.

Este livro identifica a reforma agrária como projeto político fundamental para o combate às desigualdades sociais, promoção dos direitos humanos e desenvolvimento econômico.

O Quilombo na Serra do Mar é um patrimônio histórico brasileiro a ser preservado e conhecido por muitas gerações. Foi formado por mulheres e homens que lutaram pelo direito de ocupar um território e nele viver em liberdade, materializando o sonho da reforma agrária através da luta.

  

Fique à vontade para falar o que quiser.

Agradeço a oportunidade de divulgação. O lançamento deste livro em 2018 é um acontecimento significativo, marcado por três efemérides: a chegada e instalação da família real portuguesa no Brasil completou 210 anos; o decreto de criação da primeira colônia de suíços no Brasil se tornou bicentenário e a abolição legal da escravidão no Brasil fez 130 anos. O livro “Quilombo na Serra do Mar: a ousadia de lutar pela liberdade” propõe uma reflexão que relaciona estes três acontecimentos.

 

 

 

 

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