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[ENTREVISTA] Os ruídos são essenciais no marcante álbum da banda Marsara

Matheus Luzi

Publicado

em

(Foto/Divulgação)

 

A saúde mental, o silêncio e os ruídos. São essas as palavras que “botam fé” no novo som da banda Marsara, um power trio carioca inspirado rock alternativo com influência do shoegaze.

Sob o título de “Silêncio/Ruído”, a banda apresenta ao público um álbum com forte apelo instrumental, e com letras que podem ser identificadas como um suporte ou alívio para aqueles que sofrem com problemas psicológicos como a depressão.

“Silêncio/Ruído” chamou tanto a nossa atenção, que resolvemos entrevistas o grupo. Confira as respostas do a seguir:

 

 

Vamos filosofar um pouco, pessoal? O nome do álbum é “Silêncio/Ruído”. Acho que dá pra vocês comentarem o que essas palavras e a ligação entre elas significam para vocês, e até mesmo para este trabalho.

Ricardo: Quando me veio a ideia de compor um álbum pra Marsara, eu pensei muito na frase “mente vazia, oficina do diabo”. Justamente por juntar experiências pessoais e de pessoas próximas, vi que podemos estar felizes ao longo do dia junto de amigos, mas no momento que chegamos em casa, paramos para ouvir só os nossos pensamentos, eles vêm ruidosos, com autos sabotagem, pensamentos que não deveríamos ter no pior sentido possível. Achei que esse paralelo entre silêncio e ruído seria uma peça fundamental pra eu ter o tema pra poder compor as músicas e que isso de alguma forma sintetizasse muito bem um universo coeso de uma banda que ninguém nunca ouviu falar.

 

Ainda nessa pergunta. Ouvindo as faixas do álbum, eu percebo que vocês trazem o “ruído” como conceito musical de forma muito nítida, deixando até mesmo o som um tanto “sujo”, no bom sentido, claro. De onde veio essa ideia fantástica?

Ricardo: Depois de conceituar o álbum, os temas vieram como imagens na minha cabeça. Com essas imagens em mente, quis alternar bastante entre melodias calmas e momentos de pura distorção, vozes distantes e quase não compreensíveis ilustrando angústia e sufoco, ao mesmo tempo com letras que revertem positividade também. No fim, apesar de ser um tema pesado e corriqueiro na vida de muita gente, inclusive de nós da banda, quis deixar fios de esperança e lembretes que as coisas melhoram também.

 

Como vocês trabalharam o diálogo dos instrumentos e dos vocais, neste trabalho com tanto apelo ao instrumental?

Fábio: Quando o Ricardo envia as demos, eu traduzo o que eu sinto nas linhas de baixo. Eu passo o dia inteiro em silêncio em casa e quando chega uma ideia nova, já consigo me identificar com aquele sentimento daquela música nova. Acaba que procuramos sempre complementar e interpretar o que tá sendo falado em letra e nas guitarras no instrumental. É como um feedback emocional do que a gente tá fazendo. Se algo não está bom, a gente refaz até ficar de acordo com o que nós queremos passar.

 

Ricardo, como foi para você transformar suas angústias e anseios do dia dia em letras de canções? Até onde entendi, o álbum reflete e aborda a questão da saúde mental. Nesse sentido, as faixas foram escritas inspirado em alguém, em vocês, ou em alguma situação em especial?

Ricardo: Acho que tinha muito tempo que eu queria abordar esse assunto. Acho saúde mental extremamente importante de ser discutido. Não só eu, mas muitas pessoas próximas tiveram os últimos anos péssimos. Recebi notícias de pessoas que tentaram suicídio, pessoas que melhoraram bastante o quadro emocional e eu mesmo tive problemas psicológicos por bastante tempo. Passei quase uma vida inteira com síndrome do pânico e muitas crises de ansiedade que me atrapalharam demais a vida, principalmente na época que eu ia à escola. Isso reflete até hoje, mesmo que eu seja um adulto e tenha melhorado bastante. Eu sinto que essa experiência de vida não é só minha, então algumas músicas eu fiz enquanto estava realmente mal e quis simplesmente fazer um lembrete pra mim mesmo que as coisas vão dar certo, como é o caso de “Psique”, o nosso segundo single. Outras músicas vieram só de lembranças do passado mesmo, mas num geral, são vivências minhas e de outras pessoas próximas.

 

Quem tem a saúde mental abalada, acaba sempre procurando uma válvula de espace. Eu senti isso muito forte em “Eu Não Sei Dançar”. Comentem.

Fábio: A gente cresce tão rápido que muitas vezes não sabe como lidar com as situações da vida e as frustrações. A gente acaba se deixando dominar e achando que é normal ser assim, mas não é. Até mesmo nós deixamos a depressão se espalhar pela gente e não sabemos como reagir. A nossa ingenuidade é achar que vai passar ao invés de dar atenção.

Ricardo: “Eu Não Sei Dançar” é bem sobre ser adulto e não saber lidar com a vida. A gente acaba sendo mais um na vida e isso muitas vezes nos deixa para baixo. Eu realmente não sei dançar, então daí vem o título da música. Eu costumo dizer pros meus amigos que eu gastei todos os pontos na música com instrumento porque o corpo não sabe se movimentar direito.

Eu gosto muito como essa música é um contraponto a tudo que a gente fez no álbum porque ao contrário de músicas barulhentas como “Ansiedade Abraça Sem Pedir”, eu quis usar as guitarras o mais limpas possível, sem distorções, assim como em “Minuano e a frente fria depois do calor”. Quis colocar umas influências de bandas como Yuck ou Blonde Redhead que eu gosto muito nessa faixa.

 

Acredito que vocês têm boas intenções com este álbum. Também acredito que o público vá botar fé em todas as canções que o compõem. Quais são os planos de shows e como vocês pretendem chegar às multidões?

Ricardo: Nós queremos tocar em todos os lugares que chamarem a gente. Pretendemos organizar um show para lançar o álbum e chamar bandas que gostamos pra compor o evento. Infelizmente não temos outros shows programados, mas se quiserem chamar a gente, aproveitem que somos um trio! Muito fácil de tocar em qualquer lugar. Num geral eu queria muito que muitas pessoas ouvissem e realmente entrassem no nosso universo depois desse álbum. Foi feito com tanta sinceridade que eu espero alcançar muita gente que não nos conhece.

Fábio: A gente espera que as músicas alcancem o maior público possível, à medida que as pessoas se identificarem com o som e as letras.

 

Vocês têm alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar?

Ricardo: Num geral eu acho as músicas com uns climas pesados, mas como falei antes, isso não reflete tanto o meu humor no dia a dia, então quando eu faço show, eu não sei o que falar pro público e aí eu começo a falar merda. No último show, eu contei histórias de quando eu trabalhava numa loja de instrumentos musicais, mas já contei como fui demitido e histórias engraçadas num geral, no maior formato stand-up comedy. No show em São Paulo, eu falei em um momento que “se fossemos famosos, aquele seria o momento que o público cantaria com a gente” e por aí vai. Eu quero na verdade que as pessoas assistam o nosso show e tenham a experiência completa, sabe? Saiam satisfeitas, felizes, se emocionem com as músicas e etc. Uma vez veio um cara pra mim: “qual é o nome da banda?” aí eu “Marsara”. O cara não entendeu, aí eu falei: “Marsara. Mar e Sara. Lembra que parece nome evangélico que tu vai achar a gente fácil, fácil”. O cara riu e eu espero que ele tenha achado a banda na internet (risos).

 

Fiquem à vontade para falar algo que eu não perguntei e que vocês gostariam de ter dito.

Ricardo: Deem uma chance e ouçam a gente nesse álbum. Foi feito com muito carinho e dedicação ao longo de mais de um ano de silêncio, compondo, refazendo tracks, remixando, criando videoclipes tudo por nossa conta e com a ajuda de nossos amigos que acreditaram no potencial das nossas criações. Num geral, estamos muito felizes com o resultado e esperamos que vocês também gostem e se emocionem no final. Ah, e se encontrarem com a gente por aí, que troquemos ideia tomando cerveja ou não! (adoro falar, percebam).

Obrigado pela entrevista!

 

 

A banda que inciou a carreira em 2017, é formada por Ricardo Martins (vocal e guitarra), Fábio Korrto (baixo) e Felipe Marques (bateria)

 

 

 

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