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[ENTREVISTA] Camões entra em vibe dançante no álbum “Drink Club”

Matheus Luzi

Publicado

em

Camões Drink Club

(Capa do álbum)

 

O som tropical dançante de Camões está de volta com o álbum “Drink Club”. Se distanciando do tom melancólico de seu álbum de estreia, “Flôres” (2018), o artista carioca construiu o novo trabalho a muitas mãos, reunindo amigos para noites musicais permeadas por explorações sonoras e etílicas. O resultado é uma coleção de oito canções embebidas em uma sinceridade ácida mergulhada em referências oitentistas e, ao mesmo tempo, modernas.

No meio do ano passado, Camões e seus parceiros de banda foram para Búzios pegar uma praia e gravar algumas tracks. Eis que, entre sintetizadores e biritas, acabaram idealizando esse novo projeto: uma sequência de singles que culminaria num álbum.

Após os EPs “Cupim” e “Anilina” e seu álbum de estreia “Flôres”, trabalhos que enfatizavam mais a solitude do autor, Camões quis expor seu lado mais solar e agregador. Por isso, mais da metade das faixas de “Drink Club” conta com participação de amigos queridos do cantor. Esse encontro gerou a série documental “Aperitivo”, lançada no IGTV e posteriormente no YouTube, onde é possível acompanhar todo o processo criativo e de produção.

 

SAIBA MAIS

Enquanto as letras são permeadas por um lirismo sincero e rasgado, o lado musical do disco traz a marca plural de um trabalho construído com muitos colaboradores.Além das vozes convidadas, colaboradores usuais do artista, como Antonio Dal Bó, Giordano Bruno Gasperin e Julio Santa Cecília, marcam presença ao longo das faixas.

Flertando com o boogie, o city pop, o R&B, a bossa, o vaporwave e o dream pop, entre sintetizadores e drum machines, Camões constrói um som inerentemente orgânico, calcado nas suas crônicas musicais sobre amores urbanos.

“Drink Club” vai ganhar os palcos em breve. O atual formato de show de Camões já esteve presente nos palcos da MangoLab, do Festival Rock The Mountain e do BAR Party Experience, dividindo o line up com artistas de peso como Azymuth, João Donato e Céu. Além disso tudo, Camões tem feito sucesso como DJ na sua festa mensal, a Delícia, que tem lotado as casas por onde passa, colocando todo mundo pra dançar Disco, House e Boogie Brasileiro. 

 

Camões Drink Club

Camões, primeiramente, obrigado por topar essa entrevista.

Neste álbum, a gente percebe um som mais dançante, e, todavia, com lirismo muito forte. O que justifica o trabalho poética e musicalmente?

Antes sentia que existiam dois Camões: o Camões cantautor de MPB x o Camões DJ e isso não só criava uma mensagem ambígua pra o público como me gerava um conflito interno. O “Drink Club” tem um quê de fazer as pazes comigo mesmo. Quis aproximar a minha carreira de músico à minha carreira de DJ, na qual tenho uma festa chamada Delícia com o conceito “música pra tomar Gin Tônica”

Não quero ser um artista multitarefa (essa classificação que os boomers inventaram pra fazer minha geração trabalhar mais achando maneiro). Sou um artista que cuida do universo que propõe em cada detalhe, mas o universo é um só. Nos bares e baladas em que vou no Rio (no Alfa, no Desvio, na Geral…) tem um monte de jovem cabeçudo de letras, arquitetura e belas artes. Ou seja, estar na balada e se preocupar com a retórica não são coisas dicotômicas pra mim. Ambos fazem parte da minha rotina. Sendo assim, o que justifica o trabalho poético e musicalmente é o desejo de retratar a realidade do jovem adulto de classe média alta do Rio de Janeiro, desde as questões de relacionamento até às referências estéticas que estamos absorvendo na noite.

 

Com uma identidade muito própria, o álbum “Drink Club” parece ter sofrido várias influências. Falo isso tanto em relação aos músicos que fizeram parte da construção do trabalho até as suas referências pessoais dentro do universo musical.

Quais são as temáticas que você trabalha nas oito faixas do álbum? E de que forma, você acredita que essas poesias irão afetar o público?

Lugar de fala é algo relevante para qualquer discurso feito na minha geração. Meu lugar de fala é de alguém privilegiado e sempre me perguntei o que quero entregar pra o público com as minhas músicas. Será que o público precisa do que eu tenho pra dizer? A resposta que encontrei é: todo mundo ama, todo mundo sofre de amor, todo mundo tem D.R., todo mundo gosta depois desgosta e vice-versa. Os Y estão reaprendendo a se relacionar com toda essa suposta liberdade. Com a minha poesia busco compartilhar experiências. Cada sentimento novo que me faz sofrer de amor (que pode até ser uma ansiedade boba por um date que não rolou), já me dá vontade de escrever. O que quero dizer é: não posso presumir com minha música vai afetar o público. Mas meu anseio é gerar identificação. Fazer com que a pessoa se encontre no meu catálogo de sentimentos e saber que tem gente com a mesma agonia (por mais específica que essa agonia seja).

Sobre essas experiências: no álbum tem música de início de romance, tem música do fim de um relacionamento, música do medo de se entregar, música da pressa em se entregar, música do desejo de se entregar, etc…

A única que foge a temática amorosa ou pelo menos aparenta fugir é “Pra Ver O Mar”. “Pra Ver O Mar” é um auto conselho em que relativizo o tempo, me lembrando que preciso seguir em frente sem dar vez pra ansiedade. Afinal, “batimento não parou/ onda sempre baterá”.

 

 

Sobre a musicalidade das faixas, você teria uma definição aproximada?

Não precisa ser aproximada [hahah]. Tenho algumas referências descaradas como o “City Pop” (disco japonês dos anos 80) em “Baldeação” e “Baby Bem”.

Além do City Pop, todo o universo Disco, tanto antigo como atual, são influências constantes no meu trabalho. Aqui posso citar Luther Vandross, Jamiroquai, Honne, Tom Misch, por aí vai.

Já em “Abraço Laranja”, “Se Envolvendo” e “Nuca” sigo a influência do AOR, Yatch Rock, rádios FM, músicas românticas em geral. Quis fazer músicas que pedissem uma voz de radialista ao final. Aqui busquei referências em artistas como Bill Withers, Benny Sings, Roberto Carlos, Steely Dan, Hall & Oates, Taeko Onhuki.

“Pra Ver O Mar” também segue esse objetivo de soar radiofônica só que vai pra um lado ainda mais brasileiro, tendo referências como Marcos Valle e Tribalistas.

“Vc Nem Imagina” vai pra um lado mais Drum and Bass, House anos 90. Nela rola uma mistura de influências: na linha melódica e harmônica é mais bossa tendo influências como João Donato e Marcos Valle. Já na batida, arranjo e timbres da produção tem influências como Claudinho e Bochecha, Kaleidoscópio, Jorja Smith e Crystal Waters.

 

 

Como foi trabalhar com tantos artistas no álbum “Drink Club”?

Agregar é o que me move ultimamente. Já fiz muito sozinho e passei a duvidar da relevância do que estava fazendo. Fazer junto cria propósito. Mais gente envolvida com o projeto é mais gente querendo fazer dar certo.

Além disso, é uma troca muito gostosa e um aprendizado intenso ver como funciona o processo de criação de cada um. Com a Bruna houve uma sintonia intensa, tem mão dos dois em cada etapa do processo, desde o arranjo até os vocais. A Luluca e a Luíza Boê me deram o presente de expor todo o brilho retido que as músicas tinham com seus arranjos vocais. Inclusive a Luluca ajeitou a métrica do refrão em “Vc Nem Imagina” que ficou beemm melhor.

Já o Zé, sem querer, acabou me dando o desafio de aperfeiçoar minha técnica vocal em pouco tempo pra fazer um dueto à altura da sua performance.

 

Há mais de três anos à frente do site da Arte Brasileira, eu ainda não havia visto um artista lançar um trabalho (no seu caso, a série documental “Aperitivo”) primeiro pelo IGTV, e posteriormente no youtube. Como surgiu essa ideia e qual a análise que você faz desse método de lançamento?

Uma vez um amigo me disse sobre técnicas para aumentar o engajamento online: “Brasileiro gosta de novela”. O que eu entendi é que, se quero que as pessoas me acompanhem, tenho que dar oportunidade para elas fazerem isso.

São poucos os artistas contemporâneos que podem se dar o luxo de sumir do mundo e depois voltar com sua obra lapidada. Hoje em dia o processo faz parte da obra. Isso porque, na era digital só existe quem está postando e, infelizmente, eu não consigo tem uma música pronta por dia pra fazer um post diário.

Sendo assim, a ideia surgiu da necessidade de expor a rotina de criação sem interrompê-la pra ficar no stories ou alguma outra rede social. Tínhamos só uma semana em Búzios e queríamos focar e não pensar nas redes. Por isso levei o Tadeu Fidalgo comigo que ficou filmando tudo até esquecermos que ele estava lá.

A análise que faço é positiva. Acho que abrir o processo de criação algo sincero com quem consome a obra final.

 

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) para nos contar?

As curiosidades mais bacanas são:

Eu que mixei e masterizei todas as músicas. Foram noites e noites sem dormir.

Em “Abraço Laranja” o Antônio enrolou um cobertor na mão pra gravar a virada  do orgão sem machucar os dedos. Na abertura de “Abraço Laranja” usei o som ambiente do hall de entrada do Louvre.

O baixo que usamos pra gravar “Você Nem Imagina” era um Gianini Formigão dos anos 70 com o braço empenado, mas que tinha um timbre incrível. Hoje em dia o braço está em perfeito estado, mas não tira o mesmo timbre.

Em “Nuca” usamos uma Kalimba enferrujada que afinamos virtualmente depois.

Em “Baldeação” usamos o sample do aviso de embarque do Metrô Rio que achamos no YouTube. Uma alma caridosa gravou todo o percurso do Metrô, estação por estação, e postou no seu canal.

É isso.

 

 

Fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Muito obrigado pelo interesse no meu trampo! <3

 

 

 

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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