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Dramaturgia

[ENTREVISTA] Ator Deo Garcez vive Luiz Gama, herói brasileiro que representa a luta racial

Matheus Luzi

Publicado

em

Luiz Gama Biografia

(O ator Deo Garcez interpretando Luiz Gama – Crédito: Valmyr Ferreira)

 

Em homenagem à Luiz Gama, herói brasileiro pouco conhecido, o ator consagrado na dramaturgia nacional Deo Garcez escreveu a peça “Luiz Gama – Uma voz pela liberdade”, na qual atua como protagonista sob direção de Ricardo Torres. Com intensidade cênicas, o espetáculo resgata a biografia dramatizada de Luiz Gama, ex-escravo, jornalista, e como poeta foi pioneiro como a primeira voz negra da literatura brasileira.

Como advogado abolicionista libertou mais de quinhentas pessoas escravizadas, o que (tardiamente) levou seu nome em 2018, por meio de Leis Federais a se firmar como Patrono da Abolição da escravidão do Brasil e inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.

Há quatro anos nos palcos com o objetivo de conscientização da luta pelas igualdades étnicas, o espetáculo está em cartaz até o dia 21 deste mês na capital carioca na Casa de Cultura Laura Alvim, com capacidade de 186 visitantes por seção, ingressos a partir de R$ 25,00, e com duração de 55 minutos.

 

SOBRE DEO GARCEZ

(Eis um vídeo que com certeza vai te dar uma certa nostalgia, se você não é tão jovem assim. São frames de participações de Deo em novelas)

Selecionamos duas reportagens que acrescentam muito sobre a vida do ator.

 

Todas as respostas são de Deo Garcez para as perguntas de Matheus Luzi.

 

– Para começar essa entrevista, nos diga como você enxerga a importância de Luiz Gama, e como conheceu sua história e causas.

Luiz Gama tem uma importância fundamental na luta pela Abolição da Escravatura no Brasil, na luta pela igualdade de direitos para todos. A história e a luta dele são exemplares, portanto devemos seguir seu exemplo, ainda mais num país como o nosso, que carece de verdadeiros heróis a nos representar dignamente. Eu pouco conhecia sobre ele, mas numa sugestão do amigo, o Dr. Humberto Adami, para eu escrever uma peça teatral sobre nosso herói, resolvi mergulhar em sua história, com a colaboração do também diretor da peça, Ricardo Torres, especialmente consultando o livro “Com a palavra – Luiz Gama”, da Professora e Doutora em Luiz Gama, a Ligia Ferreira

 

– Ainda nessa pergunta, qual foi o gatilho que fez você escrever o roteiro desse espetáculo? Sei que você é um adapto às lutas das igualdades raciais.

Como disse acima o gatilho foi a sugestão do Dr. Humberto Adami, que é o Presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil/OAB. Mas a motivação maior foi eu realmente ser um militante da luta pela igualdade racial. Em função da minha militância, que se tornou mais evidente depois da repercussão do espetáculo, fui convidado pelo Dr. Adami a fazer parte da Comissão da Verdade da Escravidão Negra do Estado do Rio de Janeiro e do também da Comissão do Maranhão, pelo Presidente da AOB MA, Dr. Thiago Diaz e pelo Dr. Erik Morais, o Presidente desta última Comissão.

 

– Para quem tem o interesse em apreciar a peça, tenho certeza que todos vão gostar de uma sinopse, direta de você como escritor e protagonista do espetáculo.

Nasci pra ser ator, desde criança exerço meu ofício, levando-o muito a sério. Para tanto fiz duas faculdades de teatro, onde fui aluno da saudosa e genial atriz e mestra Dulcina de Moraes, em Brasília. Tenho 42 anos de carreira. Por conta desses 42 anos, pelos meus trabalhos voltados para a temática dos meus irmãos afrodescendente e também por este espetáculo “Luiz Gama – Uma Voz pela Liberdade”, recebi a Medalha Pedro Ernesto, a maior comenda da cidade do Rio de Janeiro, numa inciativa do Vereador Tiãozinho do Jacaré.

 

Luiz Gama Biografia

(Crédito: Vivian Fernandez)

 

– Desde 2015, o espetáculo vem sendo apresentado. Você teria uma análise da resposta do público frente a peça? Como o público está reagindo nas plateias e fora delas?

O público tem reagido de forma espetacular. Temos tido casa cheia nesses quatro anos. O público, em sua maioria de pessoas negras, algo nunca visto em casas de espetáculo no Brasil, hoje essas pessoas se veem representadas dignamente através da figura, do pensamento e dos ideias de Luiz Gama, saindo do teatro com sua auto-estima elevada, orgulhosos e fortalecidos, estimuladas a lutar e se impor cada vez mais como protagonistas e não como figurantes em suas vidas. Levam consigo também uma aula de história e de cidadania.

 

– Se formos comparar este trabalho com todos os outros que você já fez parte, qual seria emocionalmente a diferença de “Luiz Gama – Uma Voz Pela Liberdade”?

Na diferença emocional, além de ser um projeto autoral, conta a minha plena identificação com Luíz Gama, sua história e sua luta, por eu ser negro e tudo que isso implica, a questão do preconceito racial, da exclusão, da luta diária por igualdade de direitos.  A emoção de viver Luiz Gama é imensa, evidenciar no palco sua luta e resistência em situação totalmente adversa e ameaçadora é uma responsabilidade bastante prazerosa, é uma verdadeira catárse. Uma catarse coletiva junto ao público, minha e também das atrizes Nivia Helen e Soraia Arnoni. O fato viver no palco as dores da minha ancestralidade negra me responsabiliza e me faz porta voz dos anseios do Luiz Gama de ontem e do Luiz Gama de hoje, que são os negros e negras, e porque não dizer também dos índios e de todos aqueles excluídos seja de que forma for?   

 

Uma pausa para um vídeo incrível do canal Tempo e História sobre a vida e legado de Luiz Gama

 

– Até que ponto a peça é importante para a consciência da igualdade racial no Brasil e no mundo?

Sem vaidade nenhuma, eu e a equipe do espetáculo nos orgulhamos no melhor sentido, acreditando que a peça tem uma fundamental importância para a consciência da igualdade racial aqui no Brasil e no mundo.  O pensamento e seus ideais de Luiz Gama são revolucionários e universais, portanto, necessários de serem discutidos ainda hoje na contemporaneidade, infelizmente.  É importante registrar que este espetáculo sobre o Gama reinaugura o teatro feito por negros com temática negra, antes feito pelo também revolucionário Abdias do Nascimento com o Teatro Experimental do Negro (1944-1961), aqui no Brasil.  

 

– Em questões cênicas, quais são os diferenciais e pontos positivos do espetáculo?

O espetáculo, muito bem dirigido por Ricardo Torres, valoriza a palavra, os silêncios, buscando o essencial através do ator e da interpretação, estimulando o público a pensar e refletir mais ainda sobre cada palavra de Luiz Gama. Tudo isso sem malabarismo, sem excessos cênicos, mas com muita verdade interpretativa.

 

– Você teria alguma(s) curiosidade(s) ou história(s) que queira nos contar?

Uma curiosidade, que é uma notícia fresquinha: Por conta da repercussão da peça teatral “Luiz Gama – Uma Voz pela Liberdade”, que leva para os palcos do Rio e do Brasil, a história e a importância de Luiz Gama, o vereador Tiãozinho do Jacaré, num gesto sensível e patriota, encaminhou e foi aprovado o seu Projeto de Lei nº 1087- A, de 2018, que inclui o Dia do Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil, LUIZ GAMA, no Calendário Oficial da Cidade do Rio de Janeiro. O Dia de Luiz Gama, a partir de agora é comemorado anualmente a cada dia 24 de agosto, consolidado pela Lei 5.146, de 2010.

 

– Sinta-se a vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Quero dizer que o sucesso do espetáculo e o que ele representa hoje, não seria possível sem uma equipe comprometida como a nossa, a começar pelo diretor Ricardo Torres, as atrizes Nivia Helen e Soraia Arnoni, os produtores Mário Seixas e Ayala Rossana e a assessora de imprensa Márcia Araújo, além do público, é claro.

Muito obrigado pela entrevista, Matheus Luzi/Revista Arte Brasileira!

 


 

Entrevista realizada por Matheus Luzi

 

 

 

 

 

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