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Gabriel O Pensador, sempre insatisfeito em “Matei o Presidente”

Matheus Luzi

Publicado

em

Gabriel O Pensador

Reportagem escrita por Nathália Pandeló em outubro de 2018 e editada por Matheus Luzi

 

Há quem diga que o rap é o novo rock – e não é um exagero. A comparação entre os dois gêneros marginalizados que ganharam status dominante, mesmo a contragosto dos políticos dominantes, não mede apenas posições de sucesso. É também uma questão de relevância histórica, política, social. Nesse quesito, o hip hop nacional é há décadas uma voz de muitos sotaques e dono de um discurso impactante contra o sistema.

Assim, os versos dão visibilidade ao trabalhador brasileiro que só quer sobreviver a mais um dia. A depender de Gabriel o Pensador, a vida boa não seria um privilégio apenas do Presidente da República. O rapper carioca, que chamou atenção aos 18 anos com “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, fez novamente uma canção símbolo da polarização política atual, retomando o problema que o Brasil parece tão longe de erradicar: a corrupção.

 

 

Em 1992, o país ainda era uma jovem democracia, capitaneada pelo “caçador de marajás”, Fernando Collor de Mello. Eleito dois anos antes, o pai do Plano Collor viu a economia brasileira afundar ainda mais na recessão, ao mesmo tempo em que um escândalo envolvendo seu tesoureiro, PC Farias, somado ao confisco das poupanças, levou seu governo a apenas 9% de aprovação. Um processo de impeachment, pedido nas ruas pelos Caras Pintadas, culminou na renúncia de Collor.

Gabriel Contino era parte dessa juventude insatisfeita com os rumos do país que, apenas sete anos antes, havia recuperado sua democracia. Morador de São Conrado, na zona sul carioca, ele convivia com o contraste entre os luxos do asfalto e a pobreza da favela da Rocinha, e se via “terrivelmente inconformado com o conformismo”, como ele mesmo declarou. O interesse por música na escola e o contato com o break dance deram lugar às primeiras apresentações e a uma fita “demo” que o transformaria em Gabriel o Pensador. Era “Tô Feliz (Matei o Presidente)”.

 

CENSURA

Em 5 de setembro de 1992, a RPC FM  – atual FM O Dia – colocou no ar a canção que, apenas cinco dias depois, se tornaria uma das mais pedidas do rádio e seria censurada pelo Ministério da Justiça. Versos como “Fácil um tiro só / Bem no olho do safado / Que morreu ali mesmo / Todo ensanguentado” chamavam a atenção pela crueza dos detalhes, ao mesmo tempo em que a letra citava ironicamente a primeira-dama, Rosane Collor; o Ministro do Trabalho, Antônio Rogério Magri; a Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello; e o Ministro da Saúde, Alceni Ângelo Guerra.

Gabriel O PensadorTambém foram feitas referências a escândalos da época, como um superfaturamento na compra de bicicletas, mochilas, guarda-chuvas e outros itens, e desvios de verbas da LBA (Legião Brasileira de Assistência).

 

DEU CERTO

A repercussão da faixa, embora chocante para alguns, escancarava o nível de insatisfação geral para com os rumos do país. Tanto que, apenas 20 dias depois da estreia da música, Collor deixou a presidência.

Já em 1993, Gabriel o Pensador, assinava um contrato com a Sony Music Brasil e lançava seu primeiro álbum homônimo, incluindo “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, além de sucessos como “Lôrabúrra” e “Retrato de um Playboy.

Em “Abalando”, música que abre o disco, ele compara a censura de seu primeiro sucesso com o discurso controlado pela ditadura, ainda tão recente na memória do país.

 

CORTA PARA 2017

Gabriel O PensadorGabriel o Pensador teve uma bem-sucedida carreira nos 25 anos seguintes. Apostou no caráter pop das suas composições, cruzando a barreira do nicho hip hop para ocupar palcos de destaque em nível nacional. Pela Sony, lançou “Ainda é Só o Começo”, “Quebra-cabeça”, “Nádegas a Declarar”, “Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo)”, “MTV ao Vivo” e “Cavaleiro Andante”.

Em 2012, virou artista independente e lançou “Sem Crise”. Ao longo desse tempo, exercitou a veia questionadora em outras canções: “FDP”, “Pega Ladrão”, “Até Quando”, “Chega”. Tornou-se empresário, criou projetos sociais e estreou também como escritor, sendo autor dos livros “Diário Noturno”, sua autobiografia, e os infantis “Um Garoto Chamado Rorbeto” e “Meu Pequeno Rubro-negro”.

 

E O BRASIL?

Continua lidando com os mesmos problemas, agora em proporções ainda maiores. Em meio à maior investigação de corrupção já realizada no país, a Lava Jato, e acusada de cometer pedaladas fiscais, a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment e foi substituída pelo vice, Michel Temer. As jornadas de junho de 2013 levaram milhares de brasileiros à rua, desencadeando a ação de movimentos sociais tanto à direita quanto à esquerda, que perduraram pelos próximos anos. Desse caótico cenário político, “Tô Feliz (Matei o Presidente)” ressurge das cinzas um quarto de século depois.

Embora houvesse pedidos de retornar a um de seus maiores sucessos, Gabriel o Pensador relutava. A gota d’água veio com a tentativa de Michel Temer em extinguir, por decreto, a Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados), permitindo, assim, a exploração de quatro milhões de hectares da Amazônia. “Não foi por motivação partidária, mas sim uma demanda por respeito, por mais seriedade, menos impunidade”, declarou ao jornal O Globo. O resultado foi um novo disparo de rimas, dessa vez mirando diretamente em Temer, mas citando a divisão que toma conta do país: “É o povo desunido que se mata por partido / Sem razão e sem noção / Chamando políticos ridículos de mito”.

Desta vez, Pensador deixa mais claro que o assassinato do Presidente é uma alegoria para se pôr um fim àquilo que faz o país sangrar. “Quando eu matei o outro, eu era apenas um menino / Agora, palestrante, autor de livro infantil / Não fica bem matar o presidente do Brasil”. Com um clipe gravado em plena Amazônia, ele mostra que música é mais que entretenimento – é resistência. Tudo isso um ano antes da acalorada eleição presidencial que o Brasil vivenciou em 2018. A depender dos rumos políticos do país, pode ser que “Tô Feliz (Matei o Presidente)” ganhe uma terceira parte num futuro próximo.

 

Reportagem escrita por Nathália Pandeló em outubro de 2018 e editada por Matheus Luzi

 

 

 

 

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