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Entrevista

[ENTREVISTA] Músico Adriano Trindade comenta a vida artística e a música brasileira na Europa

Matheus Luzi

Publicado

em

(Imagem/arquivo pessoal)

 

Adriano Trindade, gaúcho pouco conhecido em sua terra natal, mas muito aplaudido pelos palcos europeus. Cantor e compositor, Adriano já passou por 54 países do velho continente, e reside atualmente em Berlin, na Alemanha. Apaixonado pela música brasileira e seus ritmos peculiares como a Bossa Nova, ele é considerado um dos percussores do Samba Rock na Europa.

Inconformado com o cenário da música no Brasil, o músico decidiu, em 2004, enfrentar o desafio de viver fora do país, e encontrar em outros territórios, terras mais férteis para viver da música e ganhar o seu devido reconhecimento. Dito e feito! Um ano depois da marcante decisão, Adriano mudou-se para a Nova Zelândia onde ficou aproximadamente um ano. Foi aí o nascimento de uma vida artística com grandes frutos e muitos aplausos.

Nós da Arte Brasileira conhecemos Adriano Trindade no Instagram, e sua história nos chamou a atenção. É por isso que o convidamos para uma entrevista que você lê a seguir. A principal pauta foi “a vida artística na Europa e como a música brasileira é prestigiada no velho continente”.

 

 

“Na Europa é claro que os hits de verão aparecem, porem ninguém nem sabe quem canta, de onde vem, todos sabem que é música descartável, efêmera, e as vezes nem se classifica como musica.”

 

Matheus Luzi – Adriano, muito obrigado por aceitar esta entrevista. Seria legal você começar nos contando o porquê e como saiu do Brasil.

Adriano Trindade – Obrigado a vocês da Revista Brasileira pelo convite, é um prazer!

Sai do Brasil de uma forma muito pensada e planejada.

Eu sou gaúcho de Porto Alegre, e no final dos anos 90 eu via que o mercado para execução de músicas nas rádios e na tv estava sempre vinculada ao pagamento de um jaba, e que pra fazer uma música mais sofisticada seria muito difícil ter espaço como eu gostaria, eu ouvia na rádio músicas de outros ritmos e não entendia como aquilo tocava.
Mas de toda forma eu segui trabalhando e ganhei meu espaço no Rio Grande do Sul com muita forca, foi ai que em 2004 eu projetei sair do Brasil, e então juntei dinheiro por 1 ano, peguei o dinheiro da rescisão do exército, pois servi 6 anos, e fui ao uma feira de turismo, onde pude avaliar qual pais me ofereceria um visto mais duradouro, foi ai que em agosto de 2005 eu cheguei na Nova Zelândia, fiquei 1 ano fazendo contatos e enviando e-mail para agendar shows, cheguei com uma agenda, fui recepcionado pelos músicos Kiwis, e logo fui conhecendo muitos artistas e ganhando o pais.

 

Matheus Luzi – Você atualmente reside em Berlin, na Alemanha, porém, já passou por 54 países. De uma forma resumida, conte-nos o que você aprendeu musicalmente nessas “aventuras”? Digo também em questão de público e estilos musicais…

Adriano Trindade – Em questão de público foi fantástico. Aqui na Europa todos países que você vai primeiro há um respeito descomunal pela música brasileira, por Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Filo Machado, entre outros, então a filosofia do público é sempre chegar e ver o que o artista tem a oferecer, ver como é o espetáculo dele, e logo em seguida o artista tem o poder de decidir se o público dança ou não dança, se interage ou não. O Europeu é muito avançado culturalmente, e respeita o artista demais.
Sobre estilos, eu gravei os 2 primeiros discos com muito samba-rock e rodei parte da Europa com esse estilo, porem no terceiro disco mudei os músicos que me acompanhavam e me aprofundei no Jazz, e todas as suas vertentes, isso me deu uma pluralidade, pois também sempre que chego em algum pais procuro conhecer a cena local, ver o que move aquele lugar culturalmente.

 

“Em questão de público foi fantástico. Aqui na Europa todos países que você vai primeiro há um respeito descomunal pela música brasileira, por Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Filo Machado, entre outros…”

 

Matheus Luzi – Quais as diferenças que você encontra no público europeu em relação ao público brasileiro, principalmente sobre os estilos musicais que você toca?

Adriano Trindade – A música brasileira está muito bem acentuada em todos países da Europa, não é algo exótico, mas é algo que faz a pele do Europeu arrepiar e os olhos brilharem, para eles você fazer música de qualidade faz com que você tem o mesmo status do Paulinho da Viola ou do Marcos Valle, pois pra eles você faz parte disso, talvez até mais, pois viajar levando a música brasileira exige uma responsabilidade incrível, pois todos sabem do que se trata.

A principal diferença pra mim é o respeito, você pode ter um grande público sem ser famoso, o público vem pelo fato de você apresentar um espetáculo sofisticado.

 

Matheus Luzi – Entre tantos estilos musicais que você toca, está o Samba Rock que é um ritmo brasileiro. Acredito que você também toca outras coisas da música brasileira. Quando isso acontece, quais as reações do público alemão/europeu?

Adriano Trindade – O barato é mostrar pluralidade, mostrar e apresentar os ritmos que você tem na mão, mas na sua versão, o que faz por exemplo que um concerto de violão e voz seja altamente concorrido pra se assistir, pois o improviso entra como artista principal, isso tudo encanta as pessoas, o jeito de cantar, dividir a música, a mão direita no violão seja com samba, ritmos africanos a forma diferente de tocar o Jazz, tudo isso é swing. Levar o repertorio do disco e as músicas próprias é de uma importância extrema, todos cantores e cantoras formados em academias de jazz na Europa conhecem tudo de bossa nova e sambas, então isso faz com que eles apresentem esse repertorio, o mercado está aberto a trabalho próprio, a discos lançados e apresentados, nunca a copias demasiadas.

Não é errado dizer que a música brasileira é a mais amada no mundo.

 

 

“A música brasileira está muito bem acentuada em todos países da Europa, não é algo exótico, mas é algo que faz a pele do Europeu arrepiar e os olhos brilharem, para eles você fazer música de qualidade faz com que você tem o mesmo status do Paulinho da Viola ou do Marcos Valle, pois pra eles você faz parte disso, talvez até mais, pois viajar levando a música brasileira exige uma responsabilidade incrível, pois todos sabem do que se trata.”

 

 

Matheus Luzi – Adriano, você acredita que a Europa abre mais oportunidades para a música, em relação ao Brasil?

Adriano Trindade – Pausa profunda…

Olha, primeiro tenho que falar que nosso Brasil é incrível na produção de talentos, tem muita gente gravando, lançando e procurando espaço, o lado b, a cena underground é super quente no Brasil e esse pessoal não está nem sabendo e nem se importando que a música ruim toca na TV e nas FMs, tem muita gente incrível no Brasil.

Deveriam ter espaço na grande mídia? Sim, deveriam!

Na Europa é claro que os hits de verão aparecem, porem ninguém nem sabe quem canta, de onde vem, todos sabem que é música descartável, efêmera, e as vezes nem se classifica como musica.

A Europa sim abre mais oportunidades, se costuma dizer aqui que ou a música é boa ou não é, o resto não importa, se é boa ela acontece, já no Brasil existem mil julgamentos, pessoas querendo escolher o repertorio do artista, artista preso a fazer releituras na noite pois se não fizer o público estranha, e a falta de espaço nas rádios e tv, mesmo com o avanço tecnológico tem uma parte enorme populacional que escuta aquilo que oferecem a ela, mesmo a pessoa tendo toda autonomia em buscar algo novo.

 

Matheus Luzi – Agora deixo você livre para falar de suas referências na música e sobre os seus trabalhos autorais.

Adriano Trindade – Eu lancei 6 discos e 2 DVDs na carreira, o mais recente foi em janeiro desse ano e se chama “Free Brazilian Jazz”, CD e DVD, sempre autoral!

Meus parceiros de caneta são Antonio Villerroy, Max Viana, Tonho Crocco, Serjao Loroza, Gelson Oliveira entre outros.

Minhas influencias principais são Filo Machado, Djavan, Tom Jobim, Chico Buarque, Bedeu, Stevie Wonder, Pino Danielle e John Coltrane.

 

“Não é errado dizer que a música brasileira é a mais amada no mundo”

 

Matheus Luzi – Você tem alguma curiosidade ou história interessante que envolva o seu trabalho?

Adriano Trindade – Muitas, mas vamos contar uma!

Em 2018 estava tocando em Katowice na Polônia e já se sabia que não teríamos público, mas chegou um casal e eu toquei pra eles como se estivesse tocando pra 1.000 pessoas.

No final o rapaz chegou pra mim e disse:

– Meu dia foi horrível, só problemas no trabalho, nada dando certo, minha namorada já tinha comprados os ingressos e eu não queria vir, ela insistiu e eu vim contrariado, agora vejo que foi a melhor sensação que eu já senti, sua música trouxe de volta pra vida, eu estou muito feliz, pois você renovou a gente, eu estou muito feliz, o concerto me trouxe alegria pra mais 1 ano da minha vida, muito obrigado.

 

Matheus Luzi – Nessa pergunta, deixo você a vontade para falar o que quiser.

Adriano Trindade – Quero agradecer vocês pelo espaço, parabeniza-los por levar cultura as pessoas, fico muito feliz que no nosso pais tem muita gente cultural e que se movimenta com qualidade como vocês, que se preocupam em levar material de qualidade ao público e também se preocupam em dar espaços a artistas que não são conhecidos no Brasil como eu.

Obrigado!!!!!

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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