18 de outubro de 2026

[RESENHA] Manoel de Barros, o poeta que foi “descoberto” aos 72 anos

Manoel. Um nome sagrado, derivação de uma das identidades nominais de Jesus Cristo: Emanuel (que quer dizer: “Deus conosco”) – Mateus, 1: 23.

Manoel. De Barros. Um dos mais brilhantes, geniais e líricos poetas da língua portuguesa. Este, (o de Barros), certamente significa “a literatura sempre conosco”.

Filho do chão mato-grossense, Manoel de Barros nasceu em 1916, no Beco da Marinha, em Cuiabá (MT). Todavia, logo com dois meses de vida, mudou-se junto com sua família para Corumbá (MS).

Manoel de Barros (Imagem retirada da internet)

Foi aqui, nesse pedaço de vida que Manoel debruçou grande parte da genialidade de sua obra: a infância no Pantanal. A condição de criança, o vocabulário infantil e as percepções inocentes de um garoto em contato com a natureza representam pilares importantíssimos na obra do poeta.

Manoel de Barros mudou os rumos da literatura brasileira através da profundidade abismal de sua simplicidade. A vida no campo, o trabalho árduo e braçal da lida na fazenda representam o coração pulsante de sua poesia.

Seus personagens são os bocós, que nada mais são do que as crianças, os trabalhadores e idosos do Pantanal, para os quais, Manoel inventou até um dialeto próprio: “o Idioleto Manoelês” que permite “agarrar o vento pelo rabo, infantilizar formigas, construir abridores de amanhecer e manejar esticadores de horizontes”.

 

Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas. (Manoel de Barros em “Livro Sobre Nada”).

 

Manoel de Barros bagunçava a gramática de um modo genial. Seu brilhantismo era tamanho, que ao poeta não era suficiente os substantivos, adjetivos e verbos já existentes: ele criava novos, invertia o uso das palavras. Utilizava substantivo como adjetivo, verbo como substantivo e inventava seus famosos brinquedos com palavras.

A utilização do vocabulário coloquial-rural e de uma sintaxe que homenageia a oralidade e a oralitura, ampliaram as possibilidades expressivas e comunicativas léxicas através de neologismos.

E o mais curioso de tudo, é que Manoel de Barros passou praticamente cinquenta anos escrevendo no anonimato. O poeta só foi “descoberto” aos 72 anos de idade. Foi o que escreveu o jornalista Millôr Fernandes, na década de 80, quando produziu um artigo sobre o escritor: “Nasce um poeta aos 72 anos de idade”.

 

Tenho o privilégio de não saber quase tudo.
E isso explica o resto. (Manoel de Barros em “Menino do Mato”)

 

Foi só a partir daí que Manoel de Barros ganhou projeção nacional. Dentre as principais honrarias recebidas, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura (1995), o Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura (1998) e o Casa de Las Américas (2012).

Publicou uma rica extensão poética de valor lírico e cultural únicos. Imortalizou-se em obras como “O Livro das Ignorãnças” (1993), “Livro Sobre Nada” (1996), “Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo” (2001), “Poemas Rupestres” (2004), “Menino do Mato” (2010), e “Escritos em Verbal de Ave” (2013).

Manoel de Barros morreu em 2014, aos 97 anos, em Campo Grande, no seio do Pantanal que tanto o inspirou durante a vida. Foi homenageado em 2016 e 2017 respectivamente pelas escolas de samba Sossego e Império Serrano. Ambas as escolas contando sua vida, sagraram-se campeãs.

 

O ocaso me ampliou para formiga (…) o infinito do escuro me perena. (Manoel de Barros em “O Livro das Ignorãças”)

 

O poeta deixou uma lacuna impreenchível. Assim como Shakespeare, Fernando Pessoa e Machado de Assis, só nasce um Manoel de Barros a cada mil anos. No fim de sua vida, conforme suas próprias palavras, Manoel era poeta em “tempo integral”. Acordava, tomava o café da manhã e reclusava-se em seu escritório, onde criava.

Uma vez, perguntaram-lhe se aquilo que ele escrevia, era ficcional. Se a poesia do escritor era verdade ou mentira. Ele respondeu: “Noventa por cento do que eu escrevo, é invenção. Só dez por cento é mentira.”

 

Gostou? Quer ler mais um pouquinho sobre Manoel de Barros? Clique aqui e confira mais uma resenha sobre o poeta, dessa vez, de autoria de Caio Carvalho.

 

Rock Popular Brasileiro, Edson Souza?

Baião com rock foi uma investida polêmica de Raul Seixas, entre outras misturas. Apesar disso, o cantor e compositor baiano.

LEIA MAIS

Certamente, esse filme é um dos mais atrapalhados que eu já vi (Crítica de Matheus

Ontem fui dormir cedo, e não sei porque acabei perdendo totalmente o sono quando acordei as 2 horas da madrugada..

LEIA MAIS

Grata à Deus, Marcia Domingues lança a canção “Feeling Lord”

“Feeling Lord” é a nova canção autoral da cantora e compositora paulistana Marcia Domingues. Com letra em inglês, ela revela.

LEIA MAIS

CONTO: O Operário Dedicado e O Regozijo do Aposentado (Gil Silva Freires)

Seo Leocádio era o tipo de homem totalmente estável e mantivera o mesmo emprego durante toda a vida. Se haviam.

LEIA MAIS

Curta a Festa Junina ao som de “Arraiá da Aydê”

A festa junina originou-se antes mesmo da Idade Média, há séculos. No Brasil, foi trazida pelos portugueses ainda no Brasil.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Como era trabalhar na MTV? (com Perdido)

Nos anos 1990 e 2000, a MTV Brasil, emissora aberta de radiodifusão, não era nada comum para o padrão da.

LEIA MAIS

Paz, Festa e Legado: Cem anos de Dona Amélia

Era uma noite de dezembro em São Paulo, dessas que misturam o frescor do verão com o brilho das luzes.

LEIA MAIS

Danilo Martire exercita o uso saudável da IA Generativa ao gravar single com Kate, cantora

“Eu canto a beleza de ver minha filha dormindo na mais perfeita harmonia”, é esta a fala de Danilo Martire.

LEIA MAIS

Silvo Carlos: eu quero uma casa no campo, de um tamanho ideal…

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,Pergunto a.

LEIA MAIS

Lourdinete: o cárcere que estanca o tempo através de uma realidade outra

Mais digno de ser escolhido éo bom nome do que as muitasriquezas; e a graça é melhor do que a.

LEIA MAIS