28 de julho de 2026

Conheça o disco “VIDA QUE VAI VIDA QUE VEM”, de Ordep Lemos, pelo olhar de Fernanda Lucena

No 2 de fevereiro de 2023 (odoyá!) o multi-instrumentista, cantor e compositor Ordep Lemos lançou o segundo disco de sua carreira solo. “VIDA QUE VAI VIDA QUE VEM”, sem vírgula porque conforme Milton Nascimento “chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”. E essa narrativa musical representa a transição de um ser que precisa deixar ir uma relação para se abrir à vida que vem, quando se aceita que chegou a hora de soltar a vida que precisa ir e vai embora.

Uma pauta que atravessa todo ser humano em algum momento de sua história ou várias vezes na vida, refletida a partir de uma cosmovisão candomblecista que compreende as ligações físicas e espirituais que costuram os seres em um vínculo afetivo. É um banho de folhas para quem está padecendo ao sofrimento e precisa recomeçar sua trajetória, cuidando bem do tecido do viver e caminhando na direção de um novo tear de si.

Na primeira faixa, “Ijexá”, o artista se apresenta como baiano, candomblecista, filho de benzedeira e afirma que “a busca nunca termina porque a vida não para”. Aqui já fica estampada a identidade múltipla de Ordep Lemos, uma vez que ele assina a guitarra, o backing vocal, o baixo, a bateria o teclado e os sintetizadores. Acompanhado pelo percussionista Lucas Rezende.

Na sequência o disco apresenta a música “Seu orixá”, que principia com um som das batidas de um coração que “é do tamanho de um arranha céu, mas também pode caber na palma da sua mão”. Um romance entre pessoas do axé, em que os laços afetivos se entrelaçam com um vínculo espiritual e por isso “o meu coração ainda pulsa em seu orixá”. Nessa faixa o artista assina guitarra, voz e sintetizadores. Acompanhado por Juliana Passos, Patrícia Lemos e Isabela Lemos no backing vocal, Magno Vito no baixo, Dimitri Medeiros na bateria, Bruno Dreadfino no teclado, Tustão Cunha na percussão e com participação especial de Sidmar Vieira no Trompete. Uma composição de Ordep Lemos e Artur Ribeiro.

“Sossego traz” a certeza de que tudo passa e de que toda noite se renova pela manhã, quando se tem quem reze por ti, quando se permite andar e de uma andada chegar livre. Com teclado de Bruno Dreadfino e percussão de Tustão Cunha, o artista se distruibui entre guitarra, vocal, backing vocal, baixo e sintetizadores. Com participação mais que especial de Robertinho Barreto, da banda Baiana System, na guitarra baiana.

A quarta faixa é uma composição de Ordep com Isaac Negrenne, homônima ao título do disco e é sobre permitir que vá essa vida que vai e que venha essa vida que vem. Ouvir o coração, dar as mãos a quem está no mesmo lugar que você, perdoar, entender que nada é em vão e confiar que o Tempo ensina o ser humano a botar os pés no chão e navegar. “Sinta o vento soprar, puxe a vela, guie o barco pra qualquer lugar, no silêncio que traz a luz”. Um chamado à presença plena, à consciência do agora e dos processos. Acompanhando por Isaac Negrenne na guitarra e Serginho Rezende nos sintetizadores e programação, lá está o multiartista Odep Lemos na guitarra, baixo, vocal, backing vocal e sintetizadores.

“Café com leite” é sobre o respeito às diferenças, “eu gosto de café com leite e tu gosta de guaraná”. Uma metáfora sobre o combate à intolerância religiosa, “eu não sei quem inventou essa história de segregar, de ofender e de humilhar. Eu acho que a grande verdade é todo mundo se abraçar, se entender e se ajudar”. Com participação de Tustão Cunha na percussão, Ordep assume todas as outras funções na criação e produção dessa faixa.

“Pegue na mão, não pegue no pé” é uma linda forma de terminar um relacionamento afetivo que limita o ir e vir. “Não se esqueça, viver é bom demais mesmo quando não se sabe o que quer porque tudo na vida vem e vai, quem tem fé pode ter o que quiser.” Com Serginho Rezende nos sintetizadores/programação e Lucas Rezende no autotune, o artista assina todas as demais funções.

“Não desista da batalha” afirma que “com vontade, a fé não falha. Acredite todo dia na sua sabedoria e faça acontecer. Nunca deixa de sonhar, nunca pare de tentar, cante a sua melodia que a vida é harmonia feita pra você”. E acrescenta que “nada demais não ter religião se a voz que fala é a do coração”. Nela o artista brilhou na guitarra, vocal, backing vocal e sintetizadores. Acompanhado por Adson Gaspar no baixo, Dimitri Medeiros na bateria, Bruno Dreadfino no teclado e Tustão Cunha na percussão.

“Alento” foi criada em parceria com Artur Ribeiro e aborda o conceito de partir como ter estado, sido, vivido, mas não estar mais. “É ver além do que se vê, dos dias idos. Partir é viajar, partir é repartir o indivisível. Ser além do que se é, no paraíso.” Com Tustão Cunha na percussão, Ordep Lemos declara através da guitarra, da voz, do assobio e dos sintetizadores que “partir é ver além do já revisto. Partir é acordar!”

“Casca” é sobre a relação paradoxal entre os verbos amar e brigar. A dualidade entre o hoje e o amanhã, entre estar em cima e estar embaixo, entre chegar e ir embora, entre o isso e o assado, entre o oito e o oitenta. “Todo mundo quer um final feliz, mas eu não tenho pressa, um dia a gente se entende e vai. A gente sabe e reclama, é que não sabemos tão bem assim. Não sabemos como se chama o amor que não cobra e não tem fim. Mas sempre diz que se ama.” Com participação especial de Roy Carlini na guitarra, Dimitri Medeiros na bateria, Adson Gaspar do baixo, Ordep assina a guitarra, o vocal, o backing vocal, os sintetizadores e a percussão.

“Rápido e caceteiro” é a ultima faixa do disco e foi feita inteiramente pelo artista, em todas as funções. Um diálogo entre ele e um mensageiro espiritual, sobre sua estrada e o momento de partir de uma relação. “Sai desse banzo, esquece, faz desse pranto uma prece, jogue umas flores na beira do mar. Se tem cabimento tanto sofrimento, converse, pergunte ao seu orixá.” Ordep Lemos é encorajado a levantar seu ori, ir em frente porque a vida é bela, basta cuidar dela. E responde ao mundo que chegou a hora de ir embora, de cair pra dentro, parar de reclamar, de remoar e recomeçar.

Com produção musical de Serginho Rezende e Ordep Lemos, mixagem e masterização de Fabiano Lopes Peixoto, esse disco foi gravado mixado e masterizado no Estúdio Comando S Áudio. Sob produção executiva de Bonanzas Cultura e Arte, nas pessoas de Juka Tavares e Bruno Olivieri, a obra foi lançada também formato físico com capa e encarte pintado e ilustrado pelo Rezende Estúdio, nas pessoas de Dadá Jaques e Rezende no design gráfico e Ricardo Maizza/Dadá Jaques/Juliana Ragazzi nas fotografia.


Sobre a colunista: Fernanda Lucena é colunista da Revista  Arte Brasileira, Assessora de Comunicação do Grupo de Percussão da UFBA e Produtora Cultural da equipe Tabuleiro Produções. Bacharela Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (UFOB), pós graduada em Marketing Digital (UNOPAR), em Produção Cultural, Arte e Entretenimento (FACUMINAS), cursando MBA em Direção de Arte para Propaganda,  TV e Vídeo (FACUMINAS).

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