2 de setembro de 2026

Crítica: Rui de Oliveira pelos Jardins Bodoli – de Mauricio Duarte

 Crítica: Rui de Oliveira pelos Jardins Boboli – de Mauricio Duarte

 

O que acontece quando um mestre da arte de ilustrar livros para jovens e crianças decide escrever sobre o ofício de ilustrar? Estamos falando de Rui de Oliveira e seu livro Pelos Jardins Boboli, Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens.

3-3 Sete Visoes da Emilia - Rui de OliveiraRepleto de ilustrações a lápis do artista, o livro que sai pela editora Nova Fronteira, é primoroso desde o início.  Ao falar de alfabetização visual, Rui nos diz que infelizmente nossa educação é orientada para lermos palavras, quando deveria existir lugar para uma leitura das imagens, uma alfabetização visual.

Tão importante é essa questão, que um trabalho como o do ilustrador não pode e não deve prescindir dos elementos de composição visual, sem os quais seria impossível desenhar e pintar.  A leitura da ilustração pelo leitor jovem bem como pelos educadores, bibliotecários, animadores culturais e até mesmo, os editores passa por esse conhecimento da linguagem visual como um todo.       A arte de ilustrar estaria, mesmo, entre as palavras do texto ilustrado, no espaço indefinido, vazio, entre uma palavra e outra.  O mais importante numa ilustração para crianças e jovens seria o que não se diz no texto, mas que está nas entrelinhas, algo que o leitor sabe, mas não lhe foi dito diretamente pelo texto em questão.  Não se trata, no entanto, de apresentar uma solução pronta, seria antes, apresentar uma pergunta e criar janelas e portas dentro da imagem narrativa (aqui falamos de ilustração narrativa) para que o leitor viaje nelas e descubra suas próprias respostas.

A narração é ponto chave aqui, nesse contexto, já que, a arte abstrata, por exemplo, pode ser considerada, o inverso da ilustração narrativa.  O narrar é essencial na ilustração para crianças e jovens e esse conceito está diretamente ligado às influências que ela sofre, ou não, das outras linguagens visuais, como a pintura, o cinema e a animação gráfica.

2- Rui de Oliveira - Pena de Ganso - jpeg 1Para Rui, os aspectos constitutivos de uma ilustração, como a cor, o cenário e a perspectiva, são todos perfeitamente identificáveis e analisáveis não só do ponto de vista formal, como também com relação à narrativa literária. Todavia, “não estamos diante de um corpo para dissecar”.  Os processos pelos quais passa uma narrativa imagética como o ritmo e a composição não são inteiramente mensuráveis.  A soma das partes não nos dá o entendimento do todo da ilustração.  Isso acontece porque a ilustração está sempre relacionada direta ou indiretamente a um texto literário, que pode ter inúmeras interpretações.  “Diante da ilustração não podemos nos comportar como juízes, mas sim como intérpretes” diz o mestre.

Outro ponto importante é que o encantamento ou um curioso deslumbramento com a ilustração é de suma importância, haja vista o próprio título do livro, Pelos Jardins Boboli*, que sugere uma visitação aos jardins como comparação à visitação a um livro ilustrado.  Apesar de ocorrer uma aptidão para ver uma imagem, uma construção gradual do ver, não elimina-se por isso a experiência individual num deslumbrar-se.  A ilustração, para o mestre Rui de Oliveira, não é um kitsch da pintura e por isso possui uma linguagem própria.  Seria a ilustração, segundo ele, um gênero das artes visuais narrativas.

Dentre as inúmeras e grandes contribuições de Rui de Oliveira à ilustração, à animação gráfica e ao design, os Jardins Boboli desponta como coroamento de sua não menos prolífica carreira como professor de design e ilustração.  Tive o prazer de ser seu aluno em duas oportunidades na Escola de Belas Artes da UFRJ como aluno do curso de Desenho Industrial . Programação Visual e posso atestar o seu grande alavancar no ensino dessa área do conhecimento.  Ao Rui de Oliveira o meu aplauso de pé, com carinho, grande mestre.

(*)Os jardins Boboli situam-se na parte posterior do Palácio Pitti, em Florença e vários arquitetos esmeraram-se em sua construção dando-lhe beleza e encanto.

 

 

 

 

 

Newsletter

Gabriel Acaju: “ABAIXO O ESTADO CENTRAL DE SAGACIDADINHEIRO!”

Para compreender o segundo álbum de Gabriel Acaju é necessário um mergulho na história criada pelo artista, história essa que.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

Mário Quintana e sua complexa simplicidade em Caderno H

  CADERNO H: A COMPLEXA SIMPLICIDADE DE MARIO QUINTANA   Mario Quintana (1906-1994) foi um poeta gaúcho de constância poética.

LEIA MAIS

Os vários Olhos D’agua de Conceição Evaristo

Poderia ser mais uma daquelas resenhas que escrevo sobre um livro que eu acabara de ler, no entanto é algo.

LEIA MAIS

A Via Dolorosa de Iaperi Araújo

A Via Dolorosa de Iaperi Araujo Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce.

LEIA MAIS

“Repousa”, o R&B sensual de ÀRT e Vini Del Rio

Os cantores e compositores cariocas ÀRT e Vini Del Rio se unem no single “Repousa”, um sensual R&B. Amigos de.

LEIA MAIS

“Os americanos acreditam que ainda se ouve muita bossa no Brasil atual”, diz o músico

8 de outubro de 1962. Aproximadamente 2.800 pessoas na plateia do Carnegie Hall, a casa de shows mais importante de.

LEIA MAIS

MÚSICA CAIPIRA: Os caipiras de 1962 ameaçados pela cultura dos estrangeiros

Em 1962, Tião Carreiro e Carreirinho, dois estranhos se comparados ao mundo da música nacional e internacional, lançavam o LP.

LEIA MAIS

A bossa elegante e original do jovem Will Santt

No período escolar do ensino médio, nasceu o princípio do pseudônimo “Wll Santt”. As roupas retrô e o cabelo black.

LEIA MAIS

CONTO: Fixação Autêntica e Gêmeas Idênticas (Gil Silva Freires)

Antônio Pedro estava casado havia mais de um ano e ainda não tinha aprendido a distinguir sua esposa da irmã.

LEIA MAIS