13 de dezembro de 2025

Em entrevista, a artista plástica Claudia Tavares fala sobre sua carreira e sua arte “provocada” pela natureza

(Arte de Claudia Tavares da exposição “Um jardim em Floresta”)

 

Claudia Tavares é Doutora em Processos Artísticos Contemporâneos pelo Instituto de Artes UERJ, Mestra em Artes pela Goldsmiths College, Londres e em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes, UFRJ. 

O trabalho artístico se apoia principalmente na linguagem da fotografia e do vídeo, com pensamento instalativo em convívio com objetos, desenhos e cadernos de artista. Vem estabelecendo uma pesquisa artística que vai em direção a possíveis relações entre arte e natureza pensando a natureza como sujeito, como agente que reage ao trabalho de arte. 

Suas exposições individuais sãLight Boxes, 2001, 291 Gallery, Londres, “entre nuvem e vento”,  2007, Galeria do Ateliê, Rio de Janeiro, “Nós”, 2011, Espaço Sérgio Porto, Rio de Janeiro, “Branco Preto”, 2012, Galeria Tempo, Rio de Janeiro,“Vestida de infância, 2015, Galeria do Ateliê, Rio de Janeiro; “Até”, 2015, Galeria Graphos, Rio de Janeiro. Ganhou 3o prêmio na 9o Bienal Nacional de Santos 2004, Bolsa Nota 10 Faperj 2016 e Bolsa Capes 2017, o Edital de Ocupação FCS 2018 e a residência Labverde 2018. Expôs na Casa França Brasil, Galeria Portinari, Rio de Janeiro e Galeria Cozinha, Porto, Portugal. Participou esse ano da Bienal de Cerveira, Vila Nova de Cerveira, Portugal e Casa Museu Abel Salazar, Porto, Portugal.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com Claudia.

 

(Arte de Claudia Tavares)

 

Qual a fonte de inspiração para você?

Prefiro usar a palavra provocação ou invés de inspiração. Explico: em “Um Jardim em Floresta”, por exemplo, fui provocada pela umidade do meu ateliê da época. Todas as vezes que eu esvaziava o recipiente dos desumidificadores que eu usava no ateliê eu percebia que tinha alguma coisa que me provocava naquela água que se esvaia pela pia. Foi a partir dessa percepção de desperdício, de excesso, de uso indevido, que o trabalho começou a ser construído. Até chegar no trabalho final, como é hoje e vai ser exposto agora no Paço Imperial [em cartaz até o dia 17 de fevereiro], foram anos de convivência com essa umidade, de várias ideias e dúvidas. Já em “Vestida de Infância”, um outro trabalho anterior, eu ganhei de presente da minha mãe, um saco de roupas, vestidinhos brancos de algodão e rendas, que usei na minha infância. Esse presente me provocou a ressignificar aquelas roupas, que certamente não me cabiam mais, e que então passaram a ser matéria para o trabalho. Me fizeram pensar em memória, memória infantil, que assim como as vestimentas que usamos são temporárias e finitas, a infância nos escapa pelo passar do tempo. E a partir dessa vivência com essas roupas novamente, o trabalho foi se desenvolvendo. Do mesmo modo, a umidade e a água do ateliê passaram a ser matéria também. Eu, inclusive, chamo meu antigo ateliê de ateliê-mina, no sentido que ele me deu a matéria a ser trabalhada. Se eu não tivesse tido aquele espaço como ateliê o trabalho “Um jardim em Floresta” não teria existido. Novamente a vivência com a matéria disparou o trabalho. Então, voltando a sua pergunta, eu não me sinto inspirada e sim provocada por materiais e observações que provêm de vivências.

 

Você já apresentou várias exposições individuais. Com foram essas experiências?

Acredito que cada exposição seja uma experiência particular e única, porque cada uma envolve processos diferentes de criação e produção. Cada espaço expositivo tem suas características próprias, o que influencia diretamente na concepção de cada exposição. Mas acredito que é na exposição que o trabalho é finalizado porque é testado, é quando se pode ver como ele se comporta num determinado espaço. E certamente é o grande momento do artista visual, ou seja, quando ele espacializa seu trabalho, coloca ele no mundo pra ser compartilhado.

 

Para o público que pretende estudar arte, o que você diria em relação aos vários cursos acadêmicos que você já concluiu?

Eu e Monica Mansur, artista com quem tive uma editora chamada Binóculo, lançamos um livro “Ser Artista”, onde fazíamos essa pergunta a 23 artistas brasileiros. Acho muito importante pensar nisso. Eu diria que a universidade é um campo extremamente rico, pulsante e inspirador em vários aspectos. Não acho que seja essencial para a formação de um artista passar pela universidade, por ser um universo onde outras exigências entram em questão também, como a leitura e a escrita acadêmicas, que podem ser vistas talvez como opressivas. Mas no meu caso, principalmente no curso de doutorado que acabei esse ano [2018], senti uma força motora na UERJ que me ajudou muito a compor o trabalho. Escrevi na minha tese que a tese e o trabalho se teceram juntos, se atravessaram e se contaminaram. “Trabalho como sustento da tese. Tese como evaporação do trabalho”, escrevi. Fui em busca de professores/artistas que admiro na universidade e isso certamente foi fundamental para fortalecer minha experiência. Além de ter a surpresa de me ver embriagada pelo processo da escrita da tese, que no início foi bastante difícil, mas que, depois de achado o fio condutor, se tornou delicioso. É quando o pensamento toma forma, se organiza num texto, se materializa em palavras. Um outro fazer artístico.

 

Que arte você costuma fazer e expor?

Meu trabalho se relaciona com a fotografia primeiramente. Minha formação é fotográfica. Dou aula de fotografia! No entanto, ultimamente tenho percebido uma certa limitação nesse meio e comecei a me aproximar do vídeo também. Uso a fotografia como ferramenta para documentar ações particulares, em geral, mas percebo suas limitações. A bi-dimensionalidade, o tempo congelado em uma representação estática, a limitação imposta por sua determinada escala. Tenho ponderado os limites da edição, que sempre apresenta muitas possibilidades de inclusão e exclusão de imagens, nas muitas alternativas de sequências e de séries. Me deparei com essas faltas e encontrei no vídeo a possibilidade desse tempo alargado e sempre presente, a chance da inclusão do som e da palavra narrada, que esclarece ideias que as imagens fixas não dão conta por si só. Desde “Vestida de Infância” venho unindo fotografias, vídeos, áudios e objetos. Acredito na dimensão poética de um texto narrado ao lado de imagens e objetos. Em “Um Jardim em Floresta” uso o vídeo para apreciar o tempo que passa, ver a chuva que cai, ouvir o andar sobre os gravetos secos espalhados no chão do sertão. Tenho convidado as imagens em movimento a conviver com os instantâneos congelados.

 

Como você entrou para o mundo da arte?

Eu estudei fotografia e vídeo no Parque Page no início dos anos 90, mas depois minha vida se desviou disso e só fui retomar esse rumo nos anos 2000, quando fui morar em Londres e percebi que o meu maior interesse estava no campo da arte. Fiz um mestrado por lá e fui estagiar na Tate Gallery, que tinha acabado de abrir a Tate Modern. Então meu contato com a arte se fez mais forte e presente. Minha primeira exposição foi com a turma do mestrado londrino e a curadora do lugar me chamou par uma mini individual logo depois. O lugar se chamava 291 Gallery, que ficava no hoje badalado bairro de Hackney. Voltando ao Brasil poucos anos depois, conheci artistas e comecei a tecer essa rede de conhecimentos onde as coisas começam a acontecer. Organizei com Dani Soter, que hoje mora em Madrid, o Projeto Figura, que propunha exposições efêmeras em lugares não institucionais, como galpões, apartamentos, etc. Esse projeto me aproximou de muitos outros artistas também, e além de ser experimental, era provocador. E aí a vida foi se tecendo, pra chegar até hoje onde fico muito feliz de realizar uma individual num lugar tão especial como o Paço Imperial.

 

Você tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva seu trabalho artístico?

 Acho que não… nada que seja relevante e digno de uma entrevista. Rs.

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Quero te parabenizar pela Revista Arte Brasileira. Admiro projetos guerreiros como esse! Acho que mais do que nunca temos que ser fortes e resistir para que a arte brasileira se mantenha viva.

 

 

 

 

 

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