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Banda Roça Nova revela espiritualidade, sertão e psicodelia em álbum de estreia

Matheus Luzi

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(Crédito: Vitória Dantas )

Com dois singles lançados em 2020, a banda Roça Nova vem mostrando aos brasileiros suas verdadeiras intenções, sem muito rodeio e com muita poesia. Agora, eles entregam seu álbum de estreia. Intitulado “Tramoia”, o trabalho conta com dez faixas autorais e inéditas recheadas de muitas referências como o rock psicodélico, a música caipira e os ritmos afro-latinos, o que eles chamam de “caipigroove”.

Apesar de trabalharem muito bom uma mensagem de amor, coletividade e evolução espiritual, se engana quem pensa que os caras param por aí. Em “Tramoia”, eles trazem um viés político evidentemente intenso. Isso se dá no fato de semearem a resistência em frente às crises culturais, políticas e ambientais que perturbam a América Latina.

Para o vocalista e violonista da Roça Nova, Pedro Tasca, a palavra Tramoia sintetiza a essência do repertório. “A obra é o nosso artifício para traçar uma linha tênue entre a resistência coletiva e o resgate da regionalidade. Por isso, nos inspiramos em Chico Science & Nação Zumbi, Clube da Esquina, Metá Metá, Maurício Tizumba e Marku Ribas”.

Importante ressaltar que o disco teve todos seus processos, exceto as composições criadas anteriormente à formação da banda, tiveram como sede a roça, em Patrimônio da Penha, no Espírito Santo.

Eu, Matheus Luzi, bati um papo bem agradável e produtivo com o pessoal da banda. Confira a seguir!

Matheus Luzi – Primeiramente, quero parabenizar pela sofisticada poesia que se encontra nas músicas deste álbum. Acho interessante vocês nos contarem sobre o processo criativo dessas letras. Quem foram os autores?

Bernardo Leitão (percussionista) – Muito obrigado, é muito gratificante essa valorização do nosso trabalho…

Nos cinco somos compositores e quase todas as músicas desse álbum são mais antigas do que a própria formação da banda, assim, acredito que os processos de composição tenham sido bem diferentes, talvez por isso o disco seja tão diversificado.

Nesse disco temos composições de autores únicos como as do João Manga, que são: “Alma de Gato”, “Yemanah” e “1º Contato com o Rio”; e as do Pedro Tasca: “Canto de Rudá” e “Roça Nova”.

As outras faixas são composições coletivas: “Espírito Seco” é minha com o Rodrigo Flávio (Jaca), Marcellus e meu irmão Leonardo Leitao, galera da banda Lona Preta; “Rural” é minha e do meu irmão Léo; “Tupã” é do Marco Maia com o nosso amigo Kossin Dutra; e “Cambalacho” é do Pedro e do João.

Matheus Luzi – As dez faixas trazem sonoridades influenciadas pelo rock psicodélico, a música caipira e os ritmos afro-latinos. O que você tem a dizer sobre esta salada musical? O que vocês acreditam ter trazido de novidade?

Hector Eiterer (baixista) – As referências aos nossos mestres da música brasileira são nítidas. Mesmo que muitas vezes inicie de forma despretensiosa, depois que a faixa ganha corpo, entre os arranjos e melodias vocais, identificamos certa semelhança. De uma forma muito natural as influências de determinados movimentos culturais, ou vertentes musicais que estão enraizadas em nós.

A novidade se dá justamente por isso, a mistura em doses certas das diversas influências que cada integrante traz consigo, além de suas experiências e vivencias na música, tornando o diálogo atemporal e bem amplo, utilizando o que há de novo sem receio de aceitação.

Matheus Luzi – Em relação às mensagens das letras, por que esta escolha em falar sobre amor, coletividade e espiritualidade?

Pedro Tasca (vocalista) – Escrever é terapêutico pra gente, nós buscamos estimular nosso próprio fortalecimento psíquico, cultural e espiritual, e percebemos que isso acaba refletindo nos nossos amigos e ouvintes de uma forma positiva, com muita fé na própria existência e tomando o amor como base para as decisões.

Nunca teve nada acordado entre nós quanto a isso, mas nós buscamos inspiração em coisas semelhantes: na observação do cotidiano e da natureza, na interpretação dos sentimentos e na nossa amizade…

A nossa vivência também tem suas semelhanças, além de tantas referências artísticas em comum, então isso tudo acaba sendo um processo natural.

Matheus Luzi – Indo além, a gente encontra no álbum questões de cunho político. Seria o atual momento a inspiração para tal resistência? Deixo vocês à vontade para discorrerem sobre este assunto.

Pedro Tasca (vocalista) – O Brasil é um país desigual, que sofre as mazelas do imperialismo econômico, que parasita as nações da América Latina, e nesses momentos de crise, nós sofremos mais. Fomos um dos países onde a pandemia pelo COVID-19 acometeu mais vítimas no ano de 2020, um processo muito triste e grave que derivou, principalmente, da negligência do nosso presidente, seus ministros e também os apoiadores.

Acredito sim que o atual momento influência diretamente nossas criações, como artistas que vivenciam o presente como uma experiência continua.

Nossa música é política desde o momento em que buscamos assumir essa identidade rural e marginal, deixando pra trás a velha condição de um interior limitado, e usando os estilhaços da revolução digital à nosso favor.

Produzir nosso som de forma independente, nos conectando com nosso público e com os demais interiores, além de tantos artistas das mais diversas áreas, para nós, que fomos criados em uma região onde a cultura é completamente negligenciada, é um ato político. Acreditamos na possibilidade de sermos ouvidos pela metrópole e estabelecermos esse diálogo, que antigamente era unidirecional, o centro falava e o interior captava. Hoje, também vamos falar.

(Capa do álbum – Arte produzida por Artemutreta)

Matheus Luzi – Peço para que cada um de vocês do grupo escolha uma música e fale sobre ela (questão musical e poética).

João Manga (baterista) – sobre a faixa #4 “Alma de Gato” – A música começou com um arranjo bem simples. A música que vamos ouvir no disco “Tramoia”, foi ganhando forma de uma maneira muito pura e logo de cara foi bem impactante! Lembro quando o Marco me mandou um áudio com uma ideia para a introdução da música e, de cara, eu falei: “é isso!” O riff me encostou logo no começo e foi ficando cada vez mais forte. Em seguida a música vem com um violão que o Pedro tinha feito pra uma música dele na época que tínhamos um projeto, “novos humanos” e foi um presente muito singelo e veio quase que sem querer porque ele tocou em cima e encaixou muito bem, realmente valorizou muito a música, além do pandeiro que já vem sendo seu amigo e companheiro há um bom tempo. O mano Hector, com todo swing e malemolência, chegou mantendo o groove com muita pressão e uma riqueza de detalhes que me emociona sempre que paro pra ouvir as linhas de baixo. Bernardo Leitão, que dispensa comentários, com toda sua maestria conduziu zabumba, triangulo e outros instrumentos de percussão que preenchem o tempo espaço enquanto o baião come solto.

A poesia vem no intuído da gratidão, de simplesmente existir, da capacidade de conseguir enxergar o lado bom das coisas, mesmo as vezes em meio ao caos e conseguir dar a volta por cima. O poder de resiliência que nós temos porte é muito maior que as mazelas desse mundo. Fecho os olho e agradeço!

Marco Maia (guitarrista) – sobre a faixa #7 “Tupã” – É o som que guarda em si a tentativa de compreender o mundo que nos cerca. Flores, plumas adornadas em leque, divindades, forças da natureza e o ser humano, se misturam com acordes cristalinos, em um canto celestial, entoado sob ritmos tribais.

Da divina coroa irradiada, “Tupã” busca dar significado ao significante e, dessa forma, se aproximar das forças da natureza que se apresentam a nós. A procura infinda de se fazer caber dentro da nossa restrita compreensão, todos os temores e alegrias que tangem a experiência humana.

Bernardo Leitão (percussionista) – sobre a faixa #5, “Rural” – “Eu vou pená pra que, se a vida é uma só?”, essa é a premissa que sustenta uma verdadeira festa rural, a composição mais antiga desse disco. A música que celebra os prazeres da simplicidade e o orgulho de ser jeca, cita diversos municípios e distritos da região de Manhuaçu (MG), onde nascemos eu o João e o Pedro, estabelecendo uma forte relação de identificação com a população local, e se tornando, há mais de 10 anos, um hino regional.

O timbre árido da craviola conversa com uma guitarra rítmica mergulhada no wah wah e overdrive, e com um baixo fluido e sincopado. A bateria marcante comanda o ritmo forte e dançante, e a rugosidade subversiva dos drives vocais completa essa fusão entre o rock rural e o funk da década de 60. A versão conta ainda com um poema inédito de autoria do meu irmão Léo, que é compositor dessa faixa junto comigo.

Hector Eiterer (baixista) – sobre a faixa #3, “Espírito Seco” – Ela foi apresentada a nós pelo percussionista e compositor Bernardo Leitão, a canção já se propagava em seu antigo projeto, chamado Lona Preta. Começamos a trocá-la por conta da identificação, dos arranjos em mantra acompanhados por muitos elementos percussivos, numa forte referência ao afro-beat e uma ponte psicodélica somada a lírica altamente marcante. A euforia do público como resposta nas apresentações ao vivo incentivou a Roça Nova mergulhar a fundo nessa obra lúcida, ácida e distópica.

Com o aval de liberdade de interpretação, “Espírito Seco” ganhou corpo também nos arranjos vocais, representando a coletividade, reforçando também vez a lírica que injeta uma forte reflexão sobre as dualidades: ordem e caos, tristeza e alegria. Ter como princípio a evolução interna, assumir de fato o próprio descontentamento e assim, transmitir por inteiro essas reflexões a nível social.

Pedro Tasca (vocalista) – sobre a faixa #1, “Cambalacho” – Dez notas emblemáticas introduzem o abre-alas da Roça Nova, a música “Cambalacho”, que como a ponta de uma flecha, abre caminhos. A composição, que eu divido com meu grande amigo João Manga, surgiu num momento crucial da nossa vida artística e espiritual, se tornando referência para muitas que vieram a seguir. A temática aborda a fé na própria existência como combustível para a evolução, encontrando no obstáculo, a superação.

O pandeiro rege a percussão variando entre os ritmos baião, o coco e maracatu, acompanhado da forte marcação do tambor mineiro. O chicote estala na caixa da bateria, enquanto a guitarra tece mantras no timbre gordo e crocante de uma les paul com drive sem moderação. O baixo é responsável por uma intensa profundidade rítmica enquanto as nossas vozes, minha e do João, de timbres únicos e completamente diferentes, se tornam uma só.

Matheus Luzi – Quais bandas/artistas são as influências para este álbum e para a Roça Nova como um todo?

Hector Eiterer (baixista) – Cada um trás sua bagagem, mas num geral temos como referência o tambor mineiro universal de artistas como Maurício Tizumba e Marku Ribas; o jazz mineiro do Clube da Esquina; o manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi; além de projetos mais recentes como Metá Metá e BaianaSystem.

Matheus Luzi – Vocês têm alguma história ou curiosidade interessante que queiram nos contar?

Lucas Machado (produtor audiovisual) – O disco foi inteiramente produzido, de forma independente, no período de quarentena. A pré-produção foi realizada em isolamento total na zona rural, seguindo as medidas de prevenção da OMS, na casa do João (Hostel Kajoama), a cerca de 2km da vila de Patrimônio da Penha/ES, onde os cinco fecharam os arranjos e simularam as gravações de todas as faixas em 15 dias, literalmente na roça.

Todo esse processo, além das gravações oficiais e edições, foi documentado por mim, e será lançado como uma mini série documental no canal da Roça no YouTube! O primeiro episódio será lançado junto com o disco, dia 22/01!

Matheus Luzi – Fiquem à vontade para falarem o que quiserem.

Hector Eiterer (baixista) – Primeiramente gostaríamos de agradecer à vocês da Revista Arte Brasileira, ao Matheus Luzi e aos leitores pela oportunidade de aproximarmos o nosso som do vocês!

Todo o lançamento do “Tramoia” vem sendo planejado pela nossa equipe há muito tempo, com muito carinho e dedicação, e até disco de vinil já tá rolando na pré-venda!

Nós organizamos um financiamento coletivo bem bacana e funciona como uma pré-venda da nossa loja on-line, porque, de acordo com o valor que você puder contribuir, você recebe recompensas como exclusivas como: nosso disco de vinil (LP), camisetas, pôsteres, adesivos, imãs de geladeira e até shows da banda!

Quem quiser contribuir, se inteirar melhor ou até compartilhar, é esse o link do financiamento: https://rocanova.art.br

Qualquer ajuda é bem vinda e doadores a partir de 16 reais já recebem prêmios!

Roça Nova é ser muito com pouco!

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