16 de janeiro de 2026

BINGO: O REI DAS MANHÃS – Tudo o que você precisa saber!

Lançado em 2017, é o primeiro longa do diretor Daniel Rezende (montador de “Cidade de Deus” (2002), “Tropa de Elite 1 e 2” (2007) e “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008)

 

O filme é inspirado na história de Arlindo Barreto (interpretado por Augusto Mendes), o intérprete mais famoso do palhaço Bozo nos anos 80. Com um roteiro assinado por Luiz Bolognesi, autor do script de “Elis, Como Nossos Pais” e “Bicho de Sete Cabeças”, o longa com quase duas horas de duração, apresenta situações e questões atípicas – criadas propositalmente pelo diretor – que exemplificam a relação, mas duas chamam mais atenção durante o filme:

1) artista x reconhecimento/obra: o drama vivido por um artista em busca de reconhecimento de seu talento, e que quando finalmente o tem, cai no anonimato pois é reconhecido como Bingo e não como Augusto Mendes, o homem que está por trás da maquiagem e o nariz de palhaço.

2) relação pai x filho:  Augusto Mendes vive o sonho de estar no palco, ser reconhecido e famoso, mas no ápice, abandona a relação pai e filho e se torna um pai que convive e brinca com crianças todos os dias, mas abandona a criança que tem em casa, abrindo mão de sua relação familiar pela carreira artística.

Por trás do grande sorriso pintado de vermelho, dos olhos arregalados e alegres, e daquele tom de voz contagiante, com seus trejeitos espalhafatosos, havia um ator angustiado e fragmentado entre o amor pelo palco e pela família, a qual se distanciava à medida que fazia sucesso, e entre a fama do personagem e o próprio anonimato.

 

A escolha de Vlademir Brichta

para o papel foi sensacional. É possível ver o Bozo de Arlindo Barreto por trás da tela do cinema, e também ver o Bingo de Augusto Mendes. Em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, Vladimir Brichta conto que “esse filme é inspirado na história de Arlindo Barreto, mas não é uma cinebiografia. Eu não tinha a obrigação de mimetizar o indivíduo, como no caso dos atores que interpretaram Cazuza, Tim Maia, por exemplo, personalidades que todos conheceram (…) Mas é óbvio que em algum momento eu precisava ter contato com ele, mesmo que não pessoalmente”.

 

“Palhaço não obedece. Se mandarem você abaixar, você levanta. Se mandarem você se curvar, chuta a bunda dele. E não importa quantos tapas o palhaço vai levar. Ele sempre levanta e tenta de novo”, frase do personagem vivido por Domingos Montagner.

 

UM DOS ÚLTIMOS SUSPIROS DE UM PALHAÇO

A participação de Domingos Montagner, que faleceu em 2016, vítima de afogamento no Rio São Francisco, é repleta de simbolismo e emociona. “Palhaço não obedece. Se mandarem você abaixar, você levanta. Se mandarem você se curvar, chuta a bunda dele. E não importa quantos tapas o palhaço vai levar. Ele sempre levanta e tenta de novo”, uma das frases mais impactantes do filme e repleta de verdades. “O Domingos participou desde a construção do roteiro do filme. Ele deu uma consultoria ao roteirista do Luiz Bolognesi ao Daniel Rezende. Ele falou sobre a origem e significado do palhaço, o que funciona e que não funciona [nessa figura] e o porquê da transgressão. O texto que ele fala em cena é uma verdadeira assessoria. Inclusive, depois quando a gente começou a ler [o roteiro], eu levantei algumas questões e ele ajudou a resolver”, contou Brichta a Pedro Bial.

 

BOZO

(Cena do filme)

Foi criado como personagem de histórias infantis e discos para crianças nos Estados Unidos em 1946. Três anos depois, começou a protagonizar um programa de televisão. Em 1956, o ator Larry Harmon, que vivia o palhaço da TV, comprou os direitos da marca e passou a licenciá-la nos EUA e no exterior. Bozo chegou ao Brasil em 1980, comprado por Silvio Santos para exibição na TVS, no Rio. O primeiro ator a viver o palhaço foi Wanderley Tribeck, mais conhecido como Wandeko Pipoka – ele teria sido aprovado pelo próprio Larry Harmon, mas em 1982 se desentendeu com Silvio Santos e saiu do programa. Houve uma nova seleção e a história de Arlindo Barreto começa. Arlindo foi o Bozo de 1982 a 1987.

Bozo virou Bingo para evitar problemas com os proprietários dos direitos autorais da marca. O SBT é a TVP e a Globo é a Mundial. O filme é uma adaptação, há fatos que realmente acontecerão, outras, saíram das mentes por trás das câmeras. Como distinguir o real do fictício? Essa é a magia do cinema!

 

BOM SABER

O filme é repleto de referências aos anos 80, um prato cheio para quem viveu essa época e sente falta, e também para quem não viveu. Além disso, retrata a competição das emissoras de televisão da época, o tom apelativo que elas adotavam. Era o famoso “tudo pela audiência”. A trilha sonora, composta por Beto Villares, está impecável, com mais alusões à época e deixam o filme em um clima muito bom. As frases de efeito do filme são marcantes.

 

“Bingo – O Rei das Manhãs” dialoga entre a comédia e o drama de uma forma tão sublime e ao mesmo tempo tão impactante e envolvente”, Loislenne Longui.

 

É um filme independente, quem viveu os anos 80, quem conhece o Bozo, quem o assistia durantes as manhãs, vai entender e se emocionar, e quem não viveu nada disso, também vai entender e se emocionar com a história e toda a magia da produção de um filme que está por trás das câmeras.

O filme não é tendencioso e nem moralista. Não condena as atitudes do personagem, mas deixa que o telespectador tenha sua própria interpretação de conduta. Ele mostra a vida de um ator que conseguiu sucesso e se deixa levar pelos prazeres. Cabe a você, telespectador a interpretação do bom ou ruim, certo ou errado.

 

ANÁLISE TÉCNICA

“Bingo – O Rei das Manhãs” dialoga entre a comédia e o drama de uma forma tão sublime e ao mesmo tempo tão impactante e envolvente. E grande parte disso, me arrisco a dizer que pelo menos 80%, se deve a ótima utilização das câmeras, da luz, do som, da obra completa. A câmera conta a história. O jogo de enquadramento e fotografia usado pelo diretor possibilitou cenas impactantes, além da iluminação que fizeram toda a diferença nas cenas, com cores mais vivas e alegres nos momentos do ápice do personagem, e cores e sombras, jogos de luzes, nos momentos de decadência. Representação imagética, é o que temos em “Bingo – O Rei das Manhãs”. Não é filme água com açúcar, que precisa arrastar o telespectador, seu roteiro é envolvente.

 

  • Reportagem de Loislenne Longui, produzida no último mês de 2018.

 

 

 

 

 

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