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“É o nosso primeiro grito”, diz guitarrista da banda Congadar sobre álbum de estreia

Matheus Luzi

Publicado

em

Congadar

(Retrato da banda – Foto: Davi Mello)

 

Retirante é o primeiro álbum da banda setelagoana que mistura congado, rock e blues. Conta com as participações especiais de Lívia Itaborahy e do Coral Negras Vozes do Rosário, de Sete Lagoas/MG.

O repertório do disco traz releituras de marchas de congado atribuídas ao Quilombo de Palmares e à Guarda de Moçambique, além de composições próprias e versões de compositores mineiros como Maurício Tizumba, Flávio Henrique e Chico Amaral.

 

 

O grupo é recente, mas já coleciona apreciadores de peso como o produtor carioca Kassin que rendeu publicamente elogios à banda após as apresentações nos Festivais da Canção de Ouro Preto e Itabirito (MG) nos quais foi jurado. 
 
Retirante é o o quinto lançamento do selo mineiro Under Discos (Grupo UN Music), inaugurado em 2018, que tem em seu catálogo: “Estação Cidade Baixa”, do cantor e compositor Nobat; “Coração Disparado”, do intérprete Felipe de Oliveira; “Dia Verde Escuro”, do compositor Leo Moraes; e “Pássaro-cão”, de Bernardo Bauer.
 
Para este ano de 2019 o selo anuncia mais um lançamento: o primeiro álbum homônimo da banda montesclarense A Outra Banda da Lua (Montes Claros/MG), liderada por Marina Sena, vocalista e compositora que integra também o grupo Rosa Neon.
 
 

 

Como vocês trabalharam essa mistura rítmica entre o Congado, o Rock e o Blues? Seria uma essência natural e espontânea de vocês?

Giuliano Fernandes (guitarrista e produtor) – Na realidade, no início do projeto fazíamos essa fusão com o blues, até porque havia mais um integrante da banda que acrescentava o timbre da gaita ao nosso som. Após a saída resolvemos trilhar outros caminhos harmônicos, como por exemplo o Clube da Esquina. Nesse CD partimos para a fusão do rock com o Congado, aqui, chamamos de rock as distorções e timbres psicodélicos que são acrescentados pelas guitarras e o peso da bateria e do baixo.

A fusão aconteceu depois de um bom tempo de laboratório nos ensaios e no palcos que tocamos. No início, percebíamos que havia uma grande possibilidade de fusão, mas ainda ficava muito nítido que existiam duas coisas acontecendo, demoramos um tempo até encontrar o ponto em que as caixas de congado e rock formassem um amalgama sonoro, por isso podemos dizer que no início isso era bem espontâneo, mas queríamos fazer algo realmente novo. Por isso partimos para grandes experimentações até chegarmos a esse resultado que está no álbum.

Marcão Avellar (baixista) – Se formos olhar na sua essência, tanto o Congado quanto o Rock têm a mesma origem, só tomaram caminhos diferentes. Os ritmos vieram com os escravos, da África. No Norte ficou mais conhecido pelos Spirituals, base de formação do jazz, do blues e do rock. Por aqui, foram diversas manifestações e, dentre elas, o Congado. Então, a base tem uma “linhagem” familiar muito parecida. Inclusive dos temas das letras, que falam de saudade da terra mãe, da resistência, da cultura negra.

 

Podemos considerar “Retirante” um álbum conceitual?

Giuliano Fernandes (Guitarrista e produtor) – Não entendemos que “Retirante” seja um álbum conceitual, mas acreditamos que seja um projeto que visa a afirmação de uma cultura ainda bastante marginalizada; podemos dizer que o Congadar é mais que uma banda, é um projeto social de inclusão. “Retirante” seria nosso primeiro grito.

 

O repertório de “Retirante” é curioso. Gostaria que vocês falassem dessa seleção da lista de músicas do álbum.

Giuliano Fernandes (guitarrista e produtor) – O repertório foi formado a partir de músicas que já tocávamos em shows, primeiro partimos de músicas do congado que estão em domínio público, depois acrescentamos músicas de compositores mineiros e depois de algumas composições próprias. Tentamos estabelecer uma certa relação com a história do congado e do negro. Assim, metade do CD são de canções tradicionais que harmonizamos de um modo diferente da harmonia tradicional do congado para exatamente conseguirmos dar a liga necessária para que a fusão acontecesse.

Marcão Avellar (baixista) – Parte do repertório do disco é resultado de uma pesquisa dentro da cultura popular, principalmente do Congado. Algumas músicas a gente escuta nas tradicionais festas de Congo de Minas Gerais, cantadas pelas guardas de Congado e Moçambique. Elas foram as primeiras a surgir em nosso repertório, como uma forma de homenagear e reverenciar essa cultura que é tão forte em nosso estado, mas que às vezes fica esquecida. Esperamos poder contribuir para esse fortalecimento e divulgação de uma cultura tão rica.

 

 

Como vocês encaram este álbum de estreia? O que os corações de vocês gritam quando escutam as faixas e apreciam as letras?

Carlos Saúva (voz e caixa) – A gente tem um orgulho imenso em mostrar esse trabalho, pois ele traz um pouco da nossa cultura, da nossa ancestralidade em cada faixa. Um dia, nosso Mestre Maurício Tizumba falou uma coisa: “O maracatu já é difundido no mundo inteiro. Agora é a vez de mostrarmos as caixas de congado”. E isso ficou comigo. É a nossa forma de mostrar as nossas raízes culturais, as nossas histórias. E perceber que elas são tão bem aceitas por onde passamos, nos enche de orgulho e vontade de fazer ainda mais.

Marcão Avellar (baixista) – É tão bonito escutarmos o disco e entender que estamos colocando a nossa cultura ali naquelas músicas. Com as novas plataformas de distribuição, muitas vezes não temos a dimensão do alcance de onde isso pode chegar. E se essa música, essa cultura, chegar a lugares cada vez mais distantes, sinto que estamos contribuindo para o reconhecimento dessa cultura, que muitas vezes é passada de forma oral pelos Mestres da cultura popular. E isso é emocionante.

 

Quais são as temáticas que vocês abordam nas canções do álbum e qual a mensagem que querem passar com elas?

Giuliano Fernandes (guitarrista e produtor) – A principal temática é a luta do negro por reconhecimento, é a luta por igualdade… Queremos passar a mensagem da necessidade de mudarmos o nosso comportamento diante da diversidade cultural. O Brasil e o mundo, em tempos atuais, passam por um momento bastante delicado de intolerância cultural, religiosa, racial e sexual, entendemos que o nosso trabalho é mais um grito de alerta para o que sempre aconteceu e ainda continua a acontecer. Nós imaginávamos chegar ao séc. 21 sem termos a necessidade, ainda, de ficarmos discutindo inclusão, igualdade, respeito, dignidade e amor… pois é, estávamos muito enganados. 

 

Quais foram as fontes de inspiração para a idealização, criação, produção e gravação de “Retirante”?

Giuliano Fernandes (guitarrista e produtor) – O Congado é a nossa principal inspiração, temos uma relação de muito respeito com essa cultura; o rock psicodélico dos anos 60, tanto nacional como internacional; o Hard Rock dos anos 70; coisas como Led Zeppelin, Grand Funk, a música brasileira como o Clube de Esquina, Jorge Ben, Marku Ribas, Tropicália, Nação Zumbi etc;

Marcão Avellar (baixista) – Tem muito da nossa cultura no som do Congadar. As batidas de congo, assim como as divisões das vozes. Durante esse tempo que o som foi sendo construído, a gente foi sendo envolvido pelas histórias, pelas sonoridades da cultura popular. É uma cultura riquíssima, que ainda tem uma presença muito forte na nossa cidade.

Claro que já viemos com uma coleção de influências, que surgem na hora de se fazer uma música. E estamos em meio à uma produção muito intensa de artistas brasileiros que valorizam a própria raiz. Podemos citar Nação Zumbi, mas tem ainda grupos como Os Tincoãs, que incorporaram lá na década de 70 a cultura negra e fizeram uma música diferente.

 

Confira o clipe “Batuque”

 

Vocês têm alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar referente ao álbum?

Marcão Avellar (baixista)“Batuque”, que foi lançada como clipe e setembro, é uma música atribuída ao Quilombo dos Palmares. Historiadores indicam que a música data de fins do século XVII, entre 1680 a 1690, e dizem ser a mais antiga canção conhecida no Brasil. Encontramos uma gravação dela de 1929, feita pela folclorista Stefana Macedo e, talvez, tenha sido o primeiro registro oficial dela.

Essa música é fruto de pesquisas realizadas pela banda. Com toda essa história e, principalmente, pela letra, ela entrou imediatamente no repertório do Congadar. Por causa da sua força, ela ganhou um clipe, filmado na Mina Du Veloso em Ouro Preto.

 

Sintam-se à vontade para falarem algo que eu não perguntei e que vocês gostariam de ter dito.

Carlos Saúva (voz e caixa) – Por estarmos trabalhando com uma manifestação da cultura afro-mineira, adotamos um cuidado e critério muito grande para escolher e utilizar as músicas no nosso repertório. Temos o maior respeito pela cultura popular e sabemos que há parcela dessas manifestações que são sagradas, são religiosas e, por isso, não utilizamos.

Para isso, sempre recorremos aos nossos Mestres, perguntamos e nos aconselhamos com eles. Tudo que gravamos e utilizamos têm autorização dos Mestres e Capitães das guardas de congado. É importante, inclusive, ressaltar que eles não só aprovam, mas como também incentivam a nossa banda. Eles querem que a cultura deles seja reconhecida, valorizada. Então, nosso disco tem a benção dos nossos Mestres. E isso é muito importante para a gente.

 


 

Entrevista e edição de Matheus Luzi

 

 

 

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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