20 de outubro de 2026

CONTO: A Falta de Sorte no Pacto de Morte (Gil Silva Freires)

Romeu amava Julieta.

Não se trata da obra imortal de Willian Shakespeare, mas de uma história de amor suburbana, acontecida lá pros lados do Grajaú.

Esse Romeu era auxiliar de escritório, da família Bezerra Campos. A Julieta era estudante, da família Oliveira Barros.

Romeu e Julieta se conheceram lá mesmo no Grajaú, durante um showzinho de pagode e foi amor à primeira vista. Não se sabe se o destino foi auxiliado por alguma emanação shakespereana, mas o fato é que se apaixonaram perdidamente, sem saber que seus pais eram inimigos de morte, rixa devida a uma pendenga surgida anos antes na briga pela freguesia do Largo Treze de maio, onde tinham suas lanchonetes especializadas em prato feito. Tanto o Bezerra quanto o Oliveira tinham como hobby avacalhar o negócio do outro diante dos fregueses sequiosos de arroz com bife. Era isso o que tornava o amor de Romeu Bezerra e Julieta Oliveira impassível de aceitação, tanto quanto o amor entre uma Capulleto e um Montéquio.

Mas o amor foi ficando intenso, com encontros furtivos dos dois, passeios de mãos dadas pelo Shopping Interlagos, amassos nas vielas do Grajaú. As famílias acabaram descobrindo e fizeram definitivas proibições. Os pais não aceitaram e não aceitariam nunca. Começou a vigilância e as cobranças pra que Romeu e Julieta não se encontrassem.

O tempo foi passando, com encontros ainda mais furtivos e amor redobrado. Romeu e Julieta não podiam mais ficar um sem o outro. Precisavam dar um jeito de ficar juntos pra sempre, de qualquer maneira, longe das objeções paternas. Mesmo que precisassem morrer. E surgiu a idéia do pacto de morte, tal como no famoso drama do escritor inglês. Ambos tomariam veneno e morreriam em nome da liberdade pra aquele amor proibido.

Foi marcado o dia fatídico, de comum acordo, decisão plenamente tomada. Os apaixonados passaram os últimos dias ansiando pelo momento em que estariam livres de todas as proibições. Romeu comprou o veneno e providenciou o lugar, um bonito campo em Itapecerica da Serra, verdejante e longe dos olhares curiosos. Escreveram cartas de despedida e foram pro suicídio amoroso.

Chegaram juntos ao local, vastos gramados entre eucaliptais. Reafirmaram o pacto e fizeram amor pela primeira vez, cada vez mais próximos da liberdade. Trêmulo de ansiedade, Romeu mostrou os dois pequenos vidros de arsênico e perguntou:

– Está pronta?

– Até o fim, Romeu.

– Eu te amo, Julieta.

Beijaram-se longamente, o último beijo antes de colocaram o plano em prática.

– Morreremos como os apaixonados de Verona – profetizou Romeu.

– Iremos pra um lugar onde o amor não é proibido – suspirou Julieta.

Quando já tinham destampado os vidros de veneno, o pai de Julieta chegou ao local. Ao ver sua única filha nua e pra sempre desonrada pelo primogênito de seu maior inimigo, não conseguiu se controlar. Antes que os dois pudessem sorver o veneno, sacou o Taurus calibre trinta e oito e, com indignação extremada, fuzilou a filha Julieta e o apaixonado Romeu.

Escrito por Gil Silva Freires no dia 24 de abril de 1997

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