30 de setembro de 2026

O médico que receitava mais que remédios (Por Fredi Jon)

Por Fredi Jon, do Grupo Serenata&Cia) – Existem encontros que a vida prepara sem avisar. Alguns chegam discretamente, mas deixam marcas que o tempo não consegue apagar.
Foi assim numa noite em que eu e meu flautista fomos homenagear Dona Rosalva e Seu Armando por suas bodas de casamento. A casa estava cheia de filhos, netos, amigos e histórias. Era uma daquelas celebrações que nos lembram que o amor verdadeiro não é feito de grandes gestos, mas de milhares de pequenos gestos repetidos ao longo dos anos.
A serenata seguia seu curso quando meu olhar encontrou alguém que eu não esperava ver.
Lá estava o Dr. Pedro Guedes.
Naquele instante, voltei muitos anos no tempo. Antes de ser seresteiro, eu era apenas um músico da noite, carregando violão de um lado para outro e tentando sobreviver. Havia dias em que o dinheiro mal aparecia. Entre os músicos, brincávamos dizendo que o almoço era um “X-Músico”: pão com mortadela e muita esperança.
Foi nessa época que conheci o Dr. Pedro.
Ele cuidou de mim, da minha irmã e da minha família inteira. Se tínhamos dinheiro, acertávamos a consulta. Se não tínhamos, ele atendia do mesmo jeito. Sem julgamentos, sem cobranças, sem fazer ninguém se sentir menor.
Mas sua maior qualidade não era a medicina.
Era a humanidade.
Seu olhar experiente parecia enxergar além dos sintomas. Antes de perguntar onde doía, queria saber como a vida estava. Muitas vezes saíamos do consultório levando menos remédios e mais coragem.
Ao vê-lo ali, entre os convidados, senti que não poderia ignorar aquele encontro.
Pedi licença a Dona Rosalva e Seu Armando e expliquei que, às vezes, uma homenagem abre espaço para outra.
Então cantei duas músicas que não estavam no repertório da festa.
Antes da primeira, compartilhei um pensamento:
“Há pessoas que passam pela nossa vida deixando lembranças. Outras deixam ensinamentos. Mas existem aquelas raras que deixam abrigo. E quem encontra um abrigo humano jamais esquece o caminho de volta.”
Quando terminei, vi seus olhos se encherem de lágrimas.
As canções seguiram carregadas de gratidão. Não era uma homenagem apenas a um médico. Era uma homenagem a alguém que escolheu cuidar das pessoas quando elas mais precisavam.
Ao final, a sala inteira aplaudiu de pé.
Meses depois, recebi a notícia de sua partida.
E foi então que compreendi o tamanho do presente que aquela noite havia me dado.
A vida nem sempre nos permite agradecer a tempo. Muitas vezes guardamos o reconhecimento para depois, como se as pessoas queridas fossem permanecer para sempre ao nosso lado.
Com o Dr. Pedro foi diferente.
Hoje a saudade existe, mas ela caminha ao lado de uma profunda paz. A certeza de que pude olhar nos olhos daquele homem e dizer, através da música, o quanto sua bondade ajudou a construir a minha história.
Algumas pessoas deixam heranças em bens. Outras deixam nomes em placas e edifícios.
Dr. Pedro deixou algo maior.
Deixou lembranças de dignidade, generosidade e afeto.
E toda vez que pego meu violão, gosto de pensar que certas pessoas não morrem por completo. Elas continuam vivendo no bem que fizeram e nos corações que ajudaram a curar.
O Dr. Pedro continua vivo assim. Como uma bela canção que o tempo não consegue silenciar.


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