Revista Arte Brasileira Crítica Musical Música de Brina Costa como ponte para refletir o mercado musical do século XXI
Crítica Musical

Música de Brina Costa como ponte para refletir o mercado musical do século XXI

Em tom satírico, Brina Costa provoca a classe de compositores em “Me Querem Uma Influencer”, ante à luz dos tempos: a arte efêmera que se presta ao frenesi consumista, que define o comportamento em redes sociais. Se à primeira vista, a canção não propõe soluções, todavia, brinca com a assimilação acelerada do artista à produção de conteúdo descartável, jogando luz em fraturas expostas do conturbado cenário musical. É esse o papel do humor, escancarar o grotesco à luz do dia, e a música debochada de Brina, em três minutos, é capaz de provocar reflexões profundas.

Explorando as estruturas harmônicas e melódicas do cancioneiro gaúcho, erguido pelo tripé bandoneón, violão e voz, “Me Querem” faz o gênero avançar, contrapondo a linguagem tradicional à temática ultramoderna. No instrumental, impera o som pujante do bandoneón do argentino Mintcho Garrammone, conduzindo a canção como num tango ou milonga, repleta de alternâncias rítmicas, que ora propõem a pausa, ora impulsionam o corpo ao movimento.

É nessa dinamicidade que a canção ganha força, permitindo que Brina explore cada seção com diferentes nuances vocais, demonstrando domínio da técnica, pintando uma paisagem sonora em que a letra ganha implicações cada vez mais densas.

Vamos pensar!

O que está em jogo, para além de criticar o discurso de “viver de música”, explorado à exaustão por gurus e charlatães, é a própria razão da composição. A Internet demoliu a organização da produção e consumo musical vigente no século XX. Do lado do ouvinte, passa a imperar o acesso permanente ao catálogo universal da música. Do lado da composição, houve um barateamento disruptivo dos meios de gravação e produção, ao passo que qualquer pessoa com um smartphone consiga hoje gravar uma faixa e lançá-la na rede.

O volume de hiperprodução musical é despejado de forma contínua e estonteante nas redes sociais e plataformas de streaming, na casa de dezenas de milhares novas faixas por dia. As redes, operando sob a lógica atroz da sociedade do espetáculo, intensificam curtidas e compartilhamentos daquilo que é polêmico, e, muitas vezes falso e plástico.

É nesse cenário que novos e velhos compositores se acotovelam, se prestando a todo tipo de modismo, aderindo às danças do momento que podem “viralizar” no Tik Tok, ou passando boa parte do tempo produzindo conteúdo que gere engajamento, especialmente aqueles que possam monetizar, dinheiro que normalmente vem em forma de migalhas ou produtos de gosto duvidoso.

Vamos mais à fundo…

O velho sonho dourado de se viver de música ganha contornos sombrios. A música, na melhor das hipóteses, seria um subproduto que se consegue fazer em meio a um trabalho de vendas, como qualquer outro emprego. Todavia, a lógica de incentivos pode minar qualquer afastamento necessário para a produção criativa, tornando compositores em empregados do algoritmo, em incessante produção de conteúdo descartável, dado que sair dessa roda de hamster significa sair de vista da audiência, e, portanto, sem valor de influenciar qualquer marca ou produto.

Cabe fazer um parêntese sobre produto e a canção-objeto. Na brilhante reportagem sobre Lorenzo Mammì (“Utopias e Ruínas”, Revista Piauí, Edição 167, Agosto 2020), crítico italiano que desvendou a bossa nova e a utopia lírica de João Gilberto, o jornalista Rafael Cariello ressalta que os grandes movimentos da década de 1960 e 1970 foram também movimentos de consumo: o disco, a motocicleta, o cinema, a roupa. Era possível dar significado ao objeto, que não ficava obsoleto instantaneamente. O indivíduo passa a construir sua identidade pelo que veste, pelo que ouve, por onde viajou.

Hoje, a relação indivíduo-objeto mudou. “As coisas se diluem quando se aceleram a tal ponto que impedem uma apropriação reflexiva. Isso impede que as coisas criem realmente significado”, afirma o crítico italiano.

Se um celular (um processador de dados que tem acesso à quase todo conhecimento produzido pela humanidade) fica obsoleto em meses, qual a chance real de uma música produzir significado para uma pessoa? E aqui entramos numa nova camada da relação música e redes sociais, talvez mais nebulosa: a produção de dados para traçar um algoritmo que prevê o padrão da música de sucesso.

Por exemplo, é necessário haver reviravoltas rítmicas nos primeiros 15 segundos, o refrão precisa chegar antes de 1 minuto, é preciso evocar um limitado tópico de dramas, especialmente traições, términos e começos de relacionamento. Nesse sentido, a música passa ela mesma a ser um enlatado, arte destituída de narrativa orgânica, para ser gravada, divulgada e descartada em poucas semanas (num cenário otimista).

Ante ao moedor de carne que se tornou a promessa de monetização da canção, Brina diz “não nasci pra fazer venda (…) o meu negócio é cantar”. A recusa da cantora resgata uma pergunta inicial, qual o propósito da composição?

Conclusão.

O valor da música se dá em sua capacidade de gerar transcendência, a suspensão do cotidiano e seus problemas, nos transpondo para um estado de percepção em que a emoção gera experiências mais vívidas e significativas. A boa música é uma máquina de pensamento, que condensa em poucas estrofes um microuniverso particular, com alta capacidade dramática de evocar sentimentos. Não à toa, podemos chamá-la de máquina do tempo mental.

Brina, ao dizer não ao consumismo e sim à poesia, evoca a tradição de João Gilberto. A defesa da utopia lírica, que traz as relações do tipo informal, a matéria-prima da arte, para a circulação pública. Um elogio ao aconchego doméstico, da música experimentada pela pequena comunidade na sala do apartamento, ou nas horas que ficamos em casa, compondo para as paredes. Fora da fábrica, mas não dentro do circo.

Autor: Eduardo Pastore – Escrito em 01 de abril de 2022

Crédito das imagens desta matéria: Foto e maquiagem de Angela Costa

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