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Álbum

“É preciso lutar”, diz Bernardo Ramos que está lançando o álbum “Cangaço”

Matheus Luzi

Publicado

em

(Foto/Divulgação)


As composições de Bernardo Ramos são muito inspiradas na obra de diretores como David Lynch e Glauber Rocha. 
“Não que eu queira criar uma música imagética, mas se trata de correr os riscos que eles correram. Nos filmes do Lynch, por exemplo, você tem uma enxurrada de sensações, mas não necessariamente entende a trama. Como é isso na música? Onde está esse risco?”, indaga o guitarrista e compositor, que lança “Cangaço” a bordo do seu quinteto pela nova gravadora Rocinante. 

Com faixa-título dedicada a Glauber e Lynch, “Cangaço” reúne sete composições, todas inéditas e coproduzidas por Sylvio Fraga. Seis delas nasceram nos dedos de Bernardo e apenas uma, “Pro Bernardo”, foi presente de Itiberê Zwarg, um de seus mestres. Por dez anos Bernardo atuou na Orquestra Itiberê e, com ela, gravou três álbuns. Esse período foi muito rico para o então jovem músico, hoje com 37 anos. “Sou muito grato a ele. Vivemos uma experiência tão boa! Essa música traz um lado mais subterrâneo do Itiberê que ele quase não mostra”.

 

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Influenciado pelas cordas mágicas de Toninho Horta, Heraldo do Monte, Egberto Gismonti, Lula Galvão, Sérgio e Odair Assad, Bernardo também se embriaga na fonte inesgotável de Hermeto Pascoal. Hermeto é conhecido por fazer música arrojada com elementos de maracatu, frevo, baião. Esses elementos estão na minha formação e consigo percebê-los na minha música, porém, escondidos atrás de um cacto, conta, brincando com o nome do disco. “Mas não tenho o menor interesse em produzir um som hermético. A lição mais preciosa que se tira de alguém muito criativo é a busca de um caminho próprio, e a coisa mais idiota a se fazer é imitá-lo, avisa logo.

De fato, “Cangaço” soa como se fosse cinema para os ouvidos. A faixa título do disco determina, junto a “De quê!?” e “Intensidades I”, uma linguagem experimental e desafiadora. Fazendo o contraste necessário, surgem duas líricas baladas: Sem barganha” foi a faixa que ele compôs em menos tempo: apenas 25 minutos. Depois de pronta, tentou mudar uns acordes e não conseguiu, tamanha a força da sua simplicidade. “Aprendi com o Hermeto a não ter nenhum compromisso com o complicado”, ensina. “Gratidão” cairia bem em muitas películas clássicas e evoca uma valsa brasileira.

O Bernardo Ramos Quinteto é Bernardo Ramos (guitarra e composições), Beth Dau (voz), Rafael Rocha (trombone), Bruno Aguilar (contrabaixo) e Felipe Continentino (bateria).

 

 

Qual o conceito do nome do álbum?

Há duas razões para o nome do disco:

– Quanto ao aspecto estrutural, a maior parte das obras tem um caráter bastante nômade: são compostas por muitas seções contrastantes, mudanças bruscas de andamento e mood, enfim, são obras “sem casa”. Eu não deliberei isso, eu apenas constatei. 

– Tais obras foram compostas entre 2016 e 2018, durante um processo de golpe de Estado (que acontece até hoje). Esse processo desencadeou muitas dores em mim, muita indignação, além da percepção de que se instituiu no meu país um constante estado de crise ou de guerra. De algum modo, essas obras me permitiram mostrar meus dentes, são as minhas armas. É preciso lutar.

 

Qual mensagem você quer passar com o álbum?

Considero esta uma ótima questão, porque me força a explicitar meus entendimentos acerca do sentido da obra de arte, ou melhor, daquilo que me convoca em arte. 

Eu trabalho com música instrumental, mas sou um apaixonado pela canção, pela literatura, pelo cinema. Eu não acredito em uma arte como meio de transmissão de mensagens. 

E eu tenho problemas com obras que se dispõem sob a função de significar. Mesmo em obras literárias que me apaixonam, na poesia e na prosa, as mensagens estão lá, há o vetor semântico, mas este é apenas um elemento composicional, entre muitos outros. As palavras podem ser rebeldes, não submissas ao parâmetro semântico. Me encanta a arte-acontecimento, aquela que produz deslocamentos na sensibilidade, o que fatalmente dispara turbilhões de sentidos, resultantes do encontro ativo entre obra  e “fruidor”. Desse modo, os sentidos, as mensagens, são produtos possíveis dos encontros com a obra, mas não pertencem a ela. Tentarei dar um exemplo: pensemos na canção “Podres Poderes”, de Caetano. O conteúdo semântico da obra é super político, uma série de críticas severas à sociedade. Mas, obviamente, não se trata de um discurso de cientista político, então há uma musicalidade na organização da palavra, rimas e ritmos. Mas não se tata de um poema, então há uma melodia, um grande cantor, um arranjo, muitas performances instrumentais; nada disso está em função da semântica, mas tudo se conecta de múltiplas maneiras, eis a canção! O ouvinte pode ir onde quiser, tecer relações, vasculhar.

Com o meu trabalho, não quero transmitir nenhuma mensagem. Me esforço para produzir acontecimentos libertadores, catalizar o emergir de forças adormecidas nas pessoas, meu sonho é ser ogan. Muita gente que ouve meu trabalho me traz alguma impressão: imagem, ideia, alguma simbologia. Sempre me surpreendo e fico contente em ter contribuído com as invenções das pessoas, acho lindo! 

 

Qual a relação do álbum com o cinema?

O cinema de Glauber Rocha e de David Lynch são referências muito relevantes para mim. É preciso se entregar ao cinema deles, ceder a uma vertigem. Eles te exigem isso, Como? Se arriscando! Eles permitem que emerjam impensados, e, muito mais importante: impensáveis e insonháveis, isto é, aquilo que nos é proibido. Perfuram a ideologia em sua temporalidade, espacialidade, em sua máscara de naturalidade (“meninos vestem azul e meninas vestem rosa”). Após assistir a uma obra deles, sinto como se o mundo tivesse se expandido, as coisas cotidianas passam a ser estranhamente belas. O que quero, com minha música, é exatamente isso, gerar um estranhamento que é também um êxtase. 

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) para nos contar?

Meu processo composicional costuma ser meio lento e dolorido. Componho um fragmento. A partir daí, um severo e corrosivo senso crítico põe abaixo o coitado! Insisto, fico tocando o fragmento, repetindo sem parar,  até aprender a gostar um pouquinho dele, inventar um jeito de curti-lo. Quando isso acontece, um caminho para seguir costuma aparecer. Demoro meses para finalizar uma peça. Entretanto, no caso da balada “Sem Barganha”, fiz tudo em 25 minutos. Foi muito estranho. Eu tocava, gostava do resultado, mas pensava: – Isso não é uma música minha, há uma coisa “retrô” aí. Eu tentava mudar acordes, fragmentos da melodia, variar um ritmo e ela parecia me dizer: – Não se meta comigo, já estou pronta! Não teve nenhuma possibilidade de barganha, por isso a peça leva tal nome. 

Apesar de ser guitarrista, tenho formação em violão clássico, Esse disco foi a o primeiro espaço fonográfico onde a síntese tão desejada entre as duas linguagens fosse colocada em prática. Optei por um disco sem piano para ter “espaço” para experimentar tramas texturais violonísticas na guitarra. 

 

Fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.  

Penso que uma das principais forças desse trabalho é a interação na performance musical. O Bruno Aguilar (baixo), A Beth Dau (Voz), o Rafael Rocha (Trombone), a Joana Queiroz (clarineta e clarone) e o Felipe Continentino (bateria) são músicos maravilhosos, referenciais naquilo que fazem. Por isso, pude dar vazão às minhas mais loucas ideias, “pesei” na caneta e eles “compram todas”. Além disso, todos são grandes improvisadores. Nós trocamos muito enquanto improvisamos. Meus solos são nada mais que roubos de ideias que surgem na bateria ou no baixo, e sai muita coisa dali! Percebo que nós estamos num caminho de produzir uma música improvisada com características composicionais – texturas, contrapontos, desenvolvimentos -, e uma interpretação de música escrita com características de improvisação – partituras como ponto de partida para gestos mais espontâneos.

O disco foi um lançamento da gravadora Rocinante, coproduzido por mim e pelo diretor artístico da gravadora, Sylvio Fraga, gravado e mixado por Duda Mello. Sylvio é exigente, amoroso e motivador. Duda é talento puro! Enfim, trabalhar em um ambiente tão propício, com tantas pessoas brilhantes ao redor é um grande privilégio que dispara em mim um enorme senso de responsabilidade. Por isso, mais quartinho, instrumento fora da capa, livros e filmes interessantes, encontros reais e menos celular. 

Mais uma coisa, uma confissão: Tenho uma dificuldade imensa em ficar produzindo dados de autopromoção nas redes sociais, algo que, pelo menos por enquanto, parece ser uma atividade fundamental para se trabalhar nos tempos atuais. Me cansa demais. Estou entendendo como posso fazer isso de um jeito menos torturante. Fico culpado de ficar produzindo dados e distraindo as pessoas. É uma loucura, é o século XX que me habita.

 

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