21 de maio de 2024
Post Patrocinado - Eduardo Pastore

Kjetil Landsgard – Singles For Soul Searching

Resenha Musical por Eduardo Pastore

Kjetil Landsgard

À primeira vista, o trabalho “Singles For Soul Searching” pode ser entendido como uma coletânea de lançamentos independentes, em que cada faixa avança num determinado domínio do mundo contemporâneo. Tal visão poderia resultar num mosaico, numa colcha de retalhos de um mundo fragmentado, que não necessariamente contém relações entre si. Todavia, o ouvinte iniciado, conhecedor da obra de Kjetil Landsgard, sabe que é necessário sair de si mesmo, num afastamento do olhar microscópico, para conseguir enxergar a obra como um todo.

Como num exercício de meditação, é preciso se distanciar do objeto de foco, para que se possa girar ao redor dele, enxergando-o sob diferentes primas e pontos-de-vista. Só assim, será possível vislumbrar a coesão das doze canções do álbum, que se entrelaçam numa teia tanto estética quanto temática, resultando num corpo condensado de reflexões sobre um mundo em vertigem.

Aqui é possível ressaltar um jogo de palavras do próprio Landsgard, dado que, “soul searching” é a arte da meditação por excelência. Portanto, é visível que a meditação se torna o elemento chave para entender a experiência em uma paisagem dura, repleta de caos, ruído e violência, em que o tecido social é esgarçado pelos conflitos sociais e políticos do início dessa década.

Se a meditação é própria de um determinado sujeito, e subjetiva portanto, é necessário entender o contexto no qual o sujeito está inserido, sem o qual, não será possível ouvir os sons, ver as cores ou sentir as emoções propostas pelo bardo em suas poesias. Landsgard se utiliza da lama gerada pelo mundo para erguer um monumento sonoro.

Em breve panorama, 2022, ano que se inicia com a invasão da Ucrânia pela Rússia, é a data em que Francis Fukuyama traça o fim da era da inevitabilidade. A inevitabilidade seria, em larga medida, a promessa de que a história havia chegado ao fim, com a derrubada do muro de Berlim e a implosão da União Soviética em 1989. A partir de então, o mundo experimentaria o progresso das democracias ocidentais como condição inevitável, num ciclo interminável de expansão econômica e cultivo das liberdades individuais e sociais. Livre de antagonistas, nessa visão, o Ocidente seria um bólido, movendo-se em direção ao nada. Alçando o consumismo como valor máximo, num frenesi de degradação ambiental, na tentativa de preencher o vazio abissal de nossos dias.

Fukuyama, após 30 anos de ter proposto o fim da história, propõe uma nova era, a era da eternidade, e assinala que a fratura da era da inevitabilidade inicia-se com a crise econômica em 2008, e os conflitos e dinâmicas sociais que eclodem e se intensificam a partir de então. Em particular, a perigosa combinação de alta desigualdade social, crescente imigração de países pobres para ricos e queda na taxa de fecundidade resulta numa série de ressentimentos intergeracionais, espalhando-se entre camadas da sociedade que passam a se enxergam unicamente como antagonistas, como mal a ser extirpado.

É nesse caldeirão que surge uma nova classe de autocratas, manipulando habilmente a Internet, invertendo a maior promessa de liberdade do mundo moderno na mais poderosa máquina de disseminação de mentiras e convulsão social.

Valendo-se da premissa implacável da sociedade do espetáculo, em que o que é valorizado, curtido e compartilhado é o que é o polêmico – o que necessariamente exclui fatos. Os autocratas florescem na polarização da sociedade, fabricando crises e manipulando a sensação resultante. Submetem sua plateia ao regime do medo, vomitando sem parar a retórica do ódio e do ressentimento, reciclando os medos do passado como eternos algozes, afogando o futuro no presente, numa condenação permanente. Sua proposta de mundo não é o progresso, mas tomar precauções contra ameaças, na tentativa de proteger um passado glorioso, retocado com a platina de tenazes nacionalistas e reacionárias. Os vendedores da eternidade, afogados em memórias falsas pré-fabricadas, atuam no polo da boçalidade onisciente, colocando-se como detentores da única verdade. A boçalidade se expressa em dois vetores: na incompetência para entender a complexidade do mundo, dada sua preguiça inerente de estudar o mundo, e na atrocidade como comportamento legítimo, em que não há sombra de empatia ou exame de consciência ao submeter pessoas à aniquilação, ou o meio-ambiente à destruição.

Normalmente, os boçais são homens de um livro só, dado que a preguiça lhes pauta o entendimento do cotidiano. Homens de um livro só costumam se fiar nos sonhos de vidas eternas, na beatitude ou nos sofrimentos punitivos do além. E acreditam que é a transcendência (viver a eternidade no paraíso divino) que lhes permite uma rotina de crimes, pois encontrarão na morte o perdão de seus pecados em vida.

É desse terreno movediço que Kjetil Landsgard extraí sua matéria prima. De um lado, as notícias se alternam entre crises profundas demais, realçando a sensação de que entramos numa era da inesgotabilidade do pior, governada por imbecis pautados por grupos mesquinhos e brutais, onde nada parece ter esperança. Do outro, Landsgard remodela todas essas sensações de se estar vivo em século XXI em construtos sonoros.

A busca do poeta nunca será fácil, porém, se trata de um ato de fé. Vida estoica, orientada pela construção estética como opção de existência – a resistência em si contra a atrocidade das notícias.

Essa opção revela, a um primeiro momento, a difícil decisão pelo autoexílio, dado que exige a negação de se participar das bolhas das Internet, cavernas de autoafirmação, em que cada participante só ouve o que quer, cooperando com seus semelhantes siameses, livrando-se da complexa necessidade de dialogar com o que é diferente. Ao fim, essas cavernas são espaços que reverberam apenas uma única palavra, “eu, eu, eu”.

Para além do autoexílio, a criação de Landsgard é uma decisão humanista – dizer não a uma trajetória pré-definida, e dialogar sobre o significado da vida na própria construção da cultura. Landsgard lança ao mundo seus profundos embates com sua consciência, em forma de 12 canções, lampejos da humanidade que encontramos no fundo de nossas almas.

Num de seus últimos textos, Contardo Calligaris fala que a fragilidade, o sofrimento, o efêmero da vida não têm sentido algum, mas a cultura pela qual tentamos examinar nossa estranha experiência, isso é o que nos define como humanos e o que temos de melhor.


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O Álbum – Faixa a faixa

SELF TAUGHT

Com um groove pesado e minimalista, o pungente riff de baixo permeado de drive, dá o tom sério da reflexão em curso: no verso um, a poesia fala do caminho do bardo estóico, de autoaprendizagem, que precisa abdicar das facilidades de uma vida morna e medíocre para encontrar o sentido de sua própria vida. As batidas fazem o pé bater no chão. Um caminho que não pode ser percorrido por mais ninguém, nem mesmo em um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas.

O refrão é revelado na repetição “É assim que você se ensina / como não se importar com o que pensam de você”, sobre a mesma harmonia. A repetição intensifica a sensação de vertigem experimentada pelo narrador, a de negar a caverna dos ecos, abnegando a convivência com pessoas familiares, mesmo, pelo caminho solitário, a rotina estóica.

O segundo verso escala a situação do interlocutor até o último nível, colocando-se diante de seu próprio túmulo. É preciso chegar ao momento final com a certeza de que perseguiu a sua fé, tendo visto com os próprios olhos a beleza da alma.
É diante do vislumbre da morte que o coro se ressignifica. Pensar na morte é a melhor maneira de tomar uma decisão difícil, pois a vida só ganha sentido diante do fim, e é a partir daí que podemos negar tudo o que não nos importa para buscar o Divino, uma existência dedicado a viver a plenitude do sublime do dia.


FALLIN LEAVES

A escolha da linguagem eletrônica traz um novo colorido à mensagem do poeta, que os versos são compostos no mundo contemporâneo, o despertar da segunda década deste século, vibrante, enérgico, caótico e incerto.

O violão e a batida formam a armadura eletrônica pela qual o poeta percorre a paisagem urbana. É essa armadura que permite quebrar as algemas do medo e caminhar pelos escombros do lado de fora. Em meio à ruína, é possível vislumbrar a beleza das folhas caídas no outono.

O bardo alterna suspiros e gritos. É na não linearidade que nos tornamos antifrágeis, escalando montanhas mais altas. O silêncio pode fazer alguém ouvir com mais atenção, e um grito repentino dá o valor do que está em jogo: a própria liberdade.


FOREST THROUGH THE TREES

Sapos cantam na noite da floresta, cheia de sons e escuridão. A atmosfera do trip hop é a trilha sonora do passeio na floresta, onde nos perdemos, mas onde caminhamos livres. Massive Attack é a grande referência para caminhar por esta floresta.

Na visão turva do andarilho bêbado, as lembranças confundem-se com a própria paisagem, e através dos galhos e troncos das árvores tortas, surge a miragem da infância, guiada por sermões, por valores adultos, que, ao cuidar, incutem seus próprios medos.


FREEDOM

O riff de guitarra soa enérgico, antecipando o grito de liberdade do poeta. A força da bateria e do baixo sustentam a poesia que não pode mais ser sussurrada, já que é um grito que emana do campo de batalha. Sobrevivente, caminhando entre corpos caídos e armas no chão.

A crueza da cena da provação é real, real demais, e é isso que o poeta terá que atravessar, os sete círculos do inferno de Dante Alighieri, e não encontrará descanso no céu monoteísta, pois seu paraíso é libertação, quando finalmente poderá dar o seu grito de besta humana, um macaco descido das árvores, em comunhão com a paisagem e aquelas pessoas e animais e plantas ao seu redor. A liberdade, devidamente compreendida, só será completa se o respeito ao seu direito de usufruto nunca inibir o usufruto da liberdade por outras pessoas. A liberdade é a comunhão da paz.


FUEL

A atmosfera sonora é intensa, repleta de camadas de sons mínimos, que tecem a complexa trama da relação entre um casal.

A voz do poeta vacila. No verso, o tom baixo, confessional, que racionaliza, tenta encontrar razões, tenta defender pontos de vista, que podem ter sido comuns em algum momento, mas a vida a dois é turbulenta, cheia de desentendimentos.

A voz da razão muda no refrão, já que o amor que resiste é aquele construído pela química, o combustível do corpo, o que os olhos não veem. No refrão há o chamado ao encontro, o amante grita, porque precisa de sua companheira para continuar. Sem ela, ele não será mais ninguém.


I AM OK

Balada sombria, pintada por camadas de guitarra, tonificada por delay e drive. Baixo e bateria firmando a estrutura do groove, dando espaço à melodia compartilhada entre voz e delicadas frases de violão, solos que costuram o ar com um rastro de notas cintilantes, que vibram como sinos pairando no horizonte noturno, sons de esperança, miragem que desaparece entre as brumas.

Na balada de um homem comum, o poeta reconhece seu reflexo na janela, um assunto como qualquer outro. Solitário, ele reconhece que precisa de seu parceiro para encontrar qualquer tipo de transcendência na vida. Aquele que você não espera que passe, aquele que você não quer que acabe. Em que os dias são verdadeiros passeios na superfície da lua.


RAISE YOURSELF

Em uma apresentação do álbum completo (algo fantástico de se pensar, Kjetil, eu sentaria na primeira fila), acho que essa música seria o hino de encerramento. Luzes no palco, banda arrasando amplificadores, o incrível DJ EDP BEATS explodindo as pick-ups e o sistema de som, o poeta cuspindo palavras no microfone e jogando o pedestal na plateia enlouquecida.

O riff de guitarra é esculpido em ouro, um hino de libertação, e a harmonia do baixo é sobre entregar a intensidade.

Em Raise Yourself, reencontro entre Bob Dylan e Jimmy Hendrix, o poeta toma emprestado do rock para estruturar sua acusação contra os imbecis que nos governam. Enquanto Dylan diz: “Deve haver algum tipo de saída daqui”, o poeta não hesita, ele encontra seu próprio caminho, mesmo que seja à força, derrubando as paredes dos templos “Vou levá-lo através dele / Todos esses templos”.


STEALING ATENTION

O poeta, em uma releitura da Ilíada de Homero, canta sobre os antagonistas modernos que invadem nossa própria cidade-estado de Tróia, ou seja, nosso reino de consciência, nossos muros contra a violência externa.

A linguagem musical mobiliza as batidas do hip hop. O cavalo de Tróia surge como uma escultura em miniatura, na armadilha colorida da tela do smartphone, projetada para prender sua atenção de todas as formas possíveis, e manter sua mente presa eternamente distraída, nunca focando verdadeiramente em nada, em qualquer conversa, naquele que está na sua frente. A mente para sempre presa entre posts vazios, discussões e polarizações.


TAKE ME HOME

Take Me Home continua a imersão urbana, aumentando a tensão do ritmo e das batidas da poesia, para falar sobre viver na cidade. Podemos entendê-lo como o retorno diário do poeta-trabalhador, voltando para casa de seu trabalho na fábrica.

O Hip Hop é o som predominante da cidade do século XXI, haja vista que a língua falada na periferia, o som da paisagem urbana, dilacerada por sucessivas crises econômicas, em que a minoria abastada sugam a grande maioria da renda nacional e erguem fortalezas para morar, circulando pela cidade em carros blindados, enquanto um exército de pobres se acotovelando por migalhas, vivendo de biscates, vendendo almoço para pagar o jantar, alguns tendo a rua como último endereço.

É nesse cenário desolado, em que o poeta caminha entre carros luxuosos e mendigos sem-teto, entre arranha-céus e favelas espelhados, caminhando por engarrafamentos, por feiras de comida em bairros de minorias étnicas, enclaves de imigração onde as múltiplas culturas encontram válvulas de permanência. A voz do metrô anuncia, em vez da próxima estação, “Deus te ajude”, pois o herói urbano precisará de ajuda para chegar em casa na viagem do trabalho. Como na oração de São Jorge, o peregrino moderno precisa de proteção. Seu escudo é seu fone de ouvido e a lista de reprodução é sua espada.


TAKING THE TRAIN

Armada com o rock, que não é mais a linguagem predominante do novo século, mas que continua pulsando nas veias do poeta, a melodia narra a jornada de autoexílio. Ele tira o trem da ilusão da vida urbana, dizendo a todos e a tudo para irem se foder com suas mentiras habituais.

Há um resgate da vida de vagabundos esclarecidos, pintado pela caneta de Jack Kerouac. Diante do futuro escolhido por outros, seja o alistamento forçado para uma guerra sem sentido, ou uma vida de autômato, apertando parafusos, esmagados pelas máquinas das indústrias. Os vagabundos, vagabundos, dizem não a tudo isso, e lançam-se pela estrada, atravessando uma cidade e outra, seja a passeio de caminhão, dividindo uma garrafa de vinho com forasteiros e observando as estrelas do porta-malas. Correndo atrás de vagões de carga, viajantes sorrateiros, que não pagam a passagem e nem sabem para onde vão, nem quando vão parar. Eles entendem o deslocamento como o próprio sentido da vida. “Nossas malas gastas estavam de volta na sarjeta. A próxima rodovia seria mais longa e, portanto, mais difícil. Mas não importava, porque a estrada é a própria vida”.


TANK TOP

Enquanto em Tomando o trem o poeta viaja para o autoexílio, em Tank Top encontramos a razão pela qual ele parte.

Se você vai abandonar a ideia de ilusão, que seja chutando a porta, em um pulso, levantando-se do encontro dos tubarões, vestindo ternos, vomitando mentiras para se manter em posições de poder, tirando fotos de si mesmos e alimentando o net com seu próprio lixo narcisista.

Os imbecis são os vendedores do passado, vociferando seus medos, suas propostas de mundo passam mantendo a multidão imersa em sucessivas crises, fabricadas nas reuniões de ternos.

Nesse cenário infantil, em que fotos de autopromoção percorrem o feed das redes sociais, o poeta escreve seus versos.


DON’T THINK

Don’t Think poderia ser a faixa-título. Nela, o poeta condensa sua coleção de meditações, uma busca que resulta em uma série de profundos embates com sua própria consciência.

Com uma bela estética, sem deixar de ser enérgica e moderna, aqui encontramos a palavra de esperança em meio à desolação. A experiência humana não tem sentido se não for compartilhada. Diante da convulsão social, da bipolarização, do governo dos imbecis, da caverna dos ecos, o poeta transforma o espanto em narrativa, onde os famintos ganham voz, ao invés dos amarrados, onde a honra aos ancestrais ganha voz, ao invés das promessas dos profetas da eternidade.

A música pode não ter o poder de fazer política ou de parar uma guerra. Mas a música é a arte emocional por excelência, porque só existe na emoção compartilhada de dois cérebros. Ao narrar a experiência do homem moderno, o poeta constrói um espelho no qual podemos nos ver. Quando entendemos que outra pessoa pode sentir as mesmas coisas que nós, entendemos que há espaço para o diálogo. E no diálogo está a esperança de que o mundo ao nosso redor possa ser mudado.

Eduardo Pastore é compositor e produtor musical brasiliense. Concluiu o Master Certificate de Songwriting and Guitar no Berklee Institute of Music, e lançou mais de 30 produções, que somam centenas de milhares de plays nas plataformas. Também é curador e escritor, tendo analisado e escrito reviews de cerca de 1000 músicas de artistas de todo o mundo.