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Entrevista

[ENTREVISTA] América Latina é o tema do primeiro EP solo de Marcelo Segreto

Matheus Luzi

Publicado

em

(Crédito: Inês Bonduki)

Assim como já insinua o título desta postagem, falaremos aqui da América latina, de música, e do EP do cantor e compositor Marcelo Segreto, lançado dia 15 deste mês em todas as plataformas digitais. O tema do trabalho nos chamou muita a atenção. A seguir, entende um pouco mais do EP, e na sequência, a entrevista.

O valioso projeto teve sua raiz a partir da premiação do “Concurso Ibero-Americano de Composição de Cançaõ Popular Ibermúsicas 2018”, na qual o músico inscreveu três composições. Com isso, a América Latina acabou por se tornar o tema do EP. “Eu quis seguir a proposta do concurso e pensar sobre a união da América Latina na música. Estamos tão perto e tão separados”, conta Segreto.

Gravado em 2020, o EP é composto pelas faixas “1492”, “Tordesilhas” (com participação da cantora argentina Loli Molina), e “América, América”, sendo que todas foram arranjada sem 2019 sob direção artística de Marcus Preto. A produção musical do EP é de Tó Brandileone, no Estúdio do Tó, em São Paulo.

Matheus Luzi – Marcelo, obrigado por topar essa entrevista. Vou a primeira pergunta. Em linhas gerais, o que você acredita ter dito sobre as América Latina com este EP, com essas três canções?

Marcelo Segreto – Eu que agradeço a entrevista. Acho que a primeira canção, “1492”, resgata momentos da história da América Latina, fatos marcantes, sobretudo da política e dos regimes ditatoriais do século XX (algo que temos em comum com a Argentina, Chile e Uruguai, por exemplo…). É como se a canção fosse uma espécie de sonho delirante que embaralhasse todos esses fatos históricos (em geral violentos). Já as duas outras canções (“Tordesilhas” e “América, América”) tratam mais da questão do distanciamento entre o Brasil e os demais países da América Latina. Acho, então, que as canções falam sobre essa separação e sobre a vontade de tentar estabelecer um elo possível com nossos vizinhos.

Matheus Luzi – Neste concurso que você participou em 2018, o que de bom você extraiu dessa experiência?

Marcelo Segreto – Foi muito legal participar do concurso, ser o selecionado do Brasil neste prêmio, pois pude conhecer e começar a estabelecer conexões mais fortes com artistas de países da América Latina. O concurso me fez ao mesmo tempo refletir sobre a nossa separação cultural e sobre o fato de que estamos tão perto desses países e raramente pensamos em tentar fazer conexões com seus artistas ou casas de show. Me parece que os músicos brasileiros acabam pensando antes em fazer shows em Portugal, por exemplo, do que em montar uma agenda que contemple shows nos nossos países vizinhos…

Matheus Luzi – Além desse concurso, o que lhe inspirou a criar um EP baseado na América Latina?

Marcelo Segreto – Acho que esse tema é muito intrigante, né? Somos tão próximos geograficamente e mesmo culturalmente ou historicamente a esses países e quase não estabelecemos relações fortes com eles. Nossa elite cultural se volta mais para a cultura europeia e norte-americana do que para as questões latino-americanas. Acho que essa situação tão curiosa de estar ao mesmo tempo tão perto e tão longe me inspirou para compor o EP.

“Me parece que os músicos brasileiros acabam pensando antes em fazer shows em Portugal, por exemplo, do que em montar uma agenda que contemple shows nos nossos países vizinhos…”

Matheus Luzi – Seria maravilhoso você nos descrever resumidamente o que traz as três faixas do EP.

Marcelo Segreto – Claro!

“1492” é a primeira canção do EP e faz uma mistura de fatos históricos, como um sonho ou delírio. A letra fala de tempos e espaços diversos (Marielle e os helicópteros de Pinochet, que atiravam corpos ao mar, o Carnaval e a anti-política ambiental do governo brasileiro atual).

“Tordesilhas” faz uma metáfora entre uma relação amorosa e a relação que o Brasil tem com os outros países latino-americanos (uma sensação de distanciamento, de separação, de impossibilidade do encontro) explorando a referência ao tratado de Tordesilhas que separava os domínios de Portugal e Espanha no continente americano… Na canção, as melodias vão se encontrando e se desencontrando…

“América, América” também relaciona o tema de uma separação amorosa com o tema da separação entre o Brasil e os países da América Latina. Por isso, o título reforça esse lance de que são duas Américas, separadas por vírgulas.  Uma inspiração para essa faixa foi a canção “San Vicente” do Milton Nascimento e do Fernando Brant (por isso até cito o nome dessa canção na letra de América, América).

Matheus Luzi – Entre as três canções, qual você acha mais inspiradora?

Marcelo Segreto – Ichi, difícil responder… As pessoas tem gostado muito da canção “Tordesilhas”, talvez por esse lance de entrelaçar as duas vozes, do cânone da melodia no refrão, enfim.

Matheus Luzi – O que representa para você este EP e a questão dele estar sendo lançado durante uma pandemia?

Marcelo Segreto – É um grande desafio lançar trabalhos durante a quarentena, pois gostaríamos de fazer shows para divulgar os projetos (e precisamos dos shows para viabilizar futuros projetos). Acho que é um momento muito difícil na vida de todos nós e creio que a música ou a arte em geral pode ser muitas vezes um espaço propício para refletirmos sobre essas dificuldades.

“Nossa elite cultural se volta mais para a cultura europeia e norte-americana do que para as questões latino-americanas.”

Matheus Luzi – Você acredita estar cravando alguma(s) mensagem importante com este trabalho? Tanto para o Brasil, para os nossos países vizinhos, quanto para o mundo?

Marcelo Segreto – Acho que a mensagem principal do trabalho é mesmo essa reflexão sobre o intrigante distanciamento que temos em relação aos países vizinhos… Acho que a ideia das canções é tentar, pela emoção, nos sensibilizar sobre essa questão. Culturalmente, seria incrível termos mais intercâmbios com artistas latino-americanos. Economicamente, seria fundamental. Mas a política externa do governo brasileiro atual infelizmente

não pensa dessa maneira.

Matheus Luzi – Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar referente a esse trabalho?

Marcelo Segreto – Sim, uma coisa muito especial para esse EP foi a participação da cantora argentina Loli Molina. A Loli é uma artista talentosíssima, muito expressiva, e que deu uma outra dimensão à canção “Tordesilhas”. Especial também por essa sensação de afastamento, de dividir essa canção com uma artista de um outro país da América Latina. Foi engraçado que durante todo o processo, eu pensava que ela estava na Argentina (ficava visualizando ela gravar a canção num estúdio em Buenos Aires… Só depois soube que ela mora atualmente no México… Mas achei isso até legal… Quer dizer, estávamos ainda mais separados…

Matheus Luzi – Agora deixo você a vontade para falar algo que gostaria e que, por ventura, eu não perguntei.

Marcelo Segreto – Acho que deixo aqui só o convite para os compositores brasileiros participarem do concurso de composição do Ibermúsicas (o concurso é anual). Digo isto, pois, no ano passado, o governo brasileiro quase se desligou do programa (provavelmente por uma questão ideológica). Acho bacana, então, divulgar esse programa de fomento para valorizá-lo e dar fôlego a uma iniciativa cultural que considero ser muito importante.

“Acho que deixo aqui só o convite para os compositores brasileiros participarem do concurso de composição do Ibermúsicas (o concurso é anual).”

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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