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Entrevista

ENTREVISTA POÉTICA – Alvaro Tallarico e seu livro “Cem ruínas na esquina da poesia”

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em

Arquivo pessoal.

Muitas coisas definem esse lançamento do literato e jornalista Alvaro Tallatico. O uso do termo “Coisas” é justamente para dar a sensação de que é difícil definir uma poesia tão contrário ao objetivo. Apesar disso, Alvaro diz que os 66 poemas apresentados ao longo das 88 páginas do livro “trafegam por poemas, prosas poéticas e composições de espiritualidades diversas viagens e preconceitos”.

Talvez mais algumas pequenas palavras podem deixar brechas para o leitor da Arte Brasileira se interessar por essa publicação. Tais palavras são “fés distintas, deusas, aventuras, críticas sobre preconceitos tais como o racismo”. Outra brecha que, em verdade, simboliza o lado multiartistico de “Cem ruínas na esquina da poesia” é de que a música está ali mais do que presente. O poema-samba “O Tal de Talarico” é uma resposta do autor a música de 1992, de Zeca Pagodinho, intitulada “Talarico, Ladrão de Mulher”.

Formado em publicidade e propaganda como técnico, jornalista do portal Vivente Andante e cria da Zona Norte do Rio de Janeiro, Alvaro trocou umas ideias comigo (Matheus Luzi). Essas ideias são também com palavras e frases poéticas, tanto da minha parte quanto da dele. É por isso que essa postagem inicia com o nome de “Entrevista Poética”. Essa, você confere a seguir!

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Matheus Luzi – Como autor, o quê os 66 poemas representam para você? Ainda na ótica do próprio Deus dos versos da obra (você), o que ela pode representar para a humanidade (os leitores)?

Alvaro Tallarico – Bela pergunta. Gratidão por trazer essa reflexão. Os 66 poemas são fragmentos de imaginação e sentimentos, vivências e acontecimentos. Agora, sobre essa questão divinal, é difícil me ver como um deus, muito pelo contrário. Entretanto, vendo pelo lado que cada texto é um corpo, é como se eu tivesse sim moldado algum tipo de ser, uma criatura. Cada texto ou livro é como uma entrega corajosa de algo que somos ou temos, entre luzes e sombras. Como escritor, cronista, poeta, viajo em devaneios em cima da sociedade em que vivemos e partilho. Quem sabe possa reverberar? Cada um que é tocado, reverbera em outros. Espero que represente um respiro para aqueles que se conectarem. Não, melhor. Se é para brincar de deus, que cada texto seja sopro, sopro de vida. Sopro de vidas que vivi e imaginei. Sou apenas um escritor, um canal. Mas você me fez lembrar de uma passagem: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.

Matheus Luzi – Você é o jornalista a frente do Portal Vivente Andante. Assim, qual a influência da sua profissão dentro do nicho cultural para a construção identitária, conceitual e poética deste lançamento?

Alvaro Tallarico – Sim, o Vivente Andante surgiu como portal a partir de um curso de pós-graduação em Jornalismo Cultural da UERJ. Um trabalho que me permitiu e permite estar em contato direto com artistas do mundo inteiro e ser inspirado por eles. Divulgar a cultura é um orgulho para mim. Ser jornalista é ser ponte, é ser xamã, trafegar entre mundos e submundos. Ainda por cima trabalho em um restaurante que também é casa de cultura no coração da Lapa, no Rio de Janeiro, o Bandolim Restaurante Cult Bar (instragram.com/bandolimrio) ao lado da Escadaria Selarón. Vivo no coração boêmio e artístico da cidade. O jornalismo faz parte da minha construção de indivíduo e profissional, apesar de que busco mais subjetividade do que a objetividade que a profissão supostamente procura. Sou mais abstrato que concreto e essa é minha forma de construir e reconstruir. Ser jornalista e poeta é quase uma contradição curiosa. Porém, contradições fazem parte dos seres humanos e não são pecados. Há uma patrulha que insiste em falar de coerência. Contudo, a mudança é a única certeza que temos e ela faz parte da evolução. Se essa entrevista for igual a alguma outra que darei em dez anos, será esquisito. Essa é a construção conceitual desse livro: mudança, transformação, ressignificação, decepção que vira sonho, e sonho que vira palavra. Um algo de jornalístico com um tempero de espiritualidade.

Matheus Luzi – Em comunicado à imprensa, você menciona que a música (dentre outras questões, algumas referências) faz parte do conteúdo do livro. Pode nos explicar melhor esse ponto?

Alvaro Tallarico – Ah, sim. Em verdade, grande parte dos poemas nasceram como músicas. Fui criando e cantando. “Luz de Gaia”, por exemplo, no ritmo que foi criada, já foi cantada pela cantora Regina Souza, virando uma parceria. Tantas outras tem ritmo de samba ou nasceram dessa forma. Como “Atravessei o Mundo”, ou “O Tal de Talarico” que responde a canção de 1992, de Zeca Pagodinho. Escrevi cantando, ou cantei escrevendo, fiz direto com ritmo musical. Uma que não está no livro, pois já estava sendo produzida e vem ganhando o mundo como música, lançada em 2021, é “Preto de Azul”, na voz do cantor cabo-verdiano Plácido Vaz, parte do projeto Kaialas.

“Sou apenas um escritor, um canal. Mas você me fez lembrar de uma passagem: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’.”

Matheus Luzi – Tematicamente, quem é “Cem ruínas na esquina da poesia”? Quais pautas ali fazem morada?

Alvaro Tallarico – A poesia é polêmica, sempre oscilando. Às vezes é marginal, em outras vira moda. O cem brinca com um “sem” também, no intuito de não ter. Há muitas ruínas ou não há ruínas? Que ruínas são essas? Poesia é rachadura no espaço-tempo, infiltração nas paredes. Está ali, não tem para onde correr, pois a água já está por dentro. Cem é um número poético e esquina sempre tem um charme. A capa traz um caminho numa linha de trem da Bolívia, como uma caminhada pelo infinito até uma esquina inexistente, ou sonhada, onde é possível ver um amor, ou abraçar a arte. Vários desses textos surgiram em esquinas da vida onde me encontrei, ou me perdi. As pautas que moram nesse livro são as que reverberarem no coração dos que lerem. A arte é livre no momento que sai de nós para se tornar qualquer coisa, é fora de controle. Essa é uma das graças.

Matheus Luzi – Diante da resposta anterior, que tipo de mentalidade e estado de espírito que o leitor “deve” ter para desbravar as 88 páginas da obra?

Alvaro Tallarico – Estado de espírito de abertura, curiosidade, vontade de viajar, inclusive por questões espirituais, as quais são abordadas. Fazem parte do meu percurso, dos meus estudos. Cito fênix e saci, de deuses indianos até Nossa Senhora.

Matheus Luzi – Seria possível enquadrar as estruturas poéticas deste lançamento dentre as de outros autores? Em suma, essa pergunta é mais sobre suas referências na literatura, mesmo. E se quiser aproveitar a viagem, pode soltar do universo artístico como um todo.

Alvaro Tallarico – Não consigo enquadrar esse livro com o de outros autores. Não busca um formato ou linearidade. Dentro da literatura e poesia tenho muito apreço por Pablo Neruda e Ariano Suassuna, cujos poemas são cheios de simbologias. Mia Couto com seus traços de prosa poética. Eduardo Galeano e seu olhar. Também tenho influência dos quadrinhos de Alan Moore e Neil Gaiman. Na música tem Moraes Moreira, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Cartola, Sérgio Sampaio, tanta gente boa…

“Ser jornalista e poeta é quase uma contradição curiosa. Porém, contradições fazem parte dos seres humanos e não são pecados.”

Matheus Luzi – Há quanto tempo esses poemas estão sendo geridos? Acho mais do que oportuno você comentar a respeito do seu processo criativo.

Alvaro Tallarico – Muitos foram jorrados, não tanto geridos. Pois normalmente é assim meu processo criativo. Faço meio que de uma vez, depois retorno para lapidar, dias depois, ou até anos. Muitas vezes nem lapido, deixo cru. Esse livro tem uma crueza. A oportunidade de publicar surgiu através da Editora Scortecci, então peguei vários antigos que tinha em cadernos e blocos.

Matheus Luzi – Em pouquíssimas palavras, convide o público para a leitura do seu livro.

Alvaro Tallarico – Estimado público, a literatura, a poesia, são caminhos que possibilitam atingir novos patamares dentro de nossa passagem humana. Convido para percorrerem essa jornada comigo pelas esquinas das poesias que encontrei perdidas no meu inconsciente. E que nela encontrem novas consciências.

“A arte é livre no momento que sai de nós para se tornar qualquer coisa, é fora de controle. Essa é uma das graças.”

Matheus Luzi – Certamente você tem boas histórias e curiosidades sobre tudo que envolve este trabalho. Se sentir à vontade, destaque alguma ou algumas delas.

Alvaro Tallarico – Somos todos filhos de boas histórias, Matheus. Tantos ancestrais e antepassados tiveram que nascer e morrer para que aqui estivéssemos. Sem eles, não haveria Alvaro. O poema ”Preto-Vô”, por exemplo, é uma homenagem ao meu avô, que se chamava Alvaro também. E numa história que meu pai contava sempre, de quando foi, ainda criança conhecer a bisavó, que havia sido escravizada. Esse texto veio de meu âmago, de minhas memórias de infância. Essa história que meu pai contava foi algo que me fez iniciar um Mestrado em Estudos Africanos na Universidade do Porto em Portugal. Esse e outros textos vem dessa vontade de louvar e agradecer antepassados e ancestrais. É pungente isso no livro, e muitas vezes sinto como se não fosse eu falando, mas sim, antepassados através de mim.

Matheus Luzi – Como de praxe aqui nas entrevistas da Arte Brasileira, agora deixo você totalmente livre para falar aquilo que bem entender. É carta branca, meu caro!

Alvaro Tallarico – Na carta branca coloco então tinta negra para colorir. E que nossa vida seja cheia de cores. Arte brasileira é o que precisamos. Nascemos para a vanguarda, é hora de sair da retaguarda. Sou sujeito do verbo que amo, do nome que clamo, do poeta que vejo, do escritor que prevejo. Pai e filho da minha mãe: a Arte.

“Somos todos filhos de boas histórias, Matheus. Tantos ancestrais e antepassados tiveram que nascer e morrer para que aqui estivéssemos. Sem eles, não haveria Alvaro.”

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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