Revista Arte Brasileira Entrevista Bárbara Silva: mais um caminho para compreender a Nova MPB
Entrevista Música Traçando o perfil

Bárbara Silva: mais um caminho para compreender a Nova MPB

Recentemente, nós publicamos sobre “o que é, afinal, a Nova MPB?”. A matéria que pode ser acessada aqui nos traz algumas visões de quatro diferentes fontes, mas que, de um jeito ou de outro, não nos dá respostas exatas e definitivas. Dentre o que foi avaliado, temos O portal Terra que listou “os nomes da nova geração da Nova MPB”. A lista contempla sete artistas: Anavitória, OutroEu, Gilson, Silva, Rubel, Duda Beat e Jão. Esses artistas estão entre os que mais nos remete à Nova MPB, se nos guiarmos pelo sentido popular do termo.

Neste cenário entre Anavitória e Jão, há também uma cantora e compositora expressiva e emergente, com números consideráveis de ouvintes mensais em seus perfis nas plataformas de streaming. Bárbara Silva é a quem nos referimos, artista brasiliense que, desde 2020 quando retornou de vez à música, vem apresentando suas canções tão amigáveis e com aquele teor pop que agrada a muitos nichos.

Bárbara disponibilizou oito lançamentos até o presente momento, incluindo o EP “Desengavetando Quadros”, de 2021. Em todos eles, ela faz sua personalidade artística única e reconhecível de longe. Curiosamente, Bárbara define-se como membro do movimento Nova MPB. É essa representatividade que nos levou a publicar uma entrevista com ela. Essa entrevista, sobretudo, tem o intuito também de apresentar mais um pouco do que chamamos de Nova MPB e, claro, dar ao termo mais um significado.

Que Bom Te Ter Aqui (clipe) - BÁRBARA SILVA

Matheus Luzi – Bárbara, o que Brasília, sua terra natal, proporcionou no seu ser artístico? O que você acredita que Brasília te ofereceu musicalmente?

Bárbara Silva – Acesso à música, porque, inicialmente, tive a oportunidade de ter contato com o estudo da música em escolas públicas de Brasília, a Escola Parque e a Escola de Música de Brasília. Além da diversidade cultural. Brasília tem pessoas do país inteiro. Sem perceber, a gente adquire essa diversidade.

Matheus Luzi – A sua carreira solo (a que conhecemos hoje) iniciou-se apenas nos seus 34 anos. O que aconteceu antes? E porque iniciar nesse momento?

Bárbara Silva – Eu voltei para a Música. Eu comecei a compor no início da adolescência, tive banda com músicas autorais, estudei na Escola de Música, mas dei uma pausa (resolvi estudar Direito e constituir meu grupinho de gente, filhos). Mas a Música me chamou de volta quando eu percebi que nunca parei de compor. Tinha um tanto de composições soltas. As que mais gostava, eu decorava. Muitas se perderam. Senti falta de viver a Música. Então voltei a estudar e planejar meus projetos no início de 2018 (ou uns meses antes). Lá pelos meus 31 anos.

Matheus Luzi – Você se define como uma cantora e compositora de Nova MPB. O que você tem a dizer sobre este movimento e o que acredita representar dentro dele?

Bárbara Silva – Eu acredito que sim. Estou num movimento de descoberta, que bebe na fonte da MPB e dela não se desvincula. Eu ouço muito os novos artistas e os novos movimentos. A gente hoje tem mais acesso. Fico feliz quando dizem que faço parte disso tudo, só de poder fazer arte já me sinto privilegiada. Acho que todo esse movimento representa possibilidades. São muito movimentos dentro da Arte. E Arte é isso, movimento.

Matheus Luzi – E da música brasileira, quais suas considerações sobre os atuais rumos dela?

Bárbara Silva – Eu acho lindo todo esse movimento. A gente está vendo muitas cenas acontecerem ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que a gente aprecia e reverencia os grandes nomes da nossa música brasileira, acho encantadora muita arte que estou ouvindo e acompanhando. A gente no Brasil tem sorte de ter essa diversidade.

Matheus Luzi – Números são números. Mas fica a pergunta: qual a tradução dos seus números de seguidores de views? O que você acha que isso representa? O que você acredita ter causado boa recepção da sua música?

Bárbara Silva – A forma de consumir e de entregar música hoje é bem diferente de alguns anos atrás. Hoje é possível gravar e distribuir a música em um ponto do mundo e ser ouvido em outro. Esses dias estava pensando nisso. Eu hoje tenho o privilégio de estar bem assessorada e de ter acesso a muito conteúdo bom. No que se refere à música, eu não sei. Eu espero que seja a conexão mesmo. Eu falo de coisas reais, sentimentos, reflexões, talvez seja isso, além da contribuição dos produtores e músicos que trabalham comigo.

Matheus Luzi – Liste três músicas da sua discografia e comente resumidamente sobre cada uma.

Bárbara Silva – “Lembrança Futura” foi feita no início da pandemia, daquelas composições que nascem inteirinhas de uma vez só. Tinha tanto sentimento nela, tanta gratidão ao amor. E fiquei muito feliz com toda a produção dela. É minha música mais bem recebida e isso me deixa mais realizada ainda. A gente se conectar através de bons sentimentos.

“Mais Um Trabalhador” foi composta na minha adolescência. Eu tinha 15 anos. E ainda a considero atual. Ela fazia parte do repertório da minha banda. Eu ainda me lembro de como meu saudoso amigo Darlan (o baixista da banda) arrasava tocando. Coleciono boas lembranças. Ela está na editorial Rock Leve do Spotify há quase um ano.

“Deixa Eu Entrar” é a mais recente e o meu primeiro feat. Dividiu lindamente as vozes comigo Hugo Branquinho. A produção musical do José Cândido. Essa canção foi sonhada. Eu acordei e gravei o áudio (geralmente isso não funciona) e deu certo! Estou realizada com ela.

Matheus Luzi – Há alguma história ou curiosidade sobre sua carreira que mereça destaque nesta entrevista?

Bárbara Silva – Eu poderia dizer que é o fato de ser mãe de três (tenho 3 filhos, sendo uma adolescente e dois pequenos). Isso muitas vezes causa alguma reação nas pessoas. No momento, quero trazer um relato lindo de conexão através da arte. Certa vez participei de um festival de bandas em uma escola particular, num palco bem estruturado, lindo. Os integrantes da minha banda e eu éramos de escola pública, mas conseguimos nos inscrever nesse festival em um bairro nobre de Brasília. Comecei a tocar “Mais Um Trabalhador” e logo pessoas em situação de rua começaram a dançar e aproveitar o show. Eu cantei olhando para eles e foi emocionante. No final, essas pessoas me aguardaram do lado de fora da escola para me dar um abraço. Foi um momento de realização. Acho que consegui levar alguma alegria para eles naquele dia. Foi gratificante.

Matheus Luzi – Agora deixo você à vontade para falar o que bem entender.

Bárbara Silva – Vou aproveitar o espaço para fazer uma observação. A Arte é um patrimônio. De tudo que tenho visto e vivido, algumas coisas se destacam nessa minha fase e uma delas é o valor. O valor que a gente destina ao próximo e a si mesmo. A arte é revolucionária assim como o amor. Então, quero fortalecer meus amigos que vivem de Música, para que não desistam de suas artes (aliás isso serve para todas as pessoas). Tudo tem seu momento. Eu repito isso pra mim. Que todos valorizem a arte. E vamos seguir fortes para dar continuidade a coisas lindas.

Crédito da foto de capa: Clara Lobo

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