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Entrevista

[ENTREVISTA] Fernando Vasques versa a paz em EP de estreia

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(Crédito: Marina Tavares / Divulgação)

O que tem haver a caótica São Paulo e o interior paulista com essa pauta? Vamos explicar. Foi na transição entre ambos os lugares que o cantor e compositor Fernando Vasques passou a inspirar suas canções. Vindo de Botucatu (SP), o músico sentiu o impacto da mudança para a capital paulista e o assunto “paz” o fisgou de vez.

Depois de lançar os singles “O Velho” e “Para o Dia Atravessar” em 2016 e “Mineiro de Fé” no ano seguinte, Fernando lançou, no início do esperançoso 2021, seu novo EP. Já disponível nas plataformas de streaming, “Rapaz Capaz de Paz” é composto por quatro faixas autorais e inéditas, sendo que a canção que dá nome ao álbum recebeu um clipe que pode ser assistido no Youtube. Importante ressaltar que o EP teve todos os seus processos realizados durante a quarentena que, inclusive, o impediu de lançar o trabalho em 2020.

“Eu queria passar a ideia de que estamos de passagem aqui e que, conscientes disso, sejamos protagonistas de nossas vontades de realização no mundo, mesmo diante de todas as adversidades, venturas e desventuras. Esse ‘rapaz capaz de paz’ pode ser para mim um peregrino em exercício constante de ter paz e de ser instrumento de paz, porém, sendo ele canção, desejo que ele encontre seus sentidos afetivos particulares em cada pessoa que cruzar seu caminho”, conta o artista.

Como já citado anteriormente, a vida no interior influencia – e muito – na vida artística de Fernando. É por isso e por outras afinidades que a viola caipira foi utilizada como base de todas as músicas trazendo, então, uma sonoridade diferente ao EP. Outra questão mais do que interessante são as influências de Vasques para esse trabalho. Entre tantos, posso citar Tonico e Tinoco, Beatles, Belchior, Elomar, Raul Seixas, Almir Sater, Alceu Valença, Bob Dylan, Secos e Molhados, Simon and Garfunkel.

“A viola caipira apareceu para mim em minha estreia no teatro, ocasião em que eu executava a trilha sonora de um espetáculo e atuava. Depois disso, a viola foi ganhando cada vez mais a minha preferência para compor. Por sua sonoridade cheia e pela própria influência da música caipira raiz, a viola foi me conduzindo por esse caminho de uma poética singela e direta. Acabou se tornando minha principal ferramenta de composição. Não pela virtuose dos ponteios e floreios, mas pela acolhida harmônica dentro desse universo poético que tanto me encanta e que esse instrumento me oferece”, reflete Fernando.

FAIXA A FAIXA (Fonte: release enviado a imprensa)

“Rapaz capaz de paz” é a canção que dá o nome do EP e a primeira faixa do álbum. Essa foi uma composição feita no período que morei em São Paulo, ocasião em que saturado da rotina agitada da cidade, externei nesses versos com uma harmonia e melodia singela as minhas inadequações e anseios daquele momento. 

“Dia Azul” foi feita em Botucatu, partindo de um lá menor com nona, a melodia e os acordes seguintes foram se anunciando naturalmente como a travessia de um dia. Poeticamente faço essa alusão cromática às sensações causadas pelas relações com a natureza no cotidiano.

“O acaso vem de trem” foi uma canção composta em São Paulo também. Mais uma vez tendo como disparador meus contrapassos de interiorano na metrópole.  Ela já nasce com a intenção de ser simples e de traduzir poeticamente as minhas expectativas daquele momento. O motor desses versos foi a repetição e persistência em extrair melodia e palavras de dois acordes menores, sol menor e ré menor.

“E o fim se fez por onde comecei” foi feita em Botucatu, de um modo que já utilizei, por exemplo, em meu primeiro single ‘Para o dia atravessar’, em que a partir de uma forma harmônica e melódica fixa, crio uma sequência de estrofes para compor a narrativa. Esse mecanismo cíclico dialoga diretamente com a poética da letra e fecha o EP com essa proposição de novos começos.

Matheus Luzi – Fernando, a gente já sabe que o EP surgiu no período pré-pandemia em SP. Você poderia fazer uma análise desses momentos de composições das quatro faixas? Afinal, o que se passava na cabeça de Fernando Vasques?

Fernando Vasques – Foi um período de profunda percepção do meu território de pertencimento geográfico e poético no mundo. Uma época de fricção desse pertencer entre a capital e o interior de São Paulo, precisamente a cidade de Botucatu, onde vivo hoje.

Em São Paulo tive a oportunidade de usufruir de muitas experiências de aprendizagem, tanto através de atividades de formação artística, quanto no convívio que estabeleci com meus pares, além de acessar muitas produções artísticas. Em Botucatu sempre encontrei refúgio na natureza e na zona de conforto dos meus afetos.

Foi na época que compus essas canções que comecei a articular melhor minha carreira e as minhas prospecções artísticas, desejando a conquista de cada vez mais interlocução com meu público, através da tradução poética em canção dessas minhas travessias.

Matheus Luzi – Nas canções, você reflete muito a importância de viver a vida com intensidade, buscar nela aquilo que realmente é bom para nós…

Fernando Vasques – Tenho muito apreço por esses temas. A existência com suas simplicidades e complexidades sempre despertaram em mim essa necessidade de encontrar sentidos para essas percepções na arte. As canções são minhas grandes parceiras nessa vida. Elas são instrumentos de potência que guiam o cumprimento de meus propósitos. Carrego a intenção de que minhas canções também cumpram esse mesmo papel para as pessoas, potencializando o que é bom nelas e intensificando suas experiências de vida.

Matheus Luzi – Para quem é do interior e tem vontade de ir para alguma grande metrópole, essa pergunta é muito oportuna. O que você diria à essas pessoas, já que você saiu de Botucatu e se deparou com a agitada capital paulista?

Fernando Vasques – Eu diria “Vá!”. Ampliar horizontes e perspectivas é sempre bom. Mas não acho que seja uma regra, quero dizer, que seja preciso ir para os grandes centros para encontrar oportunidades e construir sua trajetória. No meu caso acho que fui ampliando meus horizontes internos antes do externo, estabelecendo relações que me levaram a esse epicentro de tantos acontecimentos e eventos que é São Paulo.

Mas tive a necessidade de retornar às raízes e continuar minha carreira por aqui, superando o estigma do fracasso por voltar ao interior, já que São Paulo é considerado o lugar das oportunidades, sobretudo no campo das artes. No entanto, tudo o que consigo realizar hoje, acredito que seria inviável na capital. Acho que cada um reconhece o chão onde pulsa seu coração, o importante é colocar esse coração em situação.

Matheus Luzi – Pegando gancho na questão anterior: qual o motivo da viola caipira no EP, como você a toca nas músicas e que tipo de brilho ela traz?

Fernando Vasques – A viola caipira é um instrumento especial para mim. Ela está presente no imaginário trovadoresco que narra as sagas, os amores e as diversões dos interiores. Essas dez cordas trazem preenchimento para o que tenho a dizer e embora eu tenha começado meus estudos musicais no violão e na guitarra, a viola ganhou minha preferência para compor.

(Crédito: otávio seraphim)

Matheus Luzi – Acredito não ser uma impressão minha o fato de você ser, de certa maneira, muito eclético em suas referências musicais. Portanto, como você enxerga a sonoridade deste EP?

Fernando Vasques – Acho que tenho uma certa gama de referências, mas também não sei em que medida elas transparecem na sonoridade do EP. De todo modo, é curioso o retorno dos amigos, que já me disseram que, ao ouvir, que lembraram de Secos e Molhados, Almir Sater, Nick Drake, entre outros. Eu fico lisonjeado com essas percepções. Eu gosto muito dessa sonoridade das cordas beliscadas da viola e do violão com as cordas friccionadas da rabeca, violino e viola clássica. É um universo que tenho vontade de experimentar mais. Mas também tenho vontade de tocar com banda, baixo, bateria e guitarra, como já fiz em meu single “O Velho”.

Matheus Luzi – Seria muito legal você comentar, resumidamente, a mensagem de cada canção do trabalho.

Fernando Vasques – Essa é uma tarefa complicada para mim. Acho minhas canções tão singelas e diretas em suas intenções, que cada uma por si só já responde. Mas talvez seja interessante fazer um exercício de comentar poeticamente de maneira ainda mais sintética. Vamos tentar:

“Rapaz Capaz de Paz

Não caber-se

Transbordar-se

Verter-se novamente

Dia Azul

Dar cores

Decorar os dias

Pincelar as horas

O Acaso Vem De Trem

Em tempo

Encontro

Espaço

E O Fim Se Fez Por Onde Comecei

A vida

Vai em voltas

Vem e vai

Em espirais”

Matheus Luzi – O que o público pode esperar de novidades suas para este ano?

Fernando Vasques – Fui contemplado em um edital da Lei Aldir Blanc de Botucatu para gravar um novo trabalho. Nesse vou investigar essa sonoridade com banda, como mencionei na resposta acima. Deve ser lançado no segundo semestre de 2021.

Matheus Luzi – Você tem alguma história ou curiosidade interessante sobre o EP? Se tiver mais de uma, fique à vontade para nos contar.

Fernando Vasques – O EP foi realizado graças a um financiamento coletivo e sou muito grato a todos os meus apoiadores. Devido a pandemia, ele foi gravado em isolamento, cada um em sua casa.

Matheus Luzi – Agora deixo você livre para comentar o que quiser.

Fernando Vasques – Muito grato pelo convite, Matheus. Vida longa à Revista Arte Brasileira!

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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