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Gabeu colore a música sertaneja em seu disco de estreia, “AGROPOC”

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Capa do disco.

Há um movimento ousado que ainda pouco está nos holofotes. Se chama Queernejo ou Pocnejo. Um dos artistas que compõem esse grupo é Gabeu, que atualmente mora na capital paulista, mas que nasceu e cresceu em Franca, cidade do interior paulista.

No dia 10 de agosto deste ano, Gabreu apresentou toda sua proposta musical e poética em seu disco de estreia, intitulado “AGROPOC”. Com dez faixas autorais, o trabalho é um passeio pelas mais variadas vertentes da música sertaneja, indo da raiz ou universitário.

No entanto, Gabeu não ficou na “mesmice”. As letras de “AGROPOC” são inteligentes, bem-humoradas e embaladas por elementos da cultura/música pop. Além disso, o músico acredita que o disco é uma arma contra o preconceito, e que pode ajudar outros artistas LGBTGIA+ se inserirem neste mercado.

A gente trocou umas ideias com este brilhante cantor. A entrevista, você confere a seguir!

Matheus Luzi – O álbum foi lançado já há algumas semanas. Acredito que seja um tempo bom para você ter recebido feedbacks. Quais foram eles? Como o público tem recebido este trabalho?

Gabeu – O público recebeu o meu trabalho de braços e coração aberto, desde que lancei meu primeiro single eu escuto coisas do tipo “sou do interior, cresci ouvindo música sertaneja, mas nunca me enxerguei nela”, e me identifico muito com isso, compartilho desse sentimento com meu público e isso nos aproxima. Com o álbum, trazendo diferentes vertentes do sertanejo, senti que as pessoas foram transportadas para diferentes lugares e momentos de suas vidas, com “Filho”, por exemplo, muitas pessoas se identificaram com a música e ela é a mais dramática do disco, isso me emociona muito. Gosto de ver como as músicas são consumidas e interpretadas de diferentes maneiras.

Matheus Luzi – No disco, você traz várias vertentes do sertanejo. Dentre elas, quais você mais se identifica e qual você acredita que tenha mais ligação com o seu olhar e sentir artístico?

Gabeu – Eu gosto muito de um momento da música sertaneja que se mistura com diversos ritmos e instrumentos latinos, dessa pegada exageradamente apaixonada com muitos sopros e um jeito de cantar bem característico de cantores de rádio. Mas também sou muito fã de country, não conseguiria escolher entre esses dois estilos, acredito que ambos moldam a minha persona artística.

Matheus Luzi – Como você chegou à ideia de gravar este trabalho?

Gabeu – O “AGROPOC” é um processo de aceitação do meu eu sertanejo, do meu eu caipira, sem ignorar o fato de eu ser um menino gay afeminado. É a minha tentativa de unir as duas coisas que durante muitos anos pra mim jamais funcionariam juntas. “Amor Rural” e “Sugar Daddy” foram os primeiros singles desse trabalho e ambas têm esse protagonismo gay na narrativa, mas ao mesmo tempo sons bem diferentes. A partir dessa diferença e do amadurecimento de outras composições eu fui entendendo que eu queria explorar diferentes pontos da música sertaneja, e tratei de fazer esse resgate, essa visita de volta às origens, a história da música caipira que consequentemente também faz parte da minha história. A ideia da rádio surge em determinado momento para que eu conseguisse dar liga nessas músicas todas, que são bem diferentes umas das outras, e no final acho que funcionou super bem. O nome, é subversivo, assim como boa parte do que nós do movimento Queernejo estamos propondo, é a tentativa de ressignificar símbolos, como o chapéu, a bota, a fivela, termos como caipira e o agro.

O ‘AGROPOC’ é um processo de aceitação do meu eu sertanejo, do meu eu caipira, sem ignorar o fato de eu ser um menino gay afeminado. É a minha tentativa de unir as duas coisas que durante muitos anos pra mim jamais funcionariam juntas.”

Matheus Luzi – Pode parecer ambicioso da minha parte, mas desde que ouvi seu álbum já me veio a sensação de que você pode estar repaginando e revolucionando o sertanejo universitário com o seu jeito único de ser.

Gabeu – Eu não me considero um cantor de sertanejo universitário, me considero um cantor sertanejo, mas também Queernejo e Pocnejo. Parte do meu trabalho é, para além de trazer discussões e pautas de representatividade LGBTQIA+ no sertanejo, fazer um caminho de volta na história da música sertaneja e resgatar uma musicalidade que não é tão explorada hoje em dia. É muito difícil para mim me enxergar dessa forma, mas ouço isso também, de como é revolucionário o que estou fazendo, mas por se tratar de algo que pra mim é tão natural e por eu não ter esse olhar de fora, parece algo muito mais simples, sabe? Fico muito feliz de saber que estou fazendo a diferença na vida de algumas pessoas!

Matheus Luzi – Você também é um humorista nas letras de “AGROPOC”. Isso enriquece muito a sua música e, inclusive, te torna mais especial.

Gabeu – Gosto de trabalhar com o humor, gosto de fazer críticas a partir do humor. Alvarenga e Ranchinho foi uma dupla caipira bem antiga, cantores de rádio, atores, humoristas, que carregava suas músicas de humor e inclusive de algumas críticas sociais que faziam sentido naquela época, obviamente um outro contexto político-social brasileiro, mas isso me influência de certa forma. Venho do teatro, e já participei de peças teatrais de temática caipira, de comédia, então é um lugar que eu gosto de explorar, fora também o fato de que há 23 anos eu vejo o meu pai fazendo palhaçada em cima dos palcos, isso talvez tenha um certo efeito sobre mim também [haha]. O humor e o duplo sentido sempre fizeram parte da música sertaneja, e eu acho que por esse caminho eu consigo aos poucos também estabelecer pontes e diálogos com os que estão do lado de lá e, claro, estão abertos a essa nova possibilidade de sertanejo. Uma parte significativa de pessoas que me acompanham e interagem comigo nas redes sociais são mulheres mais velhas, senhoras ouvintes de sertanejo, que talvez pelo viés do humor, acabam se aproximando um pouquinho mais do que estamos falando. E no fim é sobre isso, é pra gente rir? Sim, muito! Mas é também pra gente pensar.

Matheus Luzi – Sobre a música pop dentro do disco, quais comentários você pode fazer?

Gabeu – Não diria a música pop, eu diria a cultura pop como um todo. Grande parte das minhas referências estéticas e audiovisuais vem da cultura pop. Sou grande fã de Lady Gaga e Miley Cyrus, inclusive ambas têm um pé ali na música country! Acho que é muito enriquecedor para o Queernejo o fato de bebermos de diversas fontes, da música caipira, do pop, do rock, do cinema, da moda, as possibilidades são infinitas com tantas referências, e cada artista do movimento tem feito um trabalho autoral muito único. Mas especificamente dentro do álbum, a faixa mais pop é “Esconde-Esconde”, que mistura o acordeom com uma batida de reggaeton, ritmo pop latino que vem tocando muito nos últimos 5 anos, e o funk, que também é um dos gêneros musicais mais populares do Brasil. Acho que esse apanhado de coisas deixa todo o disco com uma atmosfera mais pop.

“[…] ’AGROPOC’ é uma viagem pela linha do tempo do sertanejo, que leva a gente para os primórdios da música caipira, mas também nos impulsiona para o futuro.”

Matheus Luzi – Sobre sua carreira como um todo, essa pegada que você trouxe em “AGROPOC” irá se manter? Ou você irá abrir novos horizontes?

Gabeu – Tenho tantas ideias para futuros projetos, mas acho que minha cabeça hoje está tão focada no “AGROPOC” que não consigo dizer nada com certeza do que me espera criativamente lá na frente. Existem alguns pontos e momentos da minha vida que eu gostaria de compartilhar em minhas composições, existem outras sonoridades e visuais que eu gostaria de experimentar também. Mas uma coisa é certa, a música sertaneja vai ser a base!

Matheus Luzi – Levando todas as respostas anteriores em consideração, te pergunto: Quem é o Gabeu artista e como tentar definir “AGROPOC”?

Gabeu – Sempre difícil responder perguntas do tipo, porque eu acredito muito que as coisas estão em constante mudança. Mas hoje, eu diria que o artista Gabeu é o que eu gostaria de ter tido quando eu era mais novo, alguém que fizesse eu me sentir mais possível no meio sertanejo. E o “AGROPOC” é uma viagem pela linha do tempo do sertanejo, que leva a gente para os primórdios da música caipira, mas também nos impulsiona para o futuro.

Matheus Luzi – Você colecionou boas histórias sobre os processos do álbum? Há alguma que mereça destaque?

Gabeu – Sim! Eu adoro contar sobre as gravações de “Bailão”! Essa música tem um coro de vozes que traz a sensação de música ao vivo, essa foi uma das primeiras a serem gravadas, nem estávamos em período de pandemia ainda então reuni uma galera, amigos e familiares para irem até o estúdio fazer a gravação! Mas me senti um palhaço [hahaha], porque para captar as vozes não podemos ter a música ali, então tivemos que ficar gritando e batendo palmas sem música alguma, e como ninguém ali tinha experiência de estúdio eu tive que fazer a direção, mas eu também estava meio que patinando, sabe? Todo mundo meio tímido, mas no final o resultado ficou incrível!

Matheus Luzi – Agora deixo você livre para dizer o que quiser!

Gabeu – Quero ressaltar a importância de se trazer discussões sobre representatividade para dentro do gênero musical mais tocado no país! O movimento Queernejo é um movimento de jovens artistas LGBTQIA+, independentes, que estão sendo ousados e corajosos o suficiente para bancar esse discurso em um meio que é carregado de preconceitos, e não apenas de gênero e sexualidade, mas também preconceito racial, por exemplo. É importante que a gente se pergunte sobre a ausência de certos tipos de corpos em determinados espaços e que a gente discuta sobre para que isso ecoe e comece a provocar mudanças.

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