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Entrevista

Gabriel Malta, o cantautor gaúcho “perigoso” e “fora da lei”

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Todos nós sabemos, não é novidade, que a música é – e sempre foi – um produtor comercial, a serviço dos “reis e faraós”. No entanto, alguns desses “produtos” são fora da lei, estão a margem, e incomodam muito.

No passado, talvez esse cunho mais transgressor fosse mais forte. No atual momento, as mesmices comerciais tomaram o terreno, mas há alguns artistas que não se rendem a esse mercado, e um deles é o “perigoso” cantor, compositor e instrumentista gaúcho Gabriel Malta.

Assim como ele mesmo demonstra na entrevista que você lê a seguir, Gabriel é um cara que, mergulhado na arte, na filosofia e nos versos da vida, adotou um estilo de viver que é comandado por ele mesmo, o que está expresso nas suas ideias, seja fora ou dentro do que mais ama fazer: a música!

É por esse e outros motivos, que a musicalidade deste jovem músico transcende o comum. Gabriel é folk, é rock, é blues. É um misto de universos, de pensamentos, de canções.

“Homens de verdade criam, criam a partir das próprias experiências e ideias, e quando preciso, matam – matam os movimentos antecessores quando chegado o momento, da mesma forma como fez Oswald de Andrade com a sua poesia antropofágica, o que fizeram os pintores dadaístas e o que fez Edu K com o próprio rock gaúcho: destruir o antigo para instaurar o novo.”

Matheus Luzi – Você é um cantor e poeta na contra maré. O que te levou para esse caminho?

Gabriel Malta – Acredito na existência de uma justificativa válida à abordagem cética enquanto um modelo fixo de pensamento na era em que a gente vive, pois raramente as coisas que se apresentam diante dos nossos olhos quando advindas das mãos da indústria cultural do entretenimento ou mesmo das fontes supostamente confiáveis de informação apresentam a verdade tal qual ela é, ou tem objetivo outro que não de o de tornar a população dócil através de mentiras e incutir o mal nas nossas vidas através da ignorância – e aqui isso é inteiramente uma opinião pessoal minha, embasada na forma como eu interpreto a realidade em que eu vivo.

Admito que tenho uma visão pessimista do mundo em que a gente vive, mas apesar de encarar o estado de corrupção do mundo e da humanidade dessa forma ainda assim me considero positivamente um existencialista no sentido de que, acima de tudo, acredito que sempre vá ser relevante que as pessoas procurem formas de juntar forças e levantarem-se para clamar pela própria liberdade, liberdade essa que todos nós temos como direito natural desde o momento em que nascemos mas que só passamos a ser os seus titulares no momento em que passamos a exercê-la ativamente através das nossas ações.

Não importa o quão corrompida esteja a nossa sociedade no âmbito moral, político, econômico e por aí vai… entendo que nasci dentro de um sistema construído para me manter cativo e fazer acreditar nessa ideia de que de que o espírito do homem é pequeno, que não temos o poder de mudar o nosso próprio destino, de escolher entre o bem e o mal com nosso livre arbítrio.

Não é essa a visão que eu tenho da vida, acredito que sempre existe uma opção de rejeitar se submeter aos poderes vigentes, e no meu caso a forma que encontrei de fazer isso é de, em termos de atitude enquanto artista, optar por fazer o que eu quero e tocar o que eu gosto de tocar, não botando a vontade das gravadoras, rádios e algoritmos acima da minha arte apenas para garantir um sucesso comercial – sei que a minha felicidade vale muito mais do que qualquer bem findável que o dinheiro e o materialismo pode me dar, isto é, a felicidade de ter a certeza de que vivo e morro de acordo com as minhas próprias crenças e que enquanto respiro estou diariamente me esforçando para atuar no mundo enquanto um pensador livre dentro do que me é possível.

Acho, particularmente, que todo o homem deveria buscar desenvolver em si em potência, isto é, internamente de maneira latente, a força de agir seja politicamente, quanto artisticamente, eticamente – e essa é uma visão que desenvolvi inspirado, em muito, pelo filósofo e escritor brasileiro Gerard Lebrun, que em suas críticas à filósofa Hannah Arendt fala sobre a importância da liberdade estoica. O homem que não depende de terceiros para agir com propriedade no mundo é livre, e foi inspirado por essa vontade de me tornar um homem livre a partir do momento em que percebi que os corpos dóceis do Estado e da elite no geral atuavam sobre mim de inúmeras maneiras, que passei a trilhar esse caminho de, como tu nomeou, de ser um ‘’cantor e poeta na contra maré’’.

Tecnicamente, não acho que minha música carregue tanto, no significado das letras e tudo o mais, esse sentido de revolta – as letras não carregam a mesma mensagem explícita contra o sistema como se era perceptível em outros momentos na história, em subculturas como o movimento punk – na realidade falam de assuntos bem subjetivos e contingentes, que não dizem muito respeito ao coletivo. Mas isso também tem um por que. Eu adoto esse pensamento cético e transgressor de forma filosófica na minha vida pessoal, é o que me motiva a fazer música, mas não o que determina o conteúdo dessa música que eu faço. Eu não utilizo essa abordagem enquanto tema das minhas canções por que na minha concepção até mesmo a ideia de cantar e levantar a bandeira anti-establishment dentro do contexto artístico e não pessoal, como atitude e estilo de vida que permeia todas as ações do artista enquanto pessoa acabou por virar um subproduto cultural rotulado e inofensivo que não mais configura uma ameaça à ninguém que detenha poder – governantes não temem bandas de rock, mas podem ter certeza que temem pessoas que estão atentas ao funcionamento dos seus mecanismos de opressão, e que exprimem isso de forma não óbvia, que está imprevisível sob o radar deles. A subversão como elemento conceitual acabou se tornando somente mais um produto a ser vendido aos consumidores por quem detém o controle e a influência sobre a indústria da música, e é mais um tiro que saiu pela culatra do que de fato algo que possa ser usado contra o sistema, no meu entendimento – instaurar a anarquia através de idiotas úteis ao invés de ir contra os tiranos estabelecendo teses sólidas e bem estruturadas de um ponto de vista argumentativo é um dos propósitos do surgimento da maior parte dos movimentos sociais progressistas da década de 70, que embora me influenciem muito em termos de estilo, jamais passaram despercebidos pelo meu senso crítico e analítico de sua filosofia.

Existe um livro chamado ‘’Weird Scenes Inside The Canyon’’ que fala sobre como grande parte dos movimentos culturais do início da década de 70 tem conexões militares e elitistas. Sei que essa é uma tese que talvez seja cara aos meus fãs que são adeptos do movimento punk, dentro do qual eu mesmo estive inserido durante muito tempo enquanto frontman, mas tenho o suficiente para acreditar que não somente o movimento rock’n’roll, mas no geral todas as grandes expressões culturais que pregavam a subversão e que posteriormente viraram grandes subgêneros musicais, como o movimento flower power dando origem ao rock psicodélico e progressista, a tropicália no Brasil, a MPB enquanto um rótulo, o hip-hop e o movimento punk, etc, são construtos sociais com forte engenharia social em sua base. Minha interpretação geral para isso é que se algo chega ao mainstream e é grande o suficiente graças ao apoio e veneração excessiva que recebe da mídia, é grande a possibilidade de ser um movimento forjado pelo próprio poder que eles querem combater.

É por isso que não confio cem por cento e nem deixo me rotular por completo com base em nenhum gênero musical ou estilo – acredito que, paradoxalmente, no âmbito político dos tempos atuais, a forma mais adequada de agir politicamente seja de forma isolada e disforme, sem dar a possibilidade de rotularem e associarem o teu pensamento sob o espectro de um determinado movimento político, pois é assim que se desmantelam os núcleos de significativo poder intelectual.

A forma que encontrei de me manter perigoso foi voltando-me para a Filosofia, na mesma proporção em que me voltei para a arte e para a música. Devemos sempre, dentro do possível, procurar uma forma de nos mantermos ameaçadores e perigosos, pois eles podem ter ao seu favor o poderio bélico e militar ou o que quer que seja ao seu dispor, mas nada disso se equipara ao poder que a consciência humana tem em si.

O músico que age sem uma motivação racional por trás do que canta e das atitudes que traça no arco do tempo, sendo anarquista somente por ser, em um emprego vazio da própria existência e determinação, está agindo exatamente da forma prevista pelas pessoas que o dominam. Quer dentro da lógica, quanto dentro da vertente de pensamento teológico, todas as correntes de pensamento, tanto secos quanto molhados, reconhecem o poder insuperável que a mente humana possui – somos uma besta da nossa própria categoria nesse sentido, e somente nós que fechamos os olhos à isso – eles, que estão no topo da hierarquia e detém o poder, tanto sabem da força que o ‘’bem’’ e que o homem tem no mundo, bem como da capacidade que uma mente livre possui, que empenham-se dia e noite e com todas as suas forças para construírem novas formas de tornar a população submissa e voltada para o mal e para a bestialidade. Como Camus disse, o ato de rebeldia é a coisa mais humana que podemos fazer, e é por isso que sou um poeta fora-da-lei.

Matheus Luzi – Já sei que você também é um artista que critica muito os que fazem da arte uma questão comercial. Afinal, quais são exatamente os seus pensamentos a respeito do assunto?

Gabriel Malta – Não critico fazer da arte uma questão comercial, ficar rico fazendo aquilo que se ama é uma consequência que pode acontecer, é verdade. E o músico não deve almejar ser pobre pra permanecer íntegro de forma alguma, nem muito menos dar ouvido a qualquer coisa que eu diga ou faça como conselho de vida – defendo que as pessoas ajam da forma que elas bem entenderem pra realizarem os fins que elas pretendem atingir em vida, se o teu propósito for só ficar rico através da música sem dar o mínimo pra qualquer outra questão envolvida, é uma escolha tua, pode fazer o que tu quiser só não espere que pessoas como eu, que pensam diferente, guardem algum respeito ou admiração por atos que carecem de honra – o que eu digo é que eu tenho a minha escolha bem clara na minha mente, que é a de explorar a arte em toda a sua profundidade, e não me importo se pra isso eu precisar por dificuldades financeiras. A vida afinal, até onde a gente pode saber, é uma só, e no meu entendimento é também de uma finitude muito curta no tempo para nos atermos à obsessões materiais ao invés procurar por experiências, ao invés de bens. Eu todo esse tempo passei a minha trajetória na música procurando chegar em canções que tenham sido escritas pelas minhas próprias mãos, e que fossem impregnadas com a minha própria essência, com a minha voz. Sucesso com a música pra mim é chegar no patamar onde ela antes de ser uma profissão, é um estilo de vida, que te possibilita pegar o teu instrumento e tocar um setlist inteiro de músicas que tu goste e que te tragam felicidade em saber que tu quem escreveu-as.

Mas minha crítica, como tu perguntastes, é dirigida às pessoas que fazem do dinheiro o motivo para escreverem – acho um desperdício da relação que tu poderia ter com o processo criativo que pode ser tão profundo, e uma forma vazia de empregar a própria existência. O dinheiro é bom, e entendo que uma das funções do homem é prover. Mas consigo pensar em poucas coisas tão baixas quanto a redução da própria grandeza artística para se adequar nas pequenas, limitantes e previsíveis demandas do que é comercial. Entendo, de qualquer forma, que a busca pelo sucesso comercial e o ato de adequar a própria sonoridade, tem uma relação com o sentido estético da Filosofia da arte. Algumas canções inegavelmente possuem força, grandeza e beleza incontestáveis e acabam forçando-as a entrar no imaginário cultural até hoje  – esse, pra mim, é o grande diferencial da música folclórica, não existe nenhum poder que pode a conter, a sua força é irrefreável quando a canção é boa.

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Matheus Luzi – Quais ideologias e comportamentos transgressores estão alinhados a sua arte, sua música, sua poesia?

Gabriel Malta – Não siga líderes, faça você mesmo, viva com pouco e seja grato às coisas que Deus dá, vá atrás das ferramentas que tu precisa pra intelectualmente e fisicamente se tornar a melhor versão de si mesmo possível e tenha coragem de morrer se for preciso por aquilo o que acredita. Essas são coisas que, como costumo repetir sempre onde vou, não são de forma alguma distantes de se conseguir, podem ser custosas e exigirem disciplina, mas são virtudes naturais cujas possibilidades de obtenção nos cercam literalmente em todos os lugares que a gente vai. Outra coisa que é de extrema importância pra Filosofia da minha arte é o desconforto. Não acho que essa vida tenha qualquer coisa a ver com uma fuga da dor e do sofrimento, e sim o entendimento e o enfrentamento de ambos, com coragem. Essa é uma das coisas que significa ser um homem pra mim, manter o desconforto por perto para assim a vida ser uma constante oportunidade de aperfeiçoamento. Eu tenho uma frase de minha autoria que exprime bem o meu estilo de vida e forma de pensar: Be who you are, with what you have, where you at. (Seja quem você é, com o que você tem e onde você estiver.)

Matheus Luzi – Por se tratar de um brasileiro, acho que cabe bem essa pergunta. Como se deu o seu contato com a música country, o folk, o blues e o rock?

Gabriel Malta – Através dos discos de vinil que escutei durante o início da minha juventude – acredito que seja uma das possíveis influências benéficas que a cultura ocidental teve sobre mim. Como disse antes, eu antes de ser um cantor dentro do folk, do blues e do country etc. participei de projetos com sonoridades bem diferentes de tudo o que eu produzo hoje, e cheguei a estudar vertentes musicais completamente não relacionadas com o que eu canto e toco hoje em estética, como o violão erudito e música gospel. Mas ter essa bagagem musical foi algo muito útil quando decidi que era hora de romper com o que eu vinha fazendo na cena de Porto Alegre com o rock gaúcho, e então pude escolher dentro dos gêneros com os quais eu era familiar aquele que melhor se adequava ao que eu queria comunicar, e foi o folk, com sua simplicidade e cadência, lirismo e mistério que melhor casou com o sentimento que habitava o meu coração na época e o material lírico que eu vinha produzindo, longe dos holofotes, no meu mundo particular, entre sessões de fotos com os Indecentes, shows, ensaios, noites de festa… sempre escapava e escrevia alguma pequena poesia, algum pequeno verso no qual eu reconhecia beleza mas não via nenhum espaço dentro do ambiente em que eu me situava. Então parti e construí com o pouco que eu tinha esse ambiente que eu desejava, só eu e meu violão. Sempre tive familiaridade com o folk, sempre fui um grande fã e entusiasta da obra do Leonard Cohen principalmente, o primeiro artista do gênero que deteve a minha atenção, seguido do disco ‘’Industrial Ballads’’ do Pete Seeger e ‘’Songs to Seagull’’, da Joni Mitchell. Todos esses álbuns ainda me trazem lágrimas aos olhos quando os escuto, pois me trazem a lembrança dessa sensação tão estranha que é quando tu entra em contato com algo que instantaneamente sabe que vai mudar pra sempre a tua vida, mas ainda não sabe explicar como, embora na hora exata em que acontece essa mudança tu saiba que foi por conta daquilo.

Uma pessoa que teve uma grande importância na virada criativa envolvendo o meu primeiro trabalho formal de estúdio, o SHAMROCK, foi o produtor Gabriel Boizinho, recomendação instantânea do engenheiro de som com quem eu estava trabalhando na época quando entrei no estúdio e mostrei, como um referencial pra um efeito específico de guitarra que eu estava tentando recriar, a música ‘’Come Closer’’, do britânico Miles Kane. ‘’Precisamos trazer esse cara pro projeto, se tem alguém nessa cidade que sabe exatamente como recriar todos esses timbres ingleses que tu me mostrou desse cara aí e do The Last Shadow Puppets, é o Boi’’ ele dizia. E lá estávamos nós todos então, alguns telefonemas depois, no estúdio ouvindo Miles Kane e me ouvindo tocar o punhado de canções que eu tinha, com meu violão Martin e uma gaita harmônica com algumas casas estouradas, canções que ainda estavam em uma versão bem ríspida e muito diferente do que vieram a se tornar no resultado final. Foi na sorte que conseguimos encaixar o Boi no projeto, pois ele recém havia passado pelos hiatos da banda dele [Cachorro Grande] e estava pela cidade excepcionalmente naquele dia. Essa sorte foi a mesma que perdurou por todo o projeto, quase como que uma aura que orientou todos os meus passos e me possibilitou fazer coisas que normalmente eu não conseguiria por conta própria naquele período da minha vida, abrindo portas onde não haviam chaves e me tirando de um monte de situações que tinham tudo pra dar errado, mas que acabavam sempre saindo da melhor forma possível. Esse foi o motivo de eu ter denominado o álbum ‘’SHAMROCK’’, nome de um amuleto de sorte irlandês associado ao trevo de quatro folhas.

Antes dessas participações ilustres chegarem ao projeto, a maioria das minhas canções eram canções de rock e baladas lentas (a própria faixa ‘’The Girl With the Messy Hair’’ era uma canção BEM devagar, feita com voz e piano, e após a sugestão do Eduardo Nichele, produtor e técnico de mixagem do SHAMROCK, virou uma canção com um andamento bem superior e mais energética) e progressivamente, após essa troca com os produtores e uma curadoria minuciosa ao acervo de canções autorais que eu tinha à disposição na época, selecionamos músicas que penderam pro folk psicodélico e ao indie rock. E aí começou também a se aprofundar o meu gosto pelo gênero, e passei a escrever bem mais canções voltadas ao western music devido ao sucesso que elas tiveram com o público – o meu novo single, ‘’At Least I’ve Tried’’, é um exemplo disso.

“Algumas canções inegavelmente possuem força, grandeza e beleza incontestáveis e acabam forçando-as a entrar no imaginário cultural até hoje  – esse, pra mim, é o grande diferencial da música folclórica, não existe nenhum poder que pode a conter, a sua força é irrefreável quando a canção é boa.”

Matheus Luzi – Agora sobre o rock gaúcho. Como você enxerga o movimento atualmente? E mais: como você faz dele uma de suas expressões musicais?

Gabriel Malta – O rock gaúcho ainda faz parte da forma como me expresso musicalmente, costumo tocar nos meus shows versões acústicas de músicas como ‘’Modern Kid’’ do Jupiter Maçã, que ganha uma beleza soturna e excêntrica, totalmente diferente da versão de estúdio quando executada só com a voz e o violão (pra essa adaptação, tive o insight quando assisti uma entrevista antiga em que o Flávio Basso toca a música acusticamente no início de uma entrevista no Jornal do Almoço, jornal aqui da cidade) e provavelmente o meu maior ídolo local que incorpora tudo o que eu acho foda na atitude de alguém seja mesmo o Edu K. Nos meus shows e também na minha relação mais particular com a música, me considero um guitarrista na mesma proporção que me considero um compositor, tenho tesão pelo instrumento e me agrada ficar horas e horas tocando, ou mesmo discutindo sobre os equipamentos e admirando a beleza de uma bela guitarra, e nessa minha relação com a guitarra fui muito influenciado por guitarristas e figuras locais do meio do rock gaúcho na mesma proporção que todo garoto acaba recebendo influências de nomes como Jimmy Page, Hendrix, Jeff Beck… os meus professores foram ver Lucas Hanke no palco, tocando com o ‘’Identidade’’, talvez a minha banda de rock gaúcho favorita de todos os tempos e, é claro, a relação simbiótica no palco entre o Charles Master e Tchê Gomes, ao meu ver uma relação tão icônica no palco quanto a dos Glimmer Twins, Steven Tyler e Joe Perry, Johnny Marr & Morrissey ou mesmo Alex Turner e Miles Kane.

Embora tenha ficado de fora ainda dos últimos registros que fiz até atualmente por musicalmente termos ido por outro caminho enquanto equipe, eu e os músicos que me acompanharam no projeto do ‘’SHAMROCK’’ e do EP ‘’WHO THE FUCK IS GABRIEL MALTA?’’.

De qualquer forma, não acho que o rock gaúcho em sua completude enquanto movimento só tenha proporcionado coisas boas pra cena daqui, tem na realidade muitos pontos negativos e retrocessos associados a ele, na minha visão. Vejo que muitas cabeças dessa minha nova geração ainda são muito apegadas à mentalidade instaurada nos anos 80 e 90 por essas figuras míticas que habitaram outrora as mesmas ruas nas quais hoje somos nós que fazemos música, e acabam ficando estagnados no passado e não produzindo nada de novo ou diferente – querem ser uma versão sem originalidade e sem carisma do Júpiter Maçã só por serem fisionomicamente magricelos e empenharem todas as forças em serem esquisitos, se jogando no chão nas performances e fazendo uma cena ridícula sem se darem conta que na realidade aquilo tudo é só um retrato da própria mediocridade e passividade criativa.

Homens de verdade criam, criam a partir das próprias experiências e ideias, e quando preciso, matam – matam os movimentos antecessores quando chegado o momento, da mesma forma como fez Oswald de Andrade com a sua poesia antropofágica, o que fizeram os pintores dadaístas e o que fez Edu K com o próprio rock gaúcho: destruir o antigo para instaurar o novo. Tento olhar para o passado dessa forma, e não da forma de quem não somente se inspira, mas tenta copiar ao invés de criar algo próprio e dinâmico, oriundo de si. Não basta ser branco e usar um cabelo moptop para ser o Júpiter Maçã – tem que ter culhões. Mas muita gente aqui da cidade ainda pensa assim…

“Não siga líderes, faça você mesmo, viva com pouco e seja grato às coisas que Deus dá, vá atrás das ferramentas que tu precisa pra intelectualmente e fisicamente se tornar a melhor versão de si mesmo possível e tenha coragem de morrer se for preciso por aquilo o que acredita.”

Matheus Luzi – Suas músicas (as que escutei) estão todas com letras em inglês. Por isso, fiquei bastante curioso para saber o que elas dizem.

Gabriel Malta – Minhas canções falam de assunto muito diversos. Das do ‘’SHAMROCK’’, a maioria trata de experiências na cidade, e o sentimento central desse trabalho é o de partir e não olhar para trás quando nos encontramos ilhados em um lugar com o qual não mais encontramos nenhuma identificação, partir rumo ao desconhecido nem que seja só com a roupa do corpo e um violão. Esse trabalho tem uma ligação arquetípica e simbólica muito forte com o primeiro arcano maior do Tarot, justamente o que traça esse marco de um ‘’começo’’ da mesma forma como o Shamrock marcou o início da minha carreira com a música: a carta ‘’O Louco’’, a qual está representada na capa do meu primeiro single, na música ‘’The Ballad of Electric Daydreams, em uma arte feita pelo artista Samuel Isatto, traz a carta conforme vista no tarot de Marselha porém adaptada com imagens do meu mundo pessoal, como a jaqueta de couro perfecto da Schott’s NYC, um cão branco e um case de violão, o mesmo que estou segurando na capa do EP fotografado pela fotógrafa Bruna Nunnes, na beira de um precipício. Também os singles que constituem a obra possuem uma linha cronológica na forma como eu pensei-as para o disco, traçando uma mensagem que só fica clara após ouvir o EP inteiro; A primeira faixa (The Ballad of Electric Daydreams) é sobre estar em um lugar onde a mudança e a revolução são só ideias vazias habitando o discurso de pessoas que se apropriam desses assuntos de forma utilitária para se autopromover e que na realidade nada entendem do que dizem, subestimam a profundidade real que a vida tem com sua erística e com seus jogos de palavras [And I’ve been tired of all this folks around with the usual downton sickness writing down cheap poetry pretendig life is just a simple easy solving mess]. Esse é o lugar na boemia onde todos se enxergam como revolucionários, e onde na realidade nada muda, tudo permanece o mesmo [‘’Nothing really changes around there’’]. A música pra mim fala também sobre como apesar de essas mentiras joviais serem sinuosamente sensuais, uma hora como parte natural do amadurecimento humano elas param de ter um sentido, e é exatamente nesse momento em que devemos movermo-nos em frente, abandonando a ignorância que um espírito eternamente entregue à opiniões mal fundamentadas [Since I can remeber all this trouble seems so pretty, I can’t exactly realize the time it all becameso twisted, i can hear that something calls my name but I’m stepping again on the wrong side of the tracks). The Girl With the Messy Hair é um lembrete de que é a dificuldade que cria homens fortes – tempos difíceis e adversidades criam homens aptos para lidar com a imprevisibilidade do mundo [Hold me down, cause I’m a man, Need to walk with no direction home]. No Sympathy Blues fala sobre a ausência de uma identificação e empatia quanto a um mundo que faz as pessoas involuirem e que toma muitas vezes permanentemente uma parte da essência de cada um [The hole in my soul, their play with dignitiy / as she crawls and begs for more / I have tried but I can’t find no sympathy]. É também sobre achar uma forma de construir uma conexão consigo mesmo, ainda que isso leve tempo ou seja algo extremamente difícil de se empreender – não fugir do mundo, mas bater de frente com ele para reconectar-se com a sua própria alma através do blues, do sofrimento que sentimos quando em contato com a dura realidade da vida [doesn’t matter that the brigdes are all burnt, I walk the road down]. Even Sunflowers Grown Into the Wastelands apesar de bem densa liricamente e em suas simbologias, em uma breve análise eu diria que fala sobre o que o próprio título implica; mesmo quando nos encontramos no piro dos cenários, é preciso e sobretudo possível seguir em frente e renascer das cinzas.

Matheus Luzi – Agora peço para você selecionar de duas a cinco canções de sua discografia, e para fazer um breve comentário sobre cada uma, incluindo análise conceitual, da letra e da musicalidade como um todo.

Gabriel Malta – “At Least I’ve Tried” – Eu entrei em contato com a escrita de Ernest Hemingway durante o período em que escrevi as canções que do EP ‘’WHO THE FUCK IS GABRIEL MALTA?’’, e foi influenciado em especial pelo seu maior clássico, ‘’The Old Man and the Sea’’ que extraí um a última inspiração que me faltava para fundamentar a mensagem da música ‘’At Least I’ve Tried’’ em firmes alicerces: essa canção fala principalmente sobre a honra de um homem não depender da sua reputação ou feitos mas do que ele acredita e das coisas que defende [‘’Where ends the deep blue sky if I don’t make it back home / I’m living knowning that she knew my best’’] mensagem que eu já queria comunicar antes, mas que lendo o livro de Hemingway tive a oportunidade de meditar sobre o assunto mais profundamente. Lembro que os primeiros versos da música eu escrevi logo após um poema intitulado ‘’If I Had a Farm In Vietnam’’. Tanto esse poema quanto a música foram pensados inicialmente para ser uma ode aos jovens soldados que morreram na guerra do Vietnã, ideia que retirei de apetrechos como isqueiros Zippo entalhados com mensagens pelos homens que serviram no campo de batalha, e que no leito opiáceo de viagens de morfina, heroína e toda sorte de drogas pesadas que circulavam comumente nos campos de batalha encontravam nisso e na lembrança dos familiares e pessoas amadas as únicas formas de atravessar aquele cenário dantesco sozinho, sem medo da morte [To die unknown I ain’t got no fear / In my love’s arms I’ve tasted the Paradise]. Eu, na minha experiência pessoal e longe de ter vivido os horrores da guerra, ainda assim me sinto da mesma forma perante a morte, sobre a qual penso frequentemente; Deus me presenteou com toda a felicidade que eu preciso na família e nos braços do meu amor, provar o que quer que seja para terceiros assumirem que eu sou bem sucedido ao invés de apenas viver a felicidade do momento presente que habita as coisas simples é algo que eu dispenso na minha vida, e teria a mesma felicidade em morrer como um completo desconhecido do que a de morrer como alguém famoso ou com uma boa reputação a ser zelada – na morte somos todos iguais. O pintor Otto Dix com seu estilo irreverente e moderno, sempre foi um dos favoritos, e a parte da sua obra que retrata em suas experiências em primeira pessoa do que viu no campo de batalha da primeira guerra mundial e os horrores e impactos do pós guerra (vide as obras ‘’War Cripples’’, o tríptico ‘’A Guerra’’ e as ilustrações em preto e branco feitas por ele durante o tempo que serviu), também me influenciaram a conceber a ideia inicial dessa música, a qual dei continuidade comparando essa similaridade do mundo devastado que nós vivemos com um fim dos tempos em termos de corrupção moral e degradação humana em paralelo com a noção de Idade de Ferro ou Kali Yuga retirada da metafísica hinduísta [Throughout the Hell in ‘bound  to walk no pretty smiles have brought tomorrow day / That ain’t no Sunshine the moment that she’s gone / ain’t no place to hide the blues away’’]. A música é sobre tudo isso, e mais um pouco. Sempre digo que essa é a minha interpretação pessoal do que eu mesmo faço, mas que as canções são algo que não se esgota aí – sempre há espaço para a interpretação do ouvinte.

“Those Pickers and Stealers” – ’Those Pickers & Stealers’’, explora os confins da mente de um pensador livre, em cenas cotidianas e recortes de pensamentos musicados que descrevem uma postura de oposição e rejeição ao mundo moderno e os seus valores. O título da canção é retirado de um fragmento da obra ‘’Hamlet’’, de William Shakespeare (Act 3, Scene 2, Page 15) que, na minha interpretação, é uma obra que também fala muito sobre a necessidade do livre-pensar e do livre-agir, para encontrar uma forma de liberdade que não pode ser tirada do homem. A letra da música revisita a ideia da importância de, para se manter de pé em meio à um mundo em ruínas, é preciso traçar próprios caminhos e evitar manter-se sob o radar do óbvio (e muitas vezes do que é bem aceito socialmente) – ‘’You know I don’t watch the News, my heart is striped in black / I’m just walking my boots amoung those streets out from the maps. I know It was Always you, the only one that stands, those pickers and stealers from a snitching hiding hand.’’

“Hombre Malo” – A música surgiu pra mim quase como uma oração, algo que repetidamente fora sussurrado ao meu ouvido pela minha intuição até que resolvi enfim botar no papel o sentimento. Em poucas linhas, capturava exatamente o que eu sentia ganhando a vida enquanto músico, escritor e filósofo. Sendo artista, e mais especificamente um artista cujo pensamento é por completo fundamentado e na aversão e rejeição aos valores modernos e ao que representa o mundo contemporâneo, me sinto próximo de um fora da lei no sentido simbólico de romper com a ordem vigente de estilos e valores que estão em jogo no mainstream – é por isso que costumo dizer que sou um “artista intuitivo e poeta fora da lei”. Procuro resgatar no passado a inspiração para seguir agindo como um homem de fibra e um home livre no presente, e essa inspiração retiro da música, no pensamento e na moda do passado, e, mais especificamente, no que diz respeito ao country, de figuras como John Wesley Harding, Buffalo Bill e a figura do fora da lei clássico dos spaghetti western que foram arquétipos que utilizei para dar corpo à identidade da canção. A música fala sobre ser rotulado como um homem mal, mesmo possuindo um coração gentil e uma consciência limpa e íntegra. É ser um homem mal pelas circunstâncias e rótulos impostos por esse mundo, injustamente o que ocorre com muitos que, na verdade, são pessoas com valores éticos mais elevados muitas vezes que aqueles que executam em nome do Estado.

“The Girl With the Messy Hair” – Essa canção é a queridinha do publico entre todas as demais que eu lancei junto com o SHAMROCK – talvez pelo apelo mais pop que ela tem, ou pelo refrão grudento, não sei, mas no geral considero uma excelente canção. Antigamente eu costumava creditar a inspiração pra essa música a uma ex-namorada, mas a realidade é que essa canção nada ou muito pouco tem a ver com ela, fala sobre experiências com LSD e a importância de corações partidos e decepções na vida de um homem. Na época em que escrevi, estava ouvindo em looping o disco ‘’The Age of the Understatement’’ do duo inglês The Last Shadow Puppets, e em especial a faixa ‘’Standing Next to Me’’ me levou a, num frenesi de inspiração, escrever essa canção e uma outra que ainda não tive a oportunidade de gravar, intitulada ‘’Dead On ‘67’’.

“Como Albert Camus disse, o ato de rebeldia é a coisa mais humana que podemos fazer, e é por isso que sou um poeta fora-da-lei.”

Matheus Luzi – Quais são seus projetos para o futuro próximo e distante?

Gabriel Malta – Pretendo continuar gravando o máximo de músicas minhas que eu conseguir, tenho realmente muito material autoral pronto pra sair tocando, mas acabo muitas vezes não tendo os meios ainda pra tirá-las do papel, por atuar de maneira completamente independente, sem o apoio de nenhum selo ou gravadora que me disponibilize um estúdio para gravar ou algo do tipo.

Recentemente a grande maioria das canções que escrevi são, supreendentemente, sobre amor. Eu nunca fui o tipo de cara que escreve canções de amor para as namoradas ou músicas excessivamente melosas, sentimentalistas. Eu me considero sim um romântico, mas não costumo com muita frequência utilizar a minha poesia com esse propósito de disseminar o romantismo – não por que eu não queira, mas por que entendo que não é a única utilidade da coisa.

Também algo que me impedia é sempre ter identificado um ar um pouco ridículo na maioria das canções de amor que fazem sucesso por aí, acho pra ser uma boa canção de amor que fuja à essa sensação de vergonha alheia ao escutar é preciso um equilíbrio perfeito da mesma natureza que as canções simples do country exige para chamar a atenção do ouvinte valendo-se de somente dois ou três acordes. Mas nos últimos tempos passei a me permitir sentir essa vulnerabilidade, de deixar de se importar tanto em não parecer ridículo por estar falando de amor ou algo do tipo.

Passei a escrever músicas em português voltadas a isso espontaneamente e me surpreendi principalmente por estar gostando do resultado – passei a escrever não somente sobre o amor romântico, mas também canções de amor para minhas irmãs e familiares, me distanciando assim das temáticas lúgubres e pessimistas dos meus últimos trabalhos autorais e do amor lascivo, luxurioso que era onipresente nas letras que escrevia para os Indecentes.

Estou vivendo um período de contato direto com o amor, e estou ansioso para estrear cantando em português sobre esse sentimento em minha obra!

Matheus Luzi – Agora deixo você a vontade para falar o que quiser.

Gabriel Malta – Queria agradecer pelo convite, e fazer um comentário dirigido à própria classe jornalística. Acho impressionante como no país cada vez mais a imprensa de bom grado vem se ajoelhando e servindo à cultura dos algoritmos de livre e espontânea vontade, e me entristece ver que as pessoas do meio são testemunhas desse empobrecimento cultural e não fazem nada na maioria das vezes.

Sou um artista relativamente novo na indústria da música, só recentemente que fui ter contato com a mídia e ver como as coisas são, então pode parecer que estou fazendo uma generalização injusta, mas ao menos aqui na minha cidade é exatamente assim que as coisas funcionam – jornalistas famosos publicam corriqueiramente matéria sobre o ‘’filho de um tal cara famoso que tem um projeto musical’’ e ignoram o cenário verdadeiramente independente, ficam abertos em publicar nos cadernos culturais qualquer coisa que essas pessoas com influência pedem e optam por só incluírem notas nos sites sobre artistas novos que trabalham em parceria com grandes empresas construídas ao redor do ‘’mercado de reviews de álbuns musicais’’, como o ‘’Groover’’.

Devido a isso, eu não vejo a hora de voltarmos às ruas, onde a música acontece de verdade e onde quem fica em evidencia são aqueles que possuem verdadeiramente a virtude, o talento e a paixão pelo que fazem, diferentemente desse teatro de fantoches que é o ambiente virtual ao qual a música acabou se restringindo nos últimos anos devido à pandemia.

Aqui, quem dita regras pras grandes rádios e revistas é quem tem a maior influência social e não a relevância nem o conteúdo dos feitos que essas pessoas estão produzindo. A revista Arte Brasileira tem o meu apoio, toda a minha admiração e o meu respeito nesse quesito – vocês recebem artistas dos mais variados estilos e estão sempre abertos às novidades que ocorrem na nossa esfera cultural, como é perceptível para qualquer um que acompanha as publicações da revista, e agindo assim vocês fazem sozinhos o papel que todos deveriam estar comprometidos em executar em um cenário ideal onde a cultura nacional fosse levada à sério como uma forma de devidamente valorizar e amplificar a expressividade da essência humana e não trata-la como um produto ordinário da mesma natureza que os que são dispostos em prateleiras de mercado, porém assim não o fazem por que estão mais preocupados com seguidores e algoritmos.

Essa missão é nada mais nada menos que apoiar a cultura nacional em sua completude, com espaço tanto para os artistas consagrados quanto para os artistas emergentes, e vocês estão todos os dias na luta para fazer isso, como eu percebo. Reconheço esse mérito em vocês, e os parabenizo pela coragem. Não é fácil permanecer de pé, íntegro, no mundo distópico em que vivemos hoje, mas nós tentamos. Se precisar, morremos tentando, mas se entregar jamais.

“A forma que encontrei de me manter perigoso foi voltando-me para a Filosofia, na mesma proporção em que me voltei para a arte e para a música.”

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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