22 de setembro de 2026

4º Episódio da série “Clarice no País da Putaria” de Luan FH

 

Sucesso na internet e com dois livros escritos, ‘’Vou te desenhar em braile’’ e‘’Cigarette, sex and alcohol’’, o jovem escritor Luan FH se aventura ao escrever a série escrita “Clarice no País da Putaria”, inspirado em um livro de Clarice Lispector. O projeto foi apresentado com exclusividade pela Revista Arte Brasileira, com dez episódios sendo postados todos os dias no site do veículo. Quer saber mais: clique aqui.

 
4º EPISÓDIO – “Apocalipse”
 
Inverno chegou apertando o frio, você chega e o apocalipse começa, engraçado, não?  —  Só que é uma coisa tão boa. Eu aperto o sorriso, chega fica meio estranho, a felicidade de te ver por perto, a companhia retirando, expulsando toda a solidão. Amanheceu? A mensagem faz o barulho.
 
— Oi, bom dia. Dormiu bem?
— Claro, você não?
— Sim, mas tive um pesadelo. Acordei atordoado. 
— Foi muito feio?
— A realidade é mais.
— Hoje às 19?
— Farol? Claro.
— Vou levar um vinho.
— Lá a gente come algo.
 
Faz um longo tempo que não paro para conversar com alguém, ficar de contatinho, garantindo algo, acreditando que dará certo. Eu conversei umas duas semanas e parece que criei uma ilusão desgraçada na mente; acreditando que esse cara é a pessoa certa para mim. Tudo bem. Às vezes precisamos ficar com alguém, às vezes o mundo desaba e precisamos reconstruir, seguir em frente e ter toda certeza disso. Ele manda fotos sorrindo e eu tenho uma vontade de virar uma astronauta, roubar o anel de Saturno e dar para esse rapaz —  Filho da puta, fiquei apaixonada do nada — Oras, já imaginei em bilhões de coisas ao lado dele. Tipo, ficar observando o céu deitados numa grama ou na areia da praia, fumando e bebendo, rindo de besteira e planejando morar em outro canto, outro país ou sei lá, estado. 
 
— Você vive ouvindo o que?
— Clairo ou Cuco, ambos são fodas.
— Clairo? Ouço chapado.
— Boa escolha.
— Já saiu do trabalho?
— Já, tô indo ao banho. Daqui a pouco estou lá.
— Certo, esperarei.
 
19 horas.
Cheguei em casa 17, tomei um banho, demorei meia hora na maquiagem, ajeitei toda a roupa. Vestido e All Star. É, eu gosto. Solicitei um uber, agora estou no carro ouvindo Cigarette after sex, porque pedi o motorista para conectar o som no Bluetooth. A cidade à noite fica incrível, bonita, solitária, diria que grandes artistas amariam pintar, escrever, cantar e chorar por aqui; O Van Gogh iria amar pintar por aqui —  Pelo menos eu iria comprar suas obras, apesar do sucesso só vir depois da morte — Deixa isso quieto.
 
— Estou chegando.
— Demorou um pouco, não?
— Bom, o trânsito não colaborou muito. 
— Tudo bem. O apocalipse não está acontecendo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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