11 de agosto de 2026

Clarice Lispector – Como seria nos dias atuais?

Clarice Lispector

(Crônica de Brendow H. Godoi)

Quem seria Clarice Lispector se nascida na década de noventa? Talvez, a pergunta mais adequada seja: “o que faria Clarice Lispector se nascida na década de noventa?”.
Pois bem, imaginemos o seguinte cenário: a jovem Clarice, no ano de 2020, lança uma certa novela intitulada “A Hora da Estrela”. Por não ter agente literário, a escritora não conseguiu acesso aos grandes grupos editoriais. Entregou sua obra nas mãos de uma editora independente.
Paralelo ao livro de estreia, Clarice possui um perfil literário no Instagram, denominado “Perto do Coração Selvagem” com pouco mais de quatro mil seguidores. Neste perfil, a escritora compartilha seus textos sanguíneos com o público, que interage pouco, apesar da genialidade de sua escrita.
A verdade é que, se publicada nos dias de hoje, a história de “Macabéa” seria lida por duzentos, trezentos leitores. Este seria o quantum de pessoas que adquiririam o livro da artista ucraniana naturalizada brasileira.

“A literatura brasileira é grande demais para ficar nas mãos desta anemia artística virtual.”

Apesar de triste, Clarice Lispector entenderia, afinal, seu livro não ensinou as pessoas a superarem relacionamentos, ou a serem felizes afetivamente ou a como empreenderem. Em “A Hora da Estrela”, não houve poesia com nomes ou rimas com signos astrais. Apesar do talento descomunal, se nascida na década de noventa, a autora de “Água Viva” provavelmente amargaria o anonimato.
Tal exercício é plenamente aplicável a Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, por exemplo. Em meio à era da autoajuda e de escritos tão rasos e óbvios, eles teriam o devido espaço nos dias atuais?
Estaria a literatura brasileira morta? Fixemos a resposta em não. Todavia, cumpre salientar que apesar de viva, a literatura brasileira enquanto arte agoniza em estado crítico, sufocada pela superficialidade e mediocridade de uma literatura pobre, óbvia e ridícula. Uma literatura comercial, voltada para a busca incessante de holofotes e curtidas.
Existem tronos vagos. Coroas que não foram transmitidas por falta de sucessores à altura. Vivemos um hiato. A mágica se apequenou e tem se mostrado cada vez mais rara. A literatura brasileira é grande demais para ficar nas mãos desta anemia artística virtual.

INDICAMOS ESSA RESENHA:

Manoel de Barros, o poeta que foi “descoberto” aos 72 anos

A literatura feminina e os seus desafios

LITERATURA FEMININA: Eu fiquei sem escrever algo concreto por dois meses. Um bloqueio talvez ocasionado pelo meu anseio por coisas.

LEIA MAIS

CONTO: O Medo do Mar e O Risco de Se Banhar (Gil Silva Freires)

Adalberto morria de medo do mar, ou melhor, mantinha-se distante do mar exatamente pra não morrer. Se há quem não.

LEIA MAIS

Tropicalismo: o movimento que revolucionou a arte brasileira

  A designação de Tropicália para o movimento que mudou os rumos da cultura brasileira em meados e fim dos.

LEIA MAIS

Vá e Veja ou Mate Hitler

Falas do filme: Homem #1: “Você é um otimista desesperado.” Homem #2: “Ele deveria ser curado disso.” Eu particularmente considero.

LEIA MAIS

Música Machista Popular Brasileira?

A música, diz a lógica, é um retrato da realidade de um povo. É expressão de sentimentos de um compositor,.

LEIA MAIS

“Quer casar comigo?” (Crônica integrante da coletânea “Poder S/A”, de Beto Ribeiro)

Todo dia era a mesma coisa. Marieta sempre esperava o engenheiro chegar. “Ele é formado!”, era o que ela sempre.

LEIA MAIS

Francisco Eduardo:  a geometria do corpo e suas personas

 Quando quis tirar a máscara,Estava pegada à cara.Quando a tirei e me vi ao espelho,Já tinha envelhecido. Fernando Pessoa  .

LEIA MAIS

O cemitério velho da cidade de Patu

  Seguindo na Rua Capitão José Severino até o seu final, antes de adentrar pela Praça Padre Henrique Spitz, observa-se,.

LEIA MAIS

PUPILA CULT – O lado desconhecido da “Terra do Rei do Gado”

Assim como qualquer outro lugar, histórias e curiosidades são deixadas para trás e acabam caindo no esquecimento ou até sendo.

LEIA MAIS

Madé Weiner: da atualidade de ressignificar técnicas das artes visuais

  Sempre evitei falar de mim,  falar-me. Quis falar de coisas.  Mas na seleção dessas coisas  falar-me. Quis falar de coisas. .

LEIA MAIS