4 de junho de 2026

Clarice Lispector – Como seria nos dias atuais?

Clarice Lispector

(Crônica de Brendow H. Godoi)

Quem seria Clarice Lispector se nascida na década de noventa? Talvez, a pergunta mais adequada seja: “o que faria Clarice Lispector se nascida na década de noventa?”.
Pois bem, imaginemos o seguinte cenário: a jovem Clarice, no ano de 2020, lança uma certa novela intitulada “A Hora da Estrela”. Por não ter agente literário, a escritora não conseguiu acesso aos grandes grupos editoriais. Entregou sua obra nas mãos de uma editora independente.
Paralelo ao livro de estreia, Clarice possui um perfil literário no Instagram, denominado “Perto do Coração Selvagem” com pouco mais de quatro mil seguidores. Neste perfil, a escritora compartilha seus textos sanguíneos com o público, que interage pouco, apesar da genialidade de sua escrita.
A verdade é que, se publicada nos dias de hoje, a história de “Macabéa” seria lida por duzentos, trezentos leitores. Este seria o quantum de pessoas que adquiririam o livro da artista ucraniana naturalizada brasileira.

“A literatura brasileira é grande demais para ficar nas mãos desta anemia artística virtual.”

Apesar de triste, Clarice Lispector entenderia, afinal, seu livro não ensinou as pessoas a superarem relacionamentos, ou a serem felizes afetivamente ou a como empreenderem. Em “A Hora da Estrela”, não houve poesia com nomes ou rimas com signos astrais. Apesar do talento descomunal, se nascida na década de noventa, a autora de “Água Viva” provavelmente amargaria o anonimato.
Tal exercício é plenamente aplicável a Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, por exemplo. Em meio à era da autoajuda e de escritos tão rasos e óbvios, eles teriam o devido espaço nos dias atuais?
Estaria a literatura brasileira morta? Fixemos a resposta em não. Todavia, cumpre salientar que apesar de viva, a literatura brasileira enquanto arte agoniza em estado crítico, sufocada pela superficialidade e mediocridade de uma literatura pobre, óbvia e ridícula. Uma literatura comercial, voltada para a busca incessante de holofotes e curtidas.
Existem tronos vagos. Coroas que não foram transmitidas por falta de sucessores à altura. Vivemos um hiato. A mágica se apequenou e tem se mostrado cada vez mais rara. A literatura brasileira é grande demais para ficar nas mãos desta anemia artística virtual.

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