11 de junho de 2026

[CONTO] “Anoiteça o que anoitecer”, de Nildo Morais

“Anoiteça o que anoitecer”

 

Beach Palace. Um pouco mais de meia noite. Janne estava sentada no balcão do bar, de ressaca. Sua blusa caía pelos ombros, seus cotovelos sobre a mesa, e seu rosto mergulhava nas palmas de suas mãos. Ao lado, haviam mais três cadeiras sobrando e uma que continha apenas meia garrafa de tequila. Todos os hóspedes deveriam estar nos quartos. Ela não fazia ideia. A noite nunca esteve tão calma, nem mesmo os adolescentes desceram. A piscina estava vazia. A cozinha, vazia. Os sofás do salão, vazios.

O hotel havia se transformado em um cemitério de pensamentos. Um local onde os amantes sepultam suas noites de amor. Era o cenário perfeito para escrever um bom poema, ouvir um bom indie nacional ou aprender a embriagar seu coração em um copo largo com pouco gelo. Mas às vezes é preciso aproveitar as folgas que o destino dá pra gente, esquecer um pouco das velhas feridas e planejar como serão as próximas.  Isso, ela entendia muito bem.

Seu telefone havia tocado quatro vezes. Marlon não a deixava em paz e já faziam mais de seis semanas desde o término. Ele até era um cara legal, mas nada muito surpreendente. Tinha uma barriga de cerveja, um metro e sessenta e fazia piadas nas horas erradas (Caso esteja lendo isso, cara, sinto muito. Ela não está mais na sua). Vocês sabem: não deu certo. Janne terminou de beber o que faltava da garrafa. Limpou um pouco das lágrimas que insistiam em cair com o sereno e deixou a blusa como estava. O telefone tocou de novo, mas Marlon já tinha desistido. Digo, por essa noite.

— Oi.

— Oi.

— O que acha de tomarmos aquela vodka esse final de semana?

— Ah, me diga. Quem é você?

— Não conhece minha voz?

— Não.

— Qual é, Janne? Não lembra mesmo?

— Me desculpe…

— …

Desligou. Seja lá quem tenha sido, desligou. Ultimamente as pessoas não têm gostado de ser desconhecidas. Uma pena. Esqueceram que as plantas continuam crescendo no escuro. Não importa quanto tempo passe, sempre dá pra aprender mais um pouco. Mesmo que você esteja cheio de tequila em um hotel canibal de estrelas, mesmo que esteja sepultando suas noites de amor em um cemitério de esperanças, você sempre poderá aprender mais um pouco.

 

   A bebida gritava mais alto. Enquanto o céu chorava lá fora, outra coisa inundava lá dentro. Queria que você soubesse, Janne, que a vida é assim mesmo: telefonemas sem sentidos e piadas sem graça. Ainda é cedo pra se desesperar. Há quem diga por aí que é dentro de uma noite incomum que se levanta em nós um sol imbatível. Eu concordo.

 

———– CONTO DE NILDO MORAIS ———-

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