20 de outubro de 2026

[CONTO] “Carta de um avô que sofre de Alzheimer, ao seu neto”, de Luan FH

(O retrato; a arte, a pintura é de William Utermohlen, 2000)

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Querido neto, te escrevo hoje por meio destas palavras para descrever o crescimento da dificuldade que tenho de pintar. Já tenho esquecido quais contraste usar, quais cores se encaixam bem, aos poucos, aos poucos, vou perdendo a memória de como é sentir a vibração da vida, vou esquecendo da intensidade dos olhares, das conversas, dos dias claros e dos sábados, eu os amos. Hoje em dia os ventos sopram meus cabelos para interagir trazendo o que chamo de “talvez um novo recomeço”.

Se prepare, filho. Ninguém é de ferro, tampouco imortal, todo ser que nasce, morre, talvez nem todos, mas é importante para o ciclo da vida; alguém morre para outro nascer. Minha memória tem apagado como uma borracha apaga as palavras escritas à lápis. E tenho sonhado com teu nascimento, com meu casamento, e aquela entrada triunfal, sua avó entrou dançando, foi algo diferente de tudo. O que vou sentir saudade não é do trem que soa seu alarme às 6 da manhã, tampouco voar de avião para algum canto do mundo, não vou sentir saudade das poucas palavras do seu Tio, mas vou sentir dos meus bisnetos, e de não os fazer crescer com o mesmo ensinamento que eu te dei, querido.

Se algum dia eu não estiver mais aqui, faça-os ler isto, por favor. Queridos bisnetos, seu bisavô está partindo, porém, se por algum acaso vocês reclamem da vida, aprendam que os dentes caem, as pernas crescem, os medos vêm e a saudade devora o peito. Nunca deixem de amar porque alguma mulher disse para vocês serem mais “frios” ou “fortes”, uma mulher que vai te amar, vai amar o que há dentro de vocês; a essência da justiça. O afeto, isso os levarão longe.

Me escuta, neto. Perdoa seu pai, ele só queria seu bem ao te fazer trabalhar cedo, hoje você se tornou um Homem digno para a vida e capacitado para suportar as piores crises que vier. Eu tenho morrido lentamente, e isto é, o fato de não conseguir mais raciocinar como antes, tenho vivido dias lentos em memórias curtas e tenho chorado por ver que o tempo passa tão rápido que daqui a pouco é hora de dormir mais um pouco.

Eu queria voltar àquela noite de natal, sua avó tinha feito uma comida maravilhosa, e sua família estava lá, na verdade, nossa família. Foi inesquecível ter vivenciado momentos tão curtos, neto. Hoje é natal de novo? Ou é carnaval? Eu acho que é páscoa. Apenas viva, querido. E se prepare para a partida, ela é dolorosa, porém, ensina mais do que te faz chorar. A morte é um pai que bate no filho sem piedade, faz soluçar, porém, é melhor se acostumar.

Se cuida,

eu te amo, querido.

Com amor, teu avô

Aleksander

Henry.

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Conto de Luan FH

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