20 de setembro de 2026

[ENTREVISTA] Em romance, o escritor Nélio Silzantov reflete o existencialismo humano

As questões existenciais do ser humano, algo que atualmente se agrava com a pandemia, quarentena, crise econômica, etc, foi um dos motivos para inspirara o escritor Nélio Silzantov para escrever seu primeiro romance, “Desumanizados”, obra que mistura ficção, realidade, e as angústias internas e externas da espécie humana.

O autor, mestre em Filosofia e em Estudos da Literatura, reflete, em sua obra, o ser humano e as suas convicções no mundo que o cerca, desde a sua identidade até o ponto final: a morte.

Além destes conflitos, Nélio trabalha a influência da tecnologia na contemporaneidade e, assim, o lado sombrio da mente humana ao se conectar com outras pessoas. É dessa forma, que o escritor carrega o público à uma leitura repleta de referências filosóficas como as de Sartre, Heidegger e Schopenhauer.

Eu, Matheus Luzi, bati um papo bem agradável com Nélio sobre “Desumanizados”. A entrevista completa você lê a seguir.

Matheus Luzi – Qual foi o princípio do livro? Como ele surgiu? Como a ideia surgiu? Como ele ganhou vida?

Nélio – Creio que a dúvida sobre a natureza humana, o que nos torna aquilo que somos, foi o impulso criador do meu livro. Isso e o interesse de problematizar sobre a finitude da vida e de que modo as tecnologias influenciam o nosso comportamento em diversos espaços de convivência na contemporaneidade. Neste sentido, o agravamento da crise política, em 2015, foi um terreno fértil para o start de tudo.

Matheus Luzi – O fato de você ser licenciado em Filosofia e mestre em Estudos da Literatura, contribuiu o quanto neste livro?

Nélio – Tanto a Filosofia quanto os Estudos Literários foram fundamentais no meu processo criativo. Primeiro por me oferecerem um referencial teórico que gosto de explorar, seja para contestar alguma ideia ou reforça-la. Em segundo, todo tipo de conhecimento é mais do que válido em tudo aquilo que nos propomos fazer, e nesta perspectiva, não apenas essas duas áreas de conhecimentos foram importantes, como inúmeras outras que tenho interesse como, por exemplo: Cinema, Música, Psicologia e História.

Matheus Luzi – O livro é um romance. Como você introjeta todas essas questões apresentadas por você para definir a obra, dentro de uma estória?

Nélio – O fato de a narrativa ser majoritariamente em primeira pessoa e por meio do fluxo de consciência, nada mais natural do que fazer com que tudo aconteça por meio do pensamento dos personagens, e nisso, ter a liberdade para divagar sobre inúmeras questões que povoam a mente de todo e qualquer ser humano. É justamente a partir dessa liberdade e daquilo que caracteriza cada personagem (gênero, classe social, faixa etária, ideologias, etc) que a obra se constitui e se torna possível aproximar o romance do ensaio e de outras gêneros literários.

Matheus Luzi – Em linhas gerais, como é este romance? Qual o seu enredo, sua estória?

Nélio – “Desumanizados” nos apresenta a reconstituição de um grave acidente de um ônibus coletivo que vitimou nove dos seus onze passageiros. A história é narrada por um dos sobreviventes, conhecido como Zébastião, ex-noviço da Fraternidade Capuchinha que passou a viver nas ruas acompanhado por um vira-lata denominado Van Gogh. Acusado de ter causado o acidente e de cometer outro crime logo em seguida, entre os depoimentos ao delegado e as conversas com os demais presos, Zébastião discorre sobre a vida dos passageiros, levando seus interlocutores a se questionarem sobre o verdadeiro sentido da natureza humana. Como no caso da personagem Elizabete, que após 40 anos de casamento, decide ressignificar a vida ao lado de Dolores, o grande amor da sua juventude. O revés em seus planos acontece quando ela recebe a notícia de que Marco, seu ex-marido, veio a óbito ao envolver-se no trágico acidente do ônibus coletivo em que trabalhava. Prestes a sair de casa para liquidar a exaustiva jornada dos rituais fúnebres que tinha pela frente, uma ligação do Hospital Geral buscava informações sobre Dolores da Silva, internada em estado grave na UTI, vítima do mesmo acidente com o coletivo da linha R19A. O protagonismo em “Desumanizados” se divide entre os demais passageiros, cujo desenvolvimento da narrativa ocorre entre o antes e o depois daquela fatídica manhã chuvosa.

Matheus Luzi – Qual sua relação pessoal com tudo que envolve o livro?

Nélio – Eu diria que a minha relação com o livro é, de fato, bastante pessoal, na medida em que tento problematizar não apenas aquilo que vivenciei em minha terra natal, em Vitória da Conquista, mas em todo lugar onde passei e até mesmo onde nunca estive de outra forma a não ser por meio dos noticiários. Mas há também uma impessoalidade, uma vez que o que me interessa no livro não é impor ao leitor alguma tese ou ideologias com as quais me identifico, mas sim proporcionar a ele uma experiência diversa do início ao fim. Ou seja, há muito do que gosto e do que não gosto em “Desumanizados”, assim como há muito do que aprecio e do que desprezo, sem nenhum tipo de julgo ou mérito das questões. Em outras palavras, “Desumanizados” é aquilo que vejo do mundo. Se isso é o correlato perfeito dele ou não, cabe ao leitor o veredito final.

Matheus Luzi – Como foi seu processo criativo?

Nélio – Costumo dizer que foi bastante prazeroso e exaustivo. Ao contrário do que muitos pensam, há mais transpiração na obra de arte do que inspiração. Inúmeras vezes larguei o texto de lado, de tão cansativo que foi reler e reescrever, sucessivas vezes até chegar um ponto em que isso fosse mais possível ou necessário. Alguém já disse que um escritor nunca finaliza um livro, ele simplesmente encerra a labuta entregando-o nas mãos do editor.

Matheus Luzi – O que os leitores podem esperar desta publicação?

Nélio – Eu sou suspeito em dizer que os leitores encontrarão isso ou aquilo com minha obra, mas a tentativa foi proporcionar a eles a vida como ela é, a exemplo do que do Nelson Rodrigues e de tantos outros que trouxeram para a literatura uma realidade nua e crua. Além disso, há também um pouco de filosofia do cotidiano, cultura pop e outras tantas referencias artísticas que estabelecem um diálogo com tudo o que acontece na trama.

Matheus Luzi – Fique à vontade para falar o que quiser.

Nélio – Outra coisa que tenho dito sempre que posso é que precisamos valorizar os artistas locais e independentes, conhecer obras que são produzidas fora da nossa bolha social, aqueles que buscam um lugar ao sol fora dos grandes centros urbanos e sobretudo fora do eixão Rio-São Paulo. Não poderia deixar de agradecer à Revista Arte Brasileira pela oportunidade de apresentar o meu trabalho e falar um pouco sobre Arte num momento tão estranho como este que estamos vivendo.

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